Opinião | Há feministas “bolsonaristas”, que não acreditam em pesquisas


“Como alguém pode dizer que odeia macho e depois ir até a comunidade querer incutir progressismo e consciência de classe nos homens jovens e adultos que moram lá?”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 19/04/2019.

Reprodução da internet.

O título desse artigo é um absurdo, no sentido de contrariar a razão, pois não é possível uma feminista bolsonarista. Ou é uma coisa ou é outra. Mas é possível que alguém se declare feminista e haja como bolsonarista, contrariando a lógica, o bom senso e até a ciência. O inverso é improvável que aconteça. Muitas mulheres têm proferido ataques ao gênero masculino, sob pretexto de feminismo. Outro absurdo, agora no sentido de ser algo estúpido, o qual a palavra também encerra em si. Daí a necessidade de homens entrarem nesse debate sobre feminismo, nem que seja para se defender.

A frase mais agressiva e mais usada para proferir esses ataques é “odeio macho”. Talvez por ser a mais ofensiva, causa mais danos, e a mais extensiva, atinge todos os homens. Ninguém escapa. Ao ofender o gênero masculino, estão inclusos o negro, o homossexual,  o periférico, o favelado e o trabalhador.

Aliás, a maioria dos homens odeia esse tipo de afirmação, não porque são machistas, ou não, mas porque a percebem como uma ofensa. Qualquer ataque sempre acarretará reação, e quanto mais violento, mais violenta ela pode ser.

Pesquisa Datafolha, feita em abril e publicada recentemente, mostrou baixa adesão das mulheres ao feminismo, e os dois principais motivos citados (por mulheres) são os estereótipos criados de que mulher feminista não cuida do corpo e prega ódio aos homens.

Mesmo assim, essas mulheres, que se dizem feministas, insistem no erro, dizendo que é “macho” falando, quando algum homem tenta colocar isso em pauta.

Aí já é caso de burrice mesmo. Primeiro porque tal debate é improdutivo, já que nem desconstrói o machismo nem agrega mais mulheres ao feminismo. Segundo porque é contraproducente, ou seja, gera um efeito contrário ao desejado: alimenta os machistas e afasta as mulheres.

Essas frases simplórias e agressivas não ajudam em nada, só atrapalham trabalhos sérios. Não há como uma mulher dizer que “que odeia o gênero masculino” e vencer um debate sobre igualdade de gênero, misoginia ou machismo. Não é a melhor forma de desconstruir homens nem de acabar com o machismo, ja que a ofensa está no degrau mais baixo da pirâmide do debate (pesquisem a respeito). Não há como descer mais que isso.

Algumas não fazem nada pelo feminismo, só vociferam contra os homens mesmo. Outras até são militantes progressistas, ou partidárias. E aí a coisa piora.

Como alguém pode dizer que odeia macho e depois ir até a comunidade querer incutir progressismo e consciência de classe nos homens jovens e adultos que moram lá? É mais fácil e óbvio que alguém do gênero masculino fuja dessa pessoa, pois, antes de ir evangelizar, ela já fez nascer a aversão nele.

Olha o mal que estão fazendo, para além do feminismo.

Ainda segundo a pesquisa Datafolha, os homens estão entendendo e colaborando com as pautas feministas, até mais do que as próprias mulheres, pelo menos em tese.

A quantidade de homens que apoiam o feminismo (52%) é maior do que a de mulheres que se consideram feministas (39%).

O feminismo também foi mais bem avaliado entre os homens. Enquanto para 48% deles o feminismo traz mais benefícios do que prejuízos às mulheres, outros 41% acreditam que traz mais prejuízos que benefícios.

É preciso uma leitura, interpretação e reflexão desses dados. Há uma narrativa ganhando, e não é a das feministas.

Os homens estão mais feministas? É possível aos homens serem feministas? Segundo a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, em entrevista à Revista Marie Claire, sim:

“Temos que parar de pensar no feminismo como uma espécie de festinha exclusiva para a qual poucas pessoas são convidadas. Nosso objetivo é a igualdade no mundo. Queremos chegar a um ponto em que não vamos mais precisar do feminismo. Para isso acontecer, todo mundo tem que se envolver. Portanto, precisamos de homens feministas para mudar outros homens.”

Porque não aproximar os homens desse debate, ao invés de afastá-los? A participação masculina não significa o silenciamento das mulheres, que detém o lugar de fala nessa pauta.

Porém, há que se diferenciar lugar de fala de representatividade. Um homem não pode representar uma mulher, mas pode falar sobre feminismo do seu ponto de vista, de onde se encontra.

Lugar de fala também implica responsabilidade e ética. Nesse sentido, homens os têm não só o dever moral de se posicionar sobre feminismo e misoginia, como também a responsabilidade. O silêncio é irresponsável diante da injustiça.

Seria um erro acreditar que se vive numa “femininolândia”, onde todas as mulheres estariam senpre corretas e seriam sempre legais. A ministra Damares Alves está aí para provar que isso não é possível nem de longe, nem nunca será.

Mesmo pessoas que pertencem a um determinado grupo podem reivindicar o lugar de fala para legitimar ataques contra ele. Outro exemplo disso é o vereador negro Fernando Holiday, que se vale da sua cor para defender políticas contra cotas raciais.

Ainda sobre lugar de fala, ele pode virar pretexto para a falácia do argumento ad hominen, promovendo a exclusão e calando pessoas, seja por causa de cor, gênero ou orientação sexual, suprimindo sumariamente suas ideias, sem debatê-las.

Enfim, a luta por justiça e igualdade e contra qualquer tipo de violência e discriminação só é legítima se contemplar a dos outros também. Isso consequentemente impede o silêncio e a omissão diante de qualquer preconceito ou injustiça, seja contra negros, mulheres, afrorreligiosos, gordos, homossexuais, ou outro ser humano.

Dois conceitos são fundamentais para isso: colocar o próximo acima de si mesmo (altruísmo); colocar-se no lugar do próximo (empatia).


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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