Editorial | Bolsonaro falsifica a História do Brasil e a do mundo


“Não cabe ao governo fazer a revisão da História, ainda mais baseado na deturpação e negação dos fatos e em teorias da conspiração, como faz Bolsonaro e alguns de seus ministros.”


Publicado em 03/04/2019.

(Jerusalém – Israel, 01/04/2019) Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante visita ao Muro das Lamentações. Foto: Alan Santos/PR.

O presidente Jair Bolsonaro decidiu por si só falsificar a História do Brasil e a do mundo, em um revisionismo histórico megalomaníaco. Não satisfeito com sua negação do golpe de 64 e da ditadura militar no Brasil – que matou e torturou milhares de pessoas, entre homens e mulheres, jovens, idosos e crianças -, Bolsonaro foi até Israel e, após ser questionado por um jornalista se concordava com a afirmação de seu ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que diz ser o nazismo de esquerda, concordou com ele:

“Não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha”, respondeu o presidente.

É bom lembrar que o partido de Bolsonaro também traz o socialismo em seu nome: Partido Social Liberal (PSL). Com certeza, só o nome ‘social’, ou ‘socialista’, não é uma evidência de que alguma instituição seja de esquerda.

Na mesma terça-feira (22) em que fez essa afirmação, horas antes, Bolsonaro visitou o Centro Mundial de Memória do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, que afirma ser o nazismo um movimento de direita. O museu lembra a morte de 6 milhões de judeus pelos nazistas comandados pelo ditador Adolf Hitler, que pregava a superioridade de uma raça branca ariana e o extermínio das demais raças, consideradas impuras ou inferiores por ele. No site da instituição, que também aloca um centro de pesquisas sobre o período nazista, há um breve histórico sobre a ascensão do partido nazista na Alemanha durante as guerras:

“Junto a intransigente resistência e alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criou solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista.”

“Besteira completa”

Em setembro do ano passado, em entrevista ao jornal “O Globo”, o embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, afirmou ser “uma besteira completa” dizer que o nazismo foi um movimento político de esquerda:

“Isso não é fundamentado, é um erro, é simplesmente uma besteira.”

O diplomata disse ainda que há amplo consenso de que Hitler liderava uma corrente política de direita, segundo historiadores alemães e mundiais. A afirmação do chanceler alemão foi feita após uma polêmica sobre um filme divulgado pela embaixada da Alemanha no Brasil e pelo consulado alemão no Recife (PE), que gerou forte reação nas redes socias. Com pouco mais de um minuto, o vídeo “Os alemães não escondem o seu passado. Saiba como se ensina história na Alemanha” visava mostrar a importância de manter a memória dos crimes do nazismo entre 1933 e 1945, quando o Holocausto levou à morte cerca de 6 milhões de judeus e de 5 milhões de pessoas de outros grupos minoritários, como homossexuais e ciganos.

O nazismo nasceu contra o socialismo marxista e o capitalismo

Matéria da BBC Brasil trouxe opiniões de especialistas, que apontaram as características de direita radical do nazismo.

“Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista – que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão”, afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha”, acrescentou.

Nacionalismo

Ainda segundo a matéria da BBC Brasil, da ideia de uma “revolução social para a Alemanha” originou-se o Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. Hoje, o termo “socialista” no nome do partido é um dos principais argumentos usados nos debates, por aquele que associam o nazismo a movimentos de esquerda. Historiadores discordam.

“Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram”, disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

“O que é fundamental aí é o termo ‘nacional’, não o termo ‘socialista’. Essa é a linha de força fundamental do nazismo – a defesa daquilo que é nacional e ‘próprio dos alemães’. Aí entra a chamada teoria do arianismo”, explica.

Rabino criticou afirmação de Bolsonaro

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso, Michel Schlesinger, criticou o presidente Jair Bolsonaro por afirmar que o nazismo foi uma criação da esquerda:

“O Holocausto foi um produto do nazi-fascismo, movimentos da extrema-direita europeia. Dizer que a Shoá [Holocausto] foi criada pela esquerda é falsificar a história.”

Vice-presidente Hamilton Mourão: Nazismo é de direita

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou nesta terça-feira (2) que “de esquerda é o comunismo, não resta a mínima dúvida“.

“De esquerda, é o comunismo, não resta a mínima dúvida. Se a gente for olhar, sabe que sou um crítico contumaz desta questão de direita e esquerda. Eu acho que são ambas visões totalitárias, de controle total da população, de desrespeito aos direitos humanos e que não se coadunam com o espírito que a gente busca para a humanidade”, declarou Mourão.

Judeus pela Democracia repudiam declaração de Bolsonaro

O coletivo Judeus pela Democracia classificou a fala do presidente Jair Bolsonaro sobre “nazismo de esquerda” como “mentirosa e perigosa”.

“É um tremendo desrespeito com os judeus mortos pelo nazismo o presidente fazer uma afirmação dessa. Não podemos mudar a história de acordo com a nossa própria ideologia”, disse Guilherme Cohen, um dos idealizadores do grupo.

Reinaldo Azevedo: Movimentos de extrema-direta pelo mundo são antissemitas

Em seu blog, o jornalista Reinaldo Azevedo criticou a “estupidez” e a “fraude intelectual” de Bolsonaro e lembrou que os movimentos de extrema-direita pelo mundo, em ascensão, são antissemitas. Também lembrou que comunistas dividiam os mesmos espaços com judeus nos campos de concentração:

“Quem viola cemitérios judaicos na Europa? São os esquerdistas?

Quem marcha nas ruas contra a “conspiração judaica”? São os esquerdistas?

Quem vê os judeus como inimigos nos EUA? Os supremacistas de extrema-direita ou a esquerda?

Quem espalha cartazes acusando George Soros, “o judeu”, de conspirar com os comunistas? As esquerdas?

Fato: os comunistas dividiam campos de concentração com os judeus. Só a cor do triângulo era diferente.”

Fraude intelectual

No Jornal Nacional, historiadores criticaram a fala de Ernesto Araújo e Bolsonaro.

Segundo Antonio Barbosa, historiador da Universidade de Brasília (UnB), o nazismo como um fenômeno de esquerda é uma “fraude”:

“Uma fraude intelectual e uma releitura completamente equivocada da própria história. É como se fosse negar o fato histórico que aconteceu na Alemanha nos anos 1930, nos anos 1940. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que o nazismo se justifica como a oposição mais vigorosa ao socialismo, à esquerda, ao comunismo. […] No caso da política externa, isso é extremamente perigoso porque mostra ao mundo uma visão sectária, radicalmente sectária no Brasil, o que não é bom para o país.”

Para Ruth Bem-Ghiat, historiadora especializada em fascismo e autoritarismo pela universidade NYU, de Nova York (EUA), o ministro Ernesto tem que reler os livros de história, pois dizer que o nazismo e o fascismo são de esquerda é um “absurdo”.

Manipulação da história

Não cabe ao governo fazer a revisão da História, ainda mais baseado na deturpação e negação dos fatos e em teorias da conspiração, como faz Bolsonaro e alguns de seus ministros. Entretanto, recontar a História de acordo com seu ponto de vista ideológico se tornou prática oficializada do atual presidente. Esse movimento é promovido pela nova direita e seus gurus, como o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. Os filhos do presidente também seguem as ideias de Olavo.

Esse revisionismo tem finalidade política e de acesso ao poder, como mostrou matéria do jornal alemão Deutsche Welle (DW), lembrando da tentativa de Bolsonaro de manipular a História, ao culpar os africanos pelo tráfico negreiro, quando ainda era candidato, em 2018:

“Há um revisionismo histórico, com fins políticos, em curso no Brasil. Ele é baseado na negação e manipulação de fatos e é promovido por integrantes do governo Jair Bolsonaro e seguidores da “nova direita”. Dizer que não houve golpe em 1964 e que o nazismo foi um movimento de esquerda, como afirmou o próprio presidente, são apenas alguns exemplos.

Esses exemplos, segundo especialistas ouvidos pela DW Brasil, fazem parte de uma estratégia maior, de um movimento que busca legitimar os seus projetos políticos a partir de uma visão distorcida da historiografia acadêmica praticada por historiadores no Brasil e no mundo com base em métodos científicos.

Promovido pelo ideólogo Olavo de Carvalho e seus seguidores, entre eles o chanceler Ernesto Araújo e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, esse negacionismo histórico é carregado de teorias de conspiração, imprecisões e omissões.”

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