Opinião | Não podemos chamar de boazinhas pessoas preconceituosas


“Face a todo esse panorama de violência e ódio gritantes, como podemos ter a fama mundial de ‘pessoas felizes e boazinhas’?”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 19/05/2019.

O cantor baiano Luiz Caldas se apresenta no palco Arouche Brega, na Virada Cultural de São Paulo. Foto: Ativismo Protestante.

Na Virada Cultural de São Paulo, que começou ontem e terminará hoje, o palco dos evangélicos na foi na Praça da Sé, com cantores gospel. Eu, como sempre, fiz questão de passar bem longe, pois, desde que reconheci minha homofobia religiosa, não consigo mais comungar de momentos felizes com pessoas homofóbicas, preconceituosas.

Há pessoas boas no meio? Parece óbvio dizer que sim, mas não é. Uma pessoa preconceituosa pode ser considerada boa? Para mim não, ainda que todo o resto de sua vida seja exemplar. Ela precisa reconhecer seu preconceito e mudar.

Aliás, é justamente essa distorção da realidade que criou o mito de que o Brasil é um país, cristão, feliz e de pessoas boazinhas. Os mitos… sempre eles. Esse mesmo país mítico é um dos lugares onde mais matam homossexuais, tem uma das polícias que mais mata no mundo e alimenta diariamente as tristes estatísticas de feminicídio. Também é um dos mais racistas do mundo.

Os fatos supracitados são tão evidentes em nosso cotidiano que dispensam precisão númerica. Estão ao nosso lado. Às vezes muito próximo, em nossa família.

Face a todo esse panorama de violência e ódio gritantes, como podemos ter a fama mundial de “pessoas felizes e boazinhas”?

Considerando esse lado perverso dos evangélicos, preconceituoso e excludente, preferi ser feliz, nesse dia especial que é a Virada Cultural, bem longe deles.

Estive no palco Samba e MPB, na Avenida São João, onde ouvi o maravilhoso samba de raiz de Teresa Cristina e a MPB de Vanessa da Mata; no palco Arouche Brega, com Luiz Caldas e travestis; no palco Anhangabaú Plural, com Criolo, Caetano e Annita; na Galeria Olido, incríveis apresentações de companhias de dança, com a temática da homofobia e do nu artístico; e no palco Paissandu Piolin, com palhaços e outros artistas circenses, alguns com síndrome de down, mas com as mesmas capacidades físicas e intelectuais dos demais.

Em quase todos os shows ecoaram os gritos de “fora Bolsonaro!”. Momentos de liberdade de expressão para lavar nossa alma, tão atacada e ferida nos últimos meses, por pessoas e políticos de extrema-direita, evangélicos inclusive, que veem no presidente Jair Bolsonaro a encarnação de todo seu ódio.

Definitivamente, foi a Virada da diversidade. Por todos os lados, pessoas amavam incondicionalmente, livres de preconceitos. Esse Brasil existe e é real, não pode ser aniquilado, como desejam as hordas bolsonaristas.

Em meio à festa e alegria sincera das crianças, a voz de um malabarista palhaço decretou o fim do ódio: “Pode fazer balbúrdia à vontade!”. Um verdadeiro palhaço, ensinando que é um grande erro chamar de Bozo figuras reacionárias e truculentas, como Jair Bolsonaro.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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