Opinião | A religião é o ópio do povo

“A proposta de Marx era para que a classe operária saísse do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho.”

“A religião é o ópio do povo” se tornou um mantra, que na boca de muitos ateus fundamentalistas serve para desqualificar todo e qualquer sentimento religioso como nocivo para a razão; na boca dos cristãos fanáticos e fundamentalistas, serve para desqualificar Marx e o marxismo como uma filosofia herética e inconciliável com o cristianismo.

O pensamento inteiro, escrito em 1844 em “Uma contribuição à crítica da filosofia do Direito de Hegel”, de Marx, diz: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”. Com isso, ele não estava alinhando a religião a todas as drogas que existiam no século XIX e as que ainda seriam inventadas, mas ele falava de um tipo específico de droga – o ópio. E o que “a religião é o ópio do povo” significa em seu contexto originário? Vamos por partes.

O ópio, naquele século, era um narcótico que a Companhia Britânica das Índias Orientais contrabandeava às toneladas da Índia para a China, com a intenção de contrabalancear o comércio entre o Reino Unido e a China. O interesse pelos produtos chineses (chá, seda, porcelana) era enorme, ao passo que os chineses pareciam se interessar por um único produto – o ópio. A menção ao ópio é como uma metáfora, pois o cerne da questão é a exploração dos mais pobres pelos mais ricos – nesse caso, os chineses (mais pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para Marx, a religião servia para aliviar a vida dos explorados, que se apegavam a ela como uma compensação (o sofrimento religioso compensa o sofrimento real). Havendo um sociedade sem exploradores e explorados, a religião deixaria de existir, segundo Marx.

A proposta de Marx era para que a classe operária saísse do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho, e que reivindicasse o que era seu de direito: o controle do seu trabalho e a posse de seus frutos como propriedades legítimas; que abandonassem a felicidade ilusório, proporcionada pela religião, e tomassem posse da felicidade real. E isso somente poderia ser conquistado com a luta de classe e com a revolução. De outro modo, os ricos e poderosos jamais iriam renunciar ao seu papel de explorador.

Colocando a frase (“a religião é o ópio do povo”) dentro do seu contexto histórico-socal-político, a crítica de Marx visava atingir as religiões dominantes de então, que não só comungavam, mas colaboravam diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da classe trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa como a realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à luta de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe operária às privações sem o direito de aspirar à vida digna.

Nas décadas de 1960 e 1970, vimos (por mais paradoxal que possa parecer) que a união do comunismo (ou marxismo) com a filosofia cristã tornou-se uma realidade nos movimentos políticos, com o engajamento de padres católicos (principalmente, mas não só) nos movimentos populares de inspiração marxista, nos países pobres de maioria religiosa cristã, como nos países da América Latina. As duas visões filosóficas foram pouco a pouco se unindo, ignorando suas origens históricas distintas e hoje, por exemplo, elas têm muitos pontos em comum. Óbvio que em grande parte, a religião continua sendo o ópio do povo, servindo como um instrumento de alienação, apresentando uma alternativa “mística”, como se fosse a realização integral terrena do ser humano, impedindo que os trabalhadores tomem consciência da sua condição social e política e veja na luta de classes, e na prática revolucionária, uma saída para sua condição de opressão; além de colaborar diretamente com os poderosos, na exploração da classe trabalhadora, ajudando a apoiar pautas que são um retrocesso na luta histórica dos trabalhadores, como a aprovação da reforma trabalhista e previdenciária.

Porém, fica cada vez mais evidente que não só é possível, mas que é cada vez mais viável e urgente para um cristão ser marxista, socialista ou comunista, tal como para um marxista (comunista ou socialista) ser cristão – que não há contradição entre as duas leituras de mundo, mas que há complementação.


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura indígena, LGBT; apoia e coordena grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre, onde serve como missionário.

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