Editorial | O que é o Carnaval?

Bangalafumenga – Foto Fernando Maia/Riotur, editada.

Para a maioria dos Evangélicos o carnaval é sinônimo de quatro dias de depravação do corpo. É uma festa pagã, em que todos que participam dela deverão prestar contas a Deus pelos dias de folia e desobediência. Ai do irmão ou irmã que ousar pular o carnaval. Certamente será réu de condenação sumária nos tribunais fundamentalistas. Ninguém escapa. Não é à toa que se criou a cultura do “retiro de carnaval”, ou seja, é preciso se retirar da festa do mal que contamina. É a demonização do carnaval.

Há uma pitada forte de puritanismo do corpo e fundamentalismo religioso em detrimento de uma fé pensante e libertária, da alegria da vida, da descontração, da manifestação do povo por meio de danças, batuques e músicas, da valorização de nossa bela cultura brasileira. É preciso dizer também que nos falta muita informação histórica, concreta e sensibilidade para entender o que é o carnaval, como também da infeliz capacidade dos evangélicos neoconservadores em decretar juízo condenatório aos que desobedecem a sã doutrina-institucional.

O carnaval é uma das mais belas manifestações de nossa cultura, cheia de diversidade e beleza. Estas são apresentadas nas diversas regiões brasileiras, cada uma com sua história e peculiaridade. Basta ver as danças ao som do frevo e do maracatu de Recife e Olinda, em meio ao colorido e preservação da arte e cultura destas cidades, os desfiles dos bonecos e outras manifestações culturais. Também nos batuques e enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro, nos morros com seus carros alegóricos, fantasias e passes ensaiados com amor, esforço e dedicação dos mestres-sala. Como não valorizar o carnaval da Bahia onde se resgata todo o ano a história, cultura e costumes do povo negro, ao som do olodum com seus tambores coloridos, repiques e timbaladas?

Há uma ignorância no ar. Por muitas décadas nos foi ensinado, infelizmente de maneira alienante, que devemos nos manter afastados sob regime de pureza das coisas que manifestam o pecado na sociedade que nos rodeia. Contudo, mais uma vez é preciso perguntar. O que de fato nos contamina? O que de fato é pecado? O preconceito, a divisão, o ódio, o individualismo, a ganancia, o desrespeito ao outro, a indiferença às injustiças, a hipocrisia, a ausência de misericórdia e partilha. Essas coisas certamente nos contaminam e nos tornam pessoas desprezíveis. O Carnaval é uma das mais relevantes manifestações da nossa cultura, é alegria de cores e animação do nosso povo, não uma festa demonizada e do mal.


Sobre o autor desse artigo

Marcos Aurélio dos Santos é Teólogo, facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito (FEED) no Rio Grande do Norte e Coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão. Escreve como colunista do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Ativismo Protestante.

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Um comentário

  1. Muito corajoso seu artigo, pois traz a tona o mal-estar protestante brasileiro diante da cultura. Acho que o carnaval se tornou expressão de extravagâncias justamente pela ausência de uma participação crítica da igreja.

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