Ato solidário a Evaldo Rosa dos Santos, assassinado pelo Exército


Amigos se reuniram para ato em solidariedade ao músico negro Evaldo Rosa dos Santo, fuzilado com 80 tiros de fuzil dentro de seu carro, no Rio.


Publicado em 17/04/2018. Colaboração e fotos de Rozangela Silva.

No fim da tarde de ontem, houve mais um ato em solidariedade a Evaldo Rosa dos Santos, na Estrada do Camboatá, em Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro, que transcorreu em clima de paz e permeado por orações e preces.

Músico negro, Evaldo, de 51 anos, foi brutalmente assassinado no dia 07, domingo, em Guadalupe, alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil, disparados por militares do Exército. Ele estava no carro com seu filho de sete anos, uma amiga da família, esposa e sogro, a caminho de o chá de bebê de uma amiga. Os demais ocupantes do carro conseguiram escapar, após perceberem os tiros.

O músico Evaldo Rosa dos Santos, morto pelo Exército no Rio. Reprodução.

Nem a fina chuva que caiu no bairro desanimou um grupo de amigos, que convidaram músicos, compositores e artistas. Com a campanha, o ato orquestrado pela Cultura Popular Carioca, com integrantes do samba e rap, reuniu 80 agentes culturais, em alusão aos 80 tiros disparados contra o carro do músico.

“A dignidade humana precisa ser resguardada em todos os sentidos. Sou solidário a família, parentes e amigos e estarei junto buscando respostas para a elucidação esse crime e punição dos envolvidos”, contextualiza Ivanir dos Santos – professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e babalawô.

De cunho símbolo e pacífico, os presentes no ato fizeram orações, preces e falas exigindo providências. Outra grata homenagem ficou por conta do grafite feito do momento do ato pelo MC Grafiteiro Airá, O Crespo, que estampou frases e o nome “Manduca”, como era conhecido Evaldo. O desenho foi feito em uma placa metálica, na parede de um bar, exatamente em frente onde o carro foi alvejado (onde é possível perceber furos dos tiros).

Uma roda humana se formou no meio da rua para preces e orações, além de falas cobrando justiça. Distribuíram, ainda, bandeiras do Brasil manchadas e com furos, remetendo à interpretação de um país manchado de sangue e tiros.

“O Ato foi importante para que familiares e amigos mais próximos não se sintam sozinhos na cobrança por justiça. Foi importante para mobilização dos artistas e agentes culturais que vivem na região e sofrem constantes violações de seus direitos em abordagens de patrulhamento policial, no ir e vir cotidiano”, alegou Marcelo Santo, do movimento Cultura Popular Carioca.

Um amigo estampou no carro o nome do grupo de samba q ele participava – Remelexo da Cor. Outro ponto alto ficou por conta da palavra de ordem “Manduca, presente!”, seguida de uma salva de palmas, que deixou todos emocionados.

Militares riram após tiros

Segundo a esposa de Evaldo, Luciana dos Santos Nogueira, os militares que participavam da ação deram risada após os tiros:

“Eles riram. Chamei de assassinos e eles riram, debocharam. Essas pessoas têm que pagar, principalmente pelo deboche. Eles debocharam o tempo todo. Vocês não sabem o que estou sentindo, não desejo isso para ninguém.”

Luciana disse ainda que a ação foi repentina e que não houve tiroteio.

Militares foram presos

Dos 12 militares envolvidos no fuzilamento, dez foram presos em flagrante pelo Comando Militar do Leste (CML). Eles permanecem presos desde o dia 07. Em nota à imprensa, o CML justificou a prisão por haver inconsistências “entre os fatos inicialmente reportados [pelos militares envolvidos] e outras informações” obtidas depois.

Presidente chamou a execução de “incidente”

Após cinco dias sem se manifestar sobre o caso, o presidente Jair Bolsonaro disse que a morte foi um “incidente”:

“O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte. Lamentamos a morte do cidadão trabalhador, honesto, e está sendo apurada a responsabilidade. No Exército sempre existe um responsável, não existe essa de jogar para debaixo do tapete. Vai aparecer o responsável” – afirmou o presidente durante um evento de inauguração do aeroporto de Macapá, na última sexta-feira (12).

Colaborou nessa matéria:

Rozangela Silva, assessora de imprensa e atua contra intolerância religiosa e racismo no Rio de Janeiro.

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