Editorial | Igreja pode ser conservadora, mas não reacionária


O reacionário não é necessariamente um conservador. A confusão está nesses termos. Enquanto a vida flui e se altera, o espaço-tempo do reacionário não passa, permanece parado.


Publicado em 05/05/2019.

Evangélicos fazem ato contra o ódio, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Ativismo Protestante.

É compreensível que uma igreja cristã seja conservadora, pois não é de todo errado ter como objetivo o bem-estar e a defesa da família, desde que considere todas as formas, inclusive as constituídas por gays, não só as “tradicionais” heteronarmativas. Também não é um erro prezar a moral, não só a religiosa, mas também as demais seculares. O problema está em ela ser reacionária, pois esse pensamento é radical, não mede esforços para reprimir mudanças sociais necessárias, ainda que tenha de recorrer à violência.

O reacionário não é necessariamente um conservador. A confusão está nesses termos. Enquanto conservadores velam pela moral e pelas instituições estabelecidas, mas dispostos a mudanças, reacionários são contrários a tudo que não seja padronizado segundo preceitos antigos e antiquados, não importando os meios para oprimir e evitar que algo novo se estabeleça como legítimo. O próprio conceito nasceu de um momento de mudança, na Revolução Francesa, para distinguir aqueles que eram contrários ao movimento revolucionário que derrubaria o Antigo Regime e as castas poderosas da França. O reacionarismo se manifesta de várias formas, em vários esferas, política, religiosa e social.

Na política, há um forte empenho da extrema-direita para retirar direitos  trabalhistas e sociais conquistados durante muitos anos, frutos de muita luta e sangue derramado dos trabalhadores e das entidades civis organizadas. A reforma previdenciária, do ministro da Economia Paulo Guedes,  e o pacote anticrime, do ministro da Justiça Sérgio Moro, são duas medidas que incorporam esse espírito reacionário. Uma retira direitos previdenciários e corta benefícios dos mais pobres, a outra concede ao Estado o direito de matar, com o excludente de ilicitude para policiais. Nessa sociedade punivista, sabe-se que os mortos serão os pobres, principalmente os negros.

Na religião, exemplos disso são as violentas manifestações político-religiosas da bancada evangélica contra as várias formas de amor gays, que não se encaixam nos padrões heteronormativos. O domínio patriarcal e machista sobre os corpos das mulheres também é recorrente do reacionarismo religioso, que as impede de decidirem até mesmo sobre ter ou não um filho, como no caso da luta pela descriminalização do aborto.

No conhecimento, há o anti-intelectualismo nos ataques e tentativas da extrema-direita, liderada pelo atual presidente Jair Bolsonaro, de apagar da história os métodos de ensino que ensinam a questionar, igual à Pegadogia do Oprimido, de Paulo Freire, a Teologia da Libertação, de católicos progressistas, e a própria ciência, como a Filosofia e a Sociologia. Recentemente, o ministro da Educação de Bolsonaro desencadeou uma série de ataques às Universidades e ao meio acadêmico, incluindo alunos e professores. Houve corte no orçamento das Universidades públicas.

Nas artes, há o obscurantismo de grupos radicais, como o MBL, que tentou várias vezes, através da censura, impedir que exposições de obra de arte e representações artísticas fossem mostradas, por conter nudez.

No social, o reacionarismo promove a xenofobia, construindo muros físicos e barreiras virtuais, para dificultar a locomoção e o acolhimento humanitário das pessoas que foram obrigadas a deixar seu país de origem, em busca de ajuda. Bolsonaro retirou o Brasil do Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular, que foi debatido no âmbito da ONU, a partir de 2017, e ratificado por 164 países. O documento criou diretrizes, como defesa dos direitos humanos e restrições ao fluxo migratório somente como último recurso. A criminalização de movimentos sociais também está na pauta.

Já em sociedades embranquecidas, como a nossa, políticas de ações afirmativas, com finalidade de reparação histórica e inclusão social, são vistas como privilégios, pois atentam contra a ordem racial determinada pela meritocracia. O MBL representa bem esse papel, na figura do vereador paulista Fernando Holiday, seu militante, que, mesmo sendo negro, luta contra cotas raciais nas Universidades, concursos públicos e quer revogar o Dia da Consciência Negra.

Para o reacionário vale tudo nessa luta inglória: de censura, até recorrer ao saudosismo obscurantista da ditadura, negando seu caráter cruel e exaltando práticas de tortura e assassinatos como um meios viáveis para exterminar quem pensa diferente. O reacionarismo não é algo bom para a sociedade, à medida que recorre até mesmo à violência para reprimir atos e pensamentos que queiram romper com paradigmas que já não alcançam mais a totalidade da diversidade humana.

Enquanto a vida flui e se altera, o espaço-tempo do reacionário não passa, permanece parado. Até a História precisa ser subvertida, para que não haja nenhuma mudança real, nenhuma descontinuidade no curso das coisas, e prevaleça o imobilismo social. Se o revolucionário vislumbra um futuro de luzes, onde todos sejam iguais perante a lei e tenham as mesmas oportunidades, o reacionário delira com a nostalgia de um passado frustrado, destruído pela ciência, pela política pelo conhecimento, pela religião e pela elite. Logo, todos são inimigos a serem abatidos.

Bolsonaro é o grande exemplo para os reacionários de hoje, e um péssimo exemplo para as igrejas cristãs, notadamente as evangélicas, que o têm confundido com um conservador. Ele é amante da ditadura e da tortura, como meios legítimos para aniquilar quem pensa diferente. É armamentista, defende o uso da violência para combater violência. Recentemente, também fez uso da censura, ao proibir a veiculação de um comercial do Banco do Brasil, que celebrava a diversidade entre jovens, com negros e gays.

Enfim, o reacionário é alguém que nutre ódio pela transformação social, seja ela qual for. A Bíblia do reacionário é igual a eles: parada no espaço-tempo. Não evolui com nem como a sociedade. A igreja de Cristo não pode seguir esse caminho tenebroso.

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