Editorial | O que Marx realmente disse sobre o cristianismo e o judaísmo


“A emancipação política deixa a religião subsistir, ainda que [não seja] nenhuma religião privilegiada […] A emancipação do Estado em relação à religião não é a emancipação do homem em relação à religião.” (Karl Marx)

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Karl Marx. Reprodução da internet.

Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818, na província alemã do Reno. Após 200 anos do seu nascimento (1818-2018), há várias linhas de pensamento no comunismo. Porém, essa de perseguição violenta aos religiosos Karl Marx condenou e combateu, inclusive apoiando a luta dos judeus por direitos civis e políticos, na Alemanha de sua época. Para apreender o seu pensamento sobre religião (notadamente o cristianismo e o judaísmo), é necessário remontar-se ao seu texto intitulado ‘Para a questão judaica’ e ao contexto da Alemanha do século XIX, na qual Marx viveu, a fim de não incorrer em erros de descontextualização das afirmações, já que elas são observações diretas e indiretas dos contextos histórico, social e político daqueles dias.

 

As origens religiosas de Marx

Marx era protestante de batismo e de ascendência judaica. Porém, a influência judaica da família, por parte principalmente de seus avós, paterno e materno, que foram rabinos, não teve muito peso na formação religiosa de Marx, já que seu seu pai se converteu ao cristianismo em 1817 (Marx nasceu em 1818) e parece ter feito questão de batizar seus filhos na igreja evangélica.

 

O contexto sociopolítico do jovem filósofo

Enquanto no início do século XIX países como Inglaterra e França se desenvolviam – com a indústria moderna naquela e a manufatura nessa -, a Alemanha predominantemente  rural (3/4 dos 23 milhões de habitantes) sequer era ainda um país unificado e bem definido. Essa período (primeira metade do século XIX) de penúria do povo e da estrutura sociopolítica alemã ficou conhecido como ‘miséria alemã’. Sob o domínio napoleônico,  apenas a Prússia, uma das unidades políticas alemãs, experimentou um pequeno desenvolvimento, que logo cessou com sua derrota.

A Prússia, agora sob o comando de Frederico Guilherme III (1770-1840), que reinou de 1797 até sua morte, passou a ser o símbolo reacionário patrocinado pela Santa Aliança, rompendo com ideias constitucionais, democratizantes e liberais. Como consequência, a Confederação Germânica da terceira década do século XIX não era um Estado propriamente dito, mas um conjunto de cerca de quatro Estados, com representação política heterogênea, dominação de uma nobreza fundiária, entraves legatários do feudalismo e ausência de laicização.

Passam-se os anos e a Alemanha desenvolve sua economia e política, tendo como consequência o aumento das diferenças sociais: diminui o campesinato, cresce o proletariado (ainda sem muitos direitos); a burguesia se insurge contra os interesses da nobreza fundiária. É nesse contexto, com uma burguesia debilitada e um proletariado ainda informe e sem consciência política, que surgem os intelectuais que fariam frente ao regime opressor prussiano e à ‘miséria alemã’, embalados pela filosofia de Kant, Goethe e Hegel; esse último, uma das grandes inspirações de Marx.

O pensamento de Hegel reinava nas Universidades da Alemanha, entre os anos 1830-1840), inspirando os jovens, entre eles, o jovem Karl Marx. Desse fervor intelectual surgiria a ‘esquerda hegeliana’, contra o regime prussiano. Todavia, as ideias de Hegel não eram um consenso, logo seus seguidores se dividiram entre esquerda e direita hegelianas. Na esquerda estava Bruno Bauer, nove anos mais velho que Marx e um intelectual já muito reconhecido, que fora aluno de Hegel. Marx se aproximaria de Bauer e com ele faria uma grande amizade, mas também seria seu grande adversário intelectual, principalmente por causa do ataque aos judeus.

 

‘Para a questão judaica’

Os direitos civis que os judeus alcançaram na ocupação da Alemanha pela frança foram retirados no restabelecimento da Confederação Germânica, influenciado pela Santa Aliança, que trouxe de volta o conceito de Estado cristão. Com o édito de 4 de maio de 1816, os judeus foram proibidos de exercer funções públicas na Confederação.

Escrito em 1843 e publicado em 1844, ‘Para a questão judaica’ é uma análise crítica de textos que Bruno Bauer publicou (‘A questão judaica’ e ‘A capacidade dos judeus e dos cristãos hodiernos para se tornarem livres’), nos quais ele ataca de forma incisiva a luta do judeus por direitos civis e políticos. Nessa época, Marx tinha apenas 25 anos e ainda não havia desenvolvido sua perspectiva revolucionária; era um democrata radical caminhando para o comunismo. Mas esse é considerado um dos escritos mais importantes do Marx jovem.

Bauer acusou os judeus de egoístas, por só se preocuparem em lutar por sua liberdade religiosa, ao passo que, segundo ele, não deveriam perder tempo com isso, mas deveriam lutar pela libertação política de toda a humanidade. Para ele, era oportunismo os judeus reivindicarem que o Estado abdicasse de suas exigências religiosas, enquanto eles mesmos não abdicavam de serem judeus, mas se viam como um povo eleito e privilegiado. Bauer diz que cristãos e judeus devem renunciar à religião para que o Estado se emancipe de fato. Mas, como o judaísmo é de caráter particular, e o cristianismo de caráter universal, os cristãos são mais aptos à emancipação. No fim, além de exigir que cristãos e judeus renunciem à religião, como condição para emancipação do Estado, ainda lança a discórdia entre eles, jogando um contra o outro.

E o mais importante: Bauer via questão judaica como uma questão religiosa, incorporando-a à questão política, ou seja, a emancipação religiosa depende da emancipação religiosa.

É aí que Marx entra, para defender a causa dos judeus e das religiões em geral em ‘Para a questão judaica’. Bauer erra ao apenas investigar quem deve emancipar e quem deve ser emancipado, e não de que tipo de emancipação se trata (política, religiosa ou humana?). Também erra ao submeter à crítica apenas o Estado cristão, e não o Estado em si, abordando a questão do ponto visto puramente religioso. Para Marx a questão da emancipação é política, não religiosa. E a emancipação política não depende da religiosa, nem com ela guarda qualquer relação.

Mas a questão crucial que Marx observa é que nem a emancipação política nem a religiosa podem emancipar a humanidade, embora a política seja importante. Logo, a emancipação política também não pode tornar os judeus livres, embora eles possam se emancipar sem renunciar a sua religião e cultura.

“Não dizemos, portanto, com Bauer, aos judeus: vós não podeis ser politicamente emancipados, sem vos emancipardes radicalmente do judaísmo. Nós dizemo-lhes antes: porque vós podeis ser politicamente emancipados sem vos verdes completamente livres e sem contradição do judaísmo, por isso [é que] a ‘emancipação política’ não é propriamente a emancipação ‘humana’.”

Importante que Marx derruba a exigência de Bauer, de que os judeus (ou outros religioso quaisquer) são obrigados a renunciar a sua crença em prol do Estado; e de que a religião deve ser suprimida pelo Estado:

“A emancipação política deixa a religião subsistir, ainda que [não seja] nenhuma religião privilegiada […] A emancipação do Estado em relação à religião não é a emancipação do homem em relação à religião.”

Marx inclusive defendeu o cristianismo e o judaísmo como ideologias de combate às injustiças sociais impostas ao povo pela burguesia, de combate à exploração do homem pelo próprio homem. Bauer defendeu a ideia de que os judeus não eram sequer merecedores de receber direitos humanos, enquanto não negassem sua fé.

Para Marx, a verdadeira emancipação, da humanidade, viria dos próprios cidadãos, com consciência social e política, não do egoísmo, do individualismo, das emancipações política e religiosa e da alienação, resumidamente.

 

“A religião é o ópio do povo”

Quando Marx disse que “a religião era o ópio do povo”, ele se referia a essa religião criada pela elite social, alienante, que levava (e leva) o povo à aceitação das desigualdades e à passividade diante das injustiças.

Em seu artigo ‘A religião é o ópio do povo‘, publicado pelo Ativismo Protestante, Felipe Catão desnuda melhor essa frase de Marx e seus desdobramentos, à luz de seus contextos histórico, social e político:

“O ópio, naquele século, era um narcótico que a Companhia Britânica das Índias Orientais contrabandeava às toneladas da Índia para a China, com a intenção de contrabalancear o comércio entre o Reino Unido e a China. O interesse pelos produtos chineses (chá, seda, porcelana) era enorme, ao passo que os chineses pareciam se interessar por único produto – o ópio. A menção ao ópio é como uma metáfora, pois o cerne da questão é a exploração dos mais pobres pelos mais ricos – nesse caso, os chineses (mais pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para Marx, a religião servia para aliviar a vida dos explorados, que se apegavam a ela como uma compensação (o sofrimento religioso compensa o sofrimento real). Havendo um sociedade sem exploradores e explorados, a religião deixaria de existir, segundo Marx.

A proposta de Marx era para que a classe operária saísse do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho, e que reivindicasse o que era seu de direito: o controle do seu trabalho e a posse de seus frutos como propriedades legítimas; que abandonassem a felicidade ilusória, proporcionada pela religião, e tomassem posse da felicidade real. E isso somente poderia ser conquistado com a luta de classe e com a revolução. De outro modo, os ricos e poderosos jamais iriam renunciar ao seu papel de explorador.

Colocando a frase (“a religião é o ópio do povo”) dentro do seu contexto histórico-sócio-político, a crítica de Marx visava atingir as religiões dominantes de então, que não só comungavam, mas colaboravam diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da classe trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa como a realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à luta de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe operária às privações sem o direito de aspirar à vida digna.”

 

A criação da figura mítica de um Marx antissemita e ateu

Agindo de pura má fé, pessoas têm tentado demonizar Marx, principalmente religiosos e intelectuais reacionários, usando a velha e covarde arma de citar frases isoladas de sua estrutura textual e fora de seu contexto. Usam expressões isoladas citadas por Marx para caracterizar a religião capitalista, alienante e egoísta, como “deus mundano”. À certa altura, quando faz uso dessas expressões, Marx já não distingue o religioso do cidadão social, pelo contrário, considera todos iguais na luta de classes:

“Procuremos romper a versão teológica da questão […] Consideramos o judeu mundano real, não o ‘judeu do Sabat’, como Bauer faz, mas o ‘judeu de todos os dias’.”

O ‘judeu de todos os dias’ é o trabalhador explorado no dia-a-dia.

O objetivo sórdido dessas pessoas, de criar um Marx antissemita, ateu, perseguidor e disseminador de ódio contra a religião, muitas vezes prosperou entre os incautos e na ignorância e simplicidade dos cristãos. Isso só mostra a má intenção, no vale tudo para demonizar a esquerda. Essas narrativas vêm principalmente de reacionários de extrema-direita, intelectuais liberais e da elite religiosa, dos milionários exploradores da fé, pois eles sabem que, na verdade, Marx queria mesmo era nos libertar deles.

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