Opinião | Quando a Frente de Evangélicos vai se posicionar contra a homofobia religiosa?


“É possível ser progressista homofóbico, religioso ou não?”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 04/04/2019.

Imagem: Ativismo Protestante.

Quando a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, dita progressista e alinhada à esquerda, vai sair do armário da homofobia religiosa e defender as causas dos LGBTIs, como a criminalização da homofobia, inclusive a religiosa, e o casamento homoafetivo pelas igrejas cristãs?

Meu questionamento com cobrança é fundamentado, pois, após vasculhar a página oficial da Frente, nos últimos nove meses, não vi nenhuma publicação defendendo as causas dos homossexuais. Eu fui até as publicações de junho de 2018.

Também não vi nenhuma fala repudiando atos homofóbicos, sejam eles religiosos ou não, nenhum artigo ou publicação cobrando políticas públicas para essa população vulnerável, sequer uma nota em memória de algum homossexual assassinado por homofobia.

Nem sobre o julgamento da criminalização da homofobia no Supremo Tribunal Federal (STF) – que gerou vários debates e grandes mobilizações pelo país – ela se manifestou. Com quatro votos (de 11) a favor da criminalização, o julgamento foi interrompido no dia 21 de fevereiro, sem data para ser retomado.

Levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), de 2017, registrou um aumento de 343 para 445 casos de assassinatos de LGBTIs em 2017, um aumento de 30% em relação a 2016. Segundo o relatório, a cada 19 horas um LGBTI é assassinado ou se suicida, vítima da “LGBTfobia”, colocando o Brasil como o campeão mundial desse tipo de crime. Houve aumento também de 6% nos óbitos de pessoas trans.

Ainda segundo o relatório, a maioria dos assassinatos (56%) ocorreu em via pública, seguidos de crimes que foram registrado dentro da casa das vítimas, 37%.

A maioria foi vítima de armas de fogo (30,8%) e armas brancas cortantes, como facas (25,2%).

Grande parte dos crimes não são elucidados pela polícia.

O relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), Mortes Violentas da População LGBT no Brasil, divulgado em fevereiro de 2019, trouxe dados referentes ao ano de 2018, em que foram registradas 420 mortes – por homicídio ou suicídio decorrente da discriminação – de integrantes da população homoafetiva e transexual. Uma pequena redução em relação a 2017.

Os homens gays foram os mais atingidos, 39% das vítimas, seguidos por transexuais, 36%. Logo depois vêm as mulheres lésbicas (12%) e bissexuais (2%).

Do total de vítimas, 213 eram brancas (58,4%), 107 pardas (29,3%) e 45 pretas (12,3%). Mais uma vez, o principal instrumento utilizado nesses crimes foi a arma de fogo. As regiões mais violentas para a população LGBT, apontadas pelo relatório, são o Norte e Centro-Oeste, com taxas acima de 2,8 mortes por milhão de habitantes.

Agências internacionais de direitos humanos afirmam que matam-se mais homossexuais no Brasil do que nos 13 países do Oriente e África, onde há pena de morte contra os homossexuais.

Segundo levantamento da ONG Transgender Europe, 868 travestis e transexuais perderam a vida de forma violenta entre 2008 e junho de 2016. Seu Relatório Mundial apontou que, de um total de 325 assassinatos de transgêneros registrados em 71 países entre 2016 e 2017, mais da metade (52%) ocorreram no Brasil (171) , seguido do México (56) e dos Estados Unidos (25).

Diante da omissão da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em relação às pautas e à violência contra os LGBTIs, cabem mais duas perguntas, com reposta:

1) É possível ser progressista homofóbico, religioso ou não?

Não consigo imaginar um progressista homofóbico. Só no meio evangélico isso é possível, assim como outros absurdos que as igrejas evangélicas criam. Seria uma aberração ideológica, já que a pauta progressista inclui a defesa das minorias e dos mais vulneráveis socialmente, principalmente LGBTIs, negros e mulheres.

2) A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito segue a mesma linha doutrinária teológica homofóbica de seu criador, mentor e guru, pastor Ariovaldo Ramos, que amaldiçoa homossexuais e os classifica como doentes destinados ao inferno, como já detalhou o Editorial A homofobia religiosa do pastor Ariovaldo Ramos, publicado pelo Ativismo Protestante (Leia aqui)?

Quero acreditar que não, mas diante de tanto silêncio cúmplice, fica difícil.

Reconheço a importante luta social da Frente em várias áreas, contra o racismo, feminicídio, desigualdades sociais, etc. Mas é nosso dever e obrigação moral cobrar evangélicos que ousam levantar a bandeira do progressismo também, embora muitos deles não gostem, pois querem manter certos “direitos” eclesiais, como o de ofender alguém, seja por opção sexual, seja por diferença religiosa, ou outro motivo.

Ao final de suas 25 páginas, o relatório do Grupo Gay da Bahia aponta algumas ações de governo e propostas para combater a violência e discriminação contra homossexuais, bissexuais e transexuais no Brasil. A seguir estão elencados, quem sabe sirvam de inspiração para futuras ações dos nossos irmãos progressistas:

  • Educação sexual e de gênero para ensinar jovens e população em geral o respeito aos direitos humanos e cidadania dos LGBTIs;
  • Aprovação de leis afirmativas que garantam a cidadania plena da população LGBTI, equiparando a homofobia e transfobia ao crime de racismo;
  • Políticas públicas na área da saúde, direitos humanos, educação, que proporcionem igualdade cidadã à comunidade LGBTI;
  • Exigir que a Polícia e Justiça investiguem e punam com toda severidade os crimes homo/transfóbicos.

Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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