Ameaçada, ativista evangélica a favor da descriminalização do aborto deixará o país


Camila Mantovani relatou ameaças, perseguições e o risco de vida que corre, por lutar pelos direitos reprodutivos das mulheres.


Publicado em 29/04/2019.

Camila Mantovani. Reprodução do YouTube.

A ativista evangélica Camila Mantovani, de 24 anos, decidiu deixar o país após sofrer ameaças e perseguições, por causa de sua militância em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. O anúncio foi feito em sua página no Facebook, na última sexta-feira (26), e repercutiu no meio evangélico progressista e nos jornais.

“Quem defende a laicidade do Estado é massacrado por um Estado que não é laico. Perdi o direito de viver com minha família e meus amigos, de levar meu trabalho a diante. Perdi esse direito porque o fundamentalismo que governa o Brasil hoje assassina qualquer profeta que denuncie o pecado das grandes lideranças. Perdi meus direitos porque um Brasil governado por evangélicos é um Brasil antipovo, antidireitos, antipluralidade, que é tão importante pra assegurar a democracia! Estou indo embora do país em exílio depois de esgotar todas as minhas possibilidades de ficar aqui e permanecer viva. Lutei o quanto pude pra não ter que sair, mas me colocaram no limite” – escreveu a jovem.

Camila fundou, com outras mulheres de diferentes igrejas, a Frente Evangélica pela Legalização do Aborto, que luta para que o aborto seja tratado como um problema de saúde pública e um direito de escolha da mulher, não como crime ou pauta religiosa. Desde setembro, ela foi obrigada a sair da casa onde morava no Rio de Janeiro, por segurança, e desde então vive sem endereço fixo. A ativista também se declara homossexual.

“Há algum tempo eu estou sendo ameaçada e perseguida. Minha vida está em risco nesse momento. Ameaças de morte e mensagens de ódio eu já recebo na internet há pelo menos dois anos. De setembro pra cá, a coisa se materializou de outro jeito. São perseguições, gente de tocaia na porta da minha casa e pessoas armadas me seguindo na rua” – contou Camila ao G1.

O caso será investigado pelo Ministério Público e pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, que receberam a denúncia encaminhada pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Apoio de igrejas e organizações civis cristãs

Frente Evangélica pela Legalização do Aborto. Reprodução do Facebook.

Camila está sendo apoiada por diversas igrejas e organizações civis evangélicas que também lutam pelos direitos humanos. A ativista foi incluída em um programa de refugiados, e os custos de seu exílio serão viabilizados pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristas do Brasil (CONIC), que divulgou uma nota de solidariedade à jovem e repúdio à violência contra defensores dos direitos humanos:

“Há bastante tempo, o protagonismo de Camila tem provocado a raiva de líderes religiosos evangélicos fundamentalistas. Hoje, a raiva tornou-se ódio.

A perseguição vivida por essas pessoas é consequência da instrumentalização da fé cristã para legitimar discursos de ódio. O fundamentalismo religioso não aceita o pluralismo nem a crítica à religião – mesmo que ela cause algum de tipo opressão ou violência.”

Apoio do PSOL

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), do qual Camila era militante, também divulgou uma nota de solidariedade, repudiando os ataques e criticando a bancada evangélica “fundamentalista”, que é radicalmente contra a descriminalização do aborto:

“Uma bancada fundamentalista se constituiu nas casas legislativas a partir de um pretenso ‘voto evangélico’ que organiza o ódio contra setores historicamente oprimidos sob uma perspectiva vil e conservadora. O maior ultraje desse setor político é tentar monopolizar o sentido e a mensagem com referência na fé cristã. Mulheres como Camila Mantovani e tantas outras lideranças religiosas se levantaram para mostrar que a mensagem do evangelho é incompatível com o discurso de ódio e desumanizador dos mercadores da fé.

Em resposta a isso, já há dois anos, Camila tem sofrido ataques sistemáticos e ameaças à sua integridade física, inicialmente nas redes sociais, por simplesmente usar sua voz para expressar sua fé em uma mensagem de amor e defesa dos mais oprimidos. Centralmente, essa é uma luta pelos direitos das mulheres, pelo combate à morte de milhares mulheres, especialmente as negras e pobres, que são obrigadas a se submeter a procedimentos irregulares de aborto, pelo direito destas decidirem sobre seu corpo, pela descriminalização e legalização do aborto. Por construir essas lutas, Camila e outras tantas mulheres cristãs estão sendo perseguidas e ameaçadas de morte.

Recentemente, os ataques se tornaram mais sérios, presenciais. Camila, por mais de uma vez foi seguida e abordada nas ruas, ações nitidamente intimidatórias. Consideramos que aqueles que ameaçam Camila se sentem legitimados por um discurso de ódio e autoritarismo que se expressa em algumas igrejas e na cúpula da política brasileiras que tentam calar pessoas como Camila.”

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