Vanessa Barboza | Eu sou negra e sou linda


“Precisamos assumir que a igreja institucional, por mais negra que seja, é um local onde a ideologia racista se reproduz com força. Isso precisa ser reconhecido como um pecado coletivo.”


Por Vanessa Barboza *

Vanessa Barboza. Imagem própria editada.

Quando eu tinha 10 anos de idade, minha mãe começou a alisar meus cabelos. Ela dizia: “seu cabelo não é ruim, Vanessa! Mas é muito volumoso… não quero que ninguém deboche de você”. Eu sentia que havia algo de errado comigo. Quando começamos a frequentar a igreja evangélica da comunidade local, em uma periferia da zona norte de Recife, tudo piorou para os meus cabelos, e o restante do meu corpo. O que era uma situação eventual, tornou-se rotina semanal. Era um processo sofrido (gases tóxicos, náuseas, assédio emocional, puxões e repuxões), mas todas as mulheres que frequentavam o salão de beleza do bairro concordavam que era um sofrimento necessário. Minha mãe fazia o seu melhor por mim, mas havia sido socializada nessa cultura brasileira de perversa desigualdade racial.

A necessidade era tornar-se bela e melhorar a aparência, demonstrar como a luz de Cristo havia mudado nossas vidas, a começar pela nossa aparência.

Na igreja, a cultura gospel, que transita todos os territórios economicamente privilegiados ou não, reforçava a vigilância sobre o corpo (e o cabelo), de tal maneira que sofríamos repreensão verbal explícita ou piadas infames caso nos apresentássemos na congregação com o cabelo “mal arrumado”. Eu lembro bem dos encontros femininos sob orientações e conversas informais que reforçavam uma urgência e manutenção de adequação estética, baseada num modelo branco de ser. Foi um processo de interiorização de uma ideia de “feiura natural” que precisava ser modificada. Ah, como eu queria melhorar! Como eu queria ser e estar dentro do padrão de todas as jovens da igreja!

Parece um relato banal do cotidiano de uma adolescente crente e periférica, mas, essa é a realidade de milhares de crianças e adolescentes negras brasileiras bombardeadas por um poder simbólico, que atua por meio de mídias e produções culturais de diferentes tipos, e em diferentes espaços – inclusive na igreja.

Certo texto bíblico diz que Satanás se transveste de anjo iluminado para enganar a todos e todas. Pois bem, era por meio desses discursos sutis e enraizados no racismo – e numa ideologia do embranquecimento – que recebi uma educação cristã feminina na igreja.

A maneira como esse assunto é tratado, com uma naturalidade apática e rotulação de “mimimi”, revela bem como o racismo opera sutilmente em nossas igrejas. A força pedagógica que os espaços de fé possuem na educação de seus adeptos influencia seus modos de ser e estar no mundo. Reforça um pensamento e postura não-crítica sobre tudo a sua volta, inclusive sobre o que se diz sobre suas vidas e seus corpos.

A tão prometida mudança de vida do cristianismo, proferida por diferentes correntes teológicas, parece deixar de priorizar aspectos tão relevantes da vida, como a ética, o amor e a misericórdia – tão necessários à vida em comunidade -, enquanto concentram fortes esforços pedagógicos (e discursivos) em doutrinar o povo em como se vestir e falar de maneira característica, de tal modo que “não se misturem com essa gentalha”.

Outra questão a ser considerada é a do racismo cultural e estrutural que vivemos em nossa sociedade. E, quando digo sociedade, incluo aqui as igrejas como segmento desta, refletindo em si todas as contradições e mazelas humanas. Precisamos assumir que a igreja institucional, por mais negra que seja, é um local onde a ideologia racista se reproduz com força. Isso precisa ser reconhecido como um pecado coletivo. Quando demonizamos e perjorativizamos a cultura afrodescendente e negra, quando omitimos ou ocultamos referências bíblicas afroncentradas, ou quando hierarquizamos modelos culturais – onde o branco é referencial de tudo que é bom e correto – perpetuamos um legado perverso e anticristão, que em nada se parece com Jesus.

Tantas personagens históricas merecem nosso olhar de esperança e fé, e mesmo assim são tão negligenciadas em nossa homilética. A mulher Sulamita, personagem central no livro ‘Cantares’ de Salomão’, afirma sua negritude e beleza em tom de denúncia. Agar, a egípcia, é injustamente expulsa da casa de seus patrõe, pelo lugar que legitimamente ocuparia no seio da família abraâmica. A mulher virtuosa de ‘Provérbios’ por acaso era ocidental ou caucasiana? E a Rainha de Sabá… mulher negra, inteligente e poderosa, é apresentada levianamente maculando as construções subjetivas e simbólicas em torno da imagem da mulher negra.

E Jesus Cristo? Seu diálogo filosófico e amoroso com a mulher samaritana nos ensina que não há discriminações étnico-racial ou pratiarcalismo que se sustentem em seus ensinamentos.

Então, por que o véu ainda está posto em nossos olhos? Por que ainda reforçamos uma cultura que vê nas diferenças um mal a ser exterminado? Até quando vamos ensinar as nossas crianças que suas características naturais são inferiores e feias, e submeter nossas mulheres e homens de fé?

Nossas meninas e mulheres negras têm sofrido um perverso processo de adoecimento emocional e psicológico no decorrer dos séculos, e a igreja não pode permanecer omissa a este pecado!

O movimento negro e o movimento de mulheres negras, como as pedras que clamam, já vêm denunciando a violência física e simbólica, o racismo, e o sexismo perpetrado por sociedades “desenvolvidas”, em detrimento das demais sociedades “em desenvolvimento” – países da América do Sul, e da África principalmente. Quanto nos falta ainda para despertarmos? Quando uniremos nossas vozes aos que lutam pela Justiça?

Reafirmar e reivindicar representações da nossa identidade racial é urgente, assim como da resistência e existência de liberdade e ação salvívica do Evangelho de Jesus Cristo! Precisamos que esse grito e esse brado também ressoem das vozes de nossas meninas e mulheres negras evangélicas: “EU SOU NEGRA E SOU LINDA!


Referências Bibliográficas:

Comitê de Gênero e Direitos Humanos do Movimento Negro Evangélico em Recife: Nas ricas contribuições da ativista Elis Lages e Rafaela Blavasky

Bíblia Sagrada: Livro de Cânticos de Salomão, Livro de Provérbios e Livro do Evangelho de São João.

Tornar-se Negro: As vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social / Neusa Santos Sousa – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. Coleção Tendências, v.4.

https://www.geledes.org.br/hermeneutica-negra-feminista-um-ensaio-de-interpretacao-de-cantico-dos-canticos-1-5-6/


Sobre a autora desse artigo

*Vanessa Barboza é mobilizadora local do Movimento Negro Evangélico em Recife, Co-fundadora do Coletivo Vozes Marias, Assessora da Escola de Fé e Política Pastor Martin Luther King, Assistente Social, mestranda em Educação, Culturas e Identidades (UFRPE/FUNDAJ), Especialista em Gestão da Política de Assistência Social (UNICAP), Professora substituta de Serviço Social (UPE).

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