Opinião | No país do “Seu Armando”, devemos ser o povo da revolta


“Esse país está sendo controlado por um grande “Seu Armando”, ao qual nós demos o nome carinhoso de ‘mercado’.”


Por Heber Farias. Publicado em 10/04/2019.

Foto: Ativismo Protestante

De ontem pra hoje, viralizou um áudio de um trabalhador carioca revoltado com seu patrão, o “Seu Arnaldo”, que – após as chuvas catastróficas, que deixaram no mínimo dez pessoas mortas – queria forçá-lo a ir trabalhar em sua padaria, onde ensacava farinha, desmoralizando-o. Isso mesmo após o trabalhador mandar dezenas de fotos, mostrando que a situação em seu bairro estava desumana. Hoje sabemos que tudo não passou de uma brincadeira de amigos no Youtube, mas cabe aqui uma reflexão sobre a euforia causada pelo reação do funcionário, nas redes sociais.

Ao escutar o áudio, que ficou conhecido como #SeuArmando, o sentimento vinculado a ele, na rede, foi de prazer. Não o prazer cômico, mas algo próximo a uma “descarga de tensão”. É como se nos sentíssemos parte do áudio, comemorando a raiva descarregada. A psicanálise explica isso neste termo, “descarga de tensão”, algo como uma pulsão, quando o desejo do inconsciente que visa o prazer supera a censura moral e nosso corpo reage, mas nesse caso o sentimento é mais do que subjetivo e/ou particular, isso foi sentido em massa pelos brasileiros. E com razão.

Esse país está sendo controlado por um grande “Seu Armando”, ao qual nós demos o nome carinhoso de “mercado”.

Igualmente ao patrão carioca, o mercado age para explorar ao máximo, sugar a vida e a potência do brasileiro, retirando seus direitos sociais, qualidade de vida e sua saúde mental.

Começou com a reforma trabalhista, terceirização em massa, explosão dos MEIs (microempreendedores individuais, ou “trabalhadores sem direitos”, em outras palavras). Agora, a nova empreitada do grande “Seu Armando” é a reforma da previdência, que visa nos obrigar a trabalhar até morrer, para sustentar a ganância do mercado financeiro.

Você está entendendo de onde vem toda essa raiva? Fomos induzidos a transferir essa raiva, primeiro para a classe política, a qual culpamos por todos nossos problemas; depois para os artistas, com o fenômeno do bolsonarismo culpando a arte, a cultura e a intelectualidade de serem os grandes destruidores dos valores familiares. Mas, diante desse áudio, o inconsciente adormecido não se aguenta, e logo se lembra daqueles que são os verdadeiros culpados, quem manipulam o sistema, quem humilham o trabalhador. O “Seu Armando” é a imagem evidentemente deslocada do mercado financeiro, dos banqueiros, dos grandes agropecuários, dos patrões de cartéis (transporte, construção civil, etc.) – em suma: dos capitalistas.

É por causa deles que não podemos ter qualidade de vida.

Quer ver? Você faz um absurdo de horas extras, que no final do mês são computadas em um banco de horas e nem recebe por isso? Quantas vezes já deixou de levar seu filho ao médico com medo ser julgado pelo empregador? Você já trabalhou dois anos seguidos sem férias por necessidade da empresa, e mesmo assim não foi valorizado? Você já foi obrigado a vender parte das suas férias, não porque precisava de dinheiro, mas porque o empregador não quis te dar férias integrais? Você já foi obrigado a trabalhar um mês inteiro sem folga por causa de metas desumanas? Você já chegou a sua casa e chorou isoladamente, porque se sentiu oprimido(a) no trabalho?

Saíram vários “sim” aí?

Pois bem, é momento de externalizar isso, é momento de luta, de defender nossa qualidade de vida e assim defender nossas famílias. Para isso, precisaremos unidos ir às ruas contra a reforma da previdência e constantemente denunciar esse sistema financeiro opressor. Até o dia em que construiremos uma sociedade que não aceite de forma alguma ter sua vida desrespeitada por um “Seu Armando”.

Ouça o áudio:


Sobre o autor desse artigo

Heber Farias é estudante de psicologia, ativista político e membro da Igreja Batista da Água Branca (Ibab), em São Paulo.

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