Opinião | A estreita relação entre violência, evangélicos radicais e Bolsonaro


“Precisamos estar juntos nesse momento tenebroso pelo qual passamos. Cuidar um do outro, ser a dianteira e a retaguarda do próximo.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 01/04/2019.

Muro de templo de candomblé foi pichado, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ), após ser invadido e destruído na última segunda-feira (25). Reprodução.

A relação estreita entre violência, evangélicos radicais e Jair Bolsonaro vem me perturbando há um tempo. No começo, achei que era algo exagerado afirmar isso, logo que se iniciaram os primeiros ataques a terreiros de candomblé no Rio de Janeiro. Hoje, é preocupante e uma ameaça de vida real aos nossos irmãos, em todo o país.

O princípio dessa violência coincide com as falas de ódio de Bolsonaro ainda nas eleições, endossadas por evangélicos radicais. De lá pra cá, a coisa se intensificou, e de tal maneira que a praticam à luz do dia, invocando o nome de Deus-Jesus. Parece que se sentem legitimados por alguma força, seja ela política, religiosa ou armamentista, paralela ao Estado e à lei. Há uma percepção de impunidade, legalidade e acobertamento estatal e religioso que os move. Tal sensação também coincide com o governo de Jair Bolsonaro, apoiado pelos evangélicos de extrema-direita. E estes são a maioria, impulsionados pelas grandes igrejas e por seus líderes institucionais, como os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano.

O absurdo chegou ao seu ápice, com relatos de irmãs e irmãos ativistas ameaçados, não só no Rio, mas também em outros estados. Se há milícias no Rio, há pistolereiros no Norte e Nordeste. No Sul já existe a “lei Lula”, para perseguir progressistas, enquanto extremistas de direita ameaçam no Sudeste.

Alguns decidiram parar a luta e se calar, ou dar um tempo na exposição ao grande público por meio de site ou redes sociais. Grandes ideias já não existem mais. Pelo menos não manifestas.

Esses dias precisei dar apoio a um desses irmãos, que me confessou ameaças sofridas e o medo diário de um atentado. Chegou a mudar de casa, para proteger a si mesmo, a esposa e um filho recém-nascido. Disse a ele que todo aquele que se propôs a enfrentar o sistema religioso e político, hoje, está sujeito a isso.

Porém, é desse contexto de risco que nasce a virtude chamada coragem. Não é possível haver corajosos em lugares seguros.

Ou, como disse o próprio Deus ao profeta Jeremias, que buscava socorro por causa da perseguição que estava sofrendo:

Se te fatigas com homens que vão a pé, como poderás competir com cavalos? Se somente numa terra de paz te sentes seguro, como farás na enchente do Jordão?

(Jeremias 12:5)

Nem em meus piores pesadelos imaginei que escreveria sobre isso. Precisamos estar juntos nesse momento tenebroso pelo qual passamos. Cuidar um do outro, ser a dianteira e a retaguarda do próximo.

Não estamos mais seguros do que Marielle Franco. Nenhum de nós está.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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