Opinião | Não basta pedir desculpas aos terreiros: deve-se desarmar o cristianismo por dentro


Por Fábio Py. Publicado em 02/04/2019.


“A violência faz-se sagrado”
(René Girard)

“Ler o que nunca foi escrito”
(Walter Benjamin)

Destruição de instrumentos do terreiro. Reprodução.

É com grande tristeza que se recebe outra notícia sobre mais um templo de candomblé destruído. Foi na segunda-feira, 25 de março, na região de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Segundo os religiosos do próprio terreiro, eles foram expulsos pelos traficantes, que queriam transformar o centro em uma base para comércio de drogas. Nas fotos, se percebe que a violência foi completa, com a destruição de vasos, de utensílios, de altares. Dois detalhes dessa violência merecem ser (ainda) mais destacados. Primeiro: no muro de fora do terreiro foi escrito: “Jesus é o dono do lugar”. Segundo: no ano passado, o mesmo terreiro foi invadido e impedido, por um tempo, de realizar suas celebrações religiosas. Esses dados são importantes porque indicam uma violência contínua nas favelas contra os terreiros, e que, de alguma forma, os violentadores se relacionam com o protestantismo-evangélico, embebido com o fundamentalismo. Em um exercício teológico, porém, observa-se que tal fundamentalismo violador não se sustenta no que lhe é mais elementar: a leitura bíblica a partir ‘dos originais’.

Reprodução.

A territorialidade evangélica e seu vínculo com o fundamentalismo

Sobre tal violência, gostaria de destacar pontualmente as inscrições no muro do terreiro com a citação em alusão a Jesus, indicando uma territorização cristã do local. Quero deixar claro que não gostaria de discutir se os traficantes são ou não cristãos, evangélicos. Minha preocupação é, antes, perguntar que cristianismo é esse recebido por eles, que leva adeptos ou simpatizantes a praticarem tamanha brutalidade ao expulsarem e destruírem os templos de pessoas que professam outra religião?

É possível argumentar que a especificidade da violência cristã nas favelas fluminenses tem sua origem no início do século XX, quando grupo de batistas e presbiterianos americanos escreveram um conjunto de panfletos e livros chamados “Os fundamentais da fé cristã”. Em tais documentos buscavam promulgar os pontos básicos do cristianismo, isto é, seus fundamentos. Aqueles que seguiam os pontos dos panfletos passaram, a partir de 1920, a se autodesignar fundamentalistas, preocupados em desenvolver uma revisão simplificadora do cristianismo. Em suma, os fundamentalistas defendiam que a Bíblia seria um livro “inerrante” (sem erros). Acrescente um importante detalhe: os arautos dos fundamentos bíblicos eram patrocinados, em grande parte, pelo dinheiro do petróleo e da indústria do ferro americana.

O Brasil recebeu uma leva desses fundamentalistas protestantes no fim da década de 1920. Com ímpeto missionário renovado, apresentam novo vocabulário de desprezo às práticas religiosas do país. Embora a primeira leva de missionários fundamentalistas tenha chegado ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, o movimento tomou novo fôlego durante a Ditadura Militar. No período, o fundamentalismo missionário se renovou, passando a indicar que o cristão, diferente de Jesus Cristo – que era pobre e galileu-, também tinha direito a ter prosperidade na terra, a benção. Esse novo movimento assumia uma forma de pentecostalismo com novas roupagens, unindo, cristianismo e a lógica do mercado neoliberal, numa vertente amplamente conhecida como a “teologia da prosperidade”.

É dessa teologia que vem a idéia da territorização cristã, tragicamente exemplificada com a inscrição do nome de Jesus no terreiro de candomblé destruído. Um símbolo da tomada de posse de um espaço sagrado. Essa violência é mais uma luta por higienização, via discurso religioso operado nas áreas das favelas. Também é o reflexo de circuitos de missionários americanos que reatualizam o imperialismo via apologética cristã.

Não estou afirmando que no Brasil não se produziu uma forma autônoma e independente de cristianismo. Contudo, digo que elas foram impulsionadas pelo ímpeto americano de evangelizar o mundo. Como cristão e teólogo, ao perceber o quão longe pode chegar a violência religiosa praticada por meus pares, não acho que basta pedir desculpas por mais um templo de candomblé destruído. Não acho que baste. Diante de uma violação tão horripilante, a proposta é “operar” a retirada do pavio da dinamite, tal como indica Walter Benjamin: “antes que a centelha chegue à dinamite, é preciso que o pavio que queima seja cortado” (Walter Benjamin, Rua de mão única, 1995, p.46).

Exercício para cortar a centelha da pólvora: os ‘inícios’ da Bíblia hebraica

No esforço de tentar cortar a centelha da dinamite, é preciso reconhecer que as numerosas modalidades de movimentos fundamentalistas nas diferentes épocas dificultam a possibilidade de um protestantismo-evangélico menos belicoso. O que é muito sério, pois os evangélicos têm por fundamento teológico os relatos da Bíblia. Então, minha proposta de exercício aqui é analisar um dos textos bíblicos mais importantes na tradição judaico-cristã, o famoso texto de Gênesis 1:1, que abre a Bíblia. No texto, a maioria das versões das Bíblias protestantes traduzem os primeiros versos como “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Almeida Corrigida e Fiel). Recentemente, a Nova Versão Internacional (NVI) optou por um caminho próximo: “No princípio Deus criou os céus e a terra”. Ambas as traduções foram produzidas sob incentivo das casas religiosas e missionárias evangélicas ligadas a alguma expressão do fundamentalismo. Assim, elas operam a tradução do termo “bereshit” por “no princípio”.

É interessante, porque, se olharmos pelo menos uma tradução (mais) técnica católica (não ligada ao fundamentalismo protestante-evangélico) como a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB), ela nos apresenta a seguinte tradução: “Quando Deus criou o céu e a terra”, percebe-se que a sentença da TEB modifica completamente a frase. De “No princípio Deus criou” para uma indeterminação como “Quando Deus criou o céu e a terra”. Na explicação dos editores da TEB, no rodapé, afirmam ser essa opção mais fidedigna à fórmula “Em um princípio Deus criou o céu e a terra”. Ou seja, considerando que os textos de Gênesis são os mesmo entre evangélicos e católicos, a fórmula “em um princípio” é a que mais se aproxima do original.

Continuando o exercício, e, portanto, fazendo uso das ideias da Reforma Protestante de acesso aos originais e a suas traduções, percebe-se que nas primeiras palavras da Bíblia não se expressa nenhuma univocidade como as traduções financiadas pelo fundamentalismo protestante-evangélico preferem afirmar. Ao contrário, utilizando a tradução mais próxima do original (“Em um princípio”) nota-se se que a criação judaico-cristã é apenas uma diante das demais criações do mundo relatadas nos diferentes credos e povos. Tal tradução relativiza a criação da Bíblia hebraica. Portanto, como teólogo protestante-evangélico, o simples dado de rediscutir os “originais” (jargão tão caro à Reforma Protestante) pode ajudar a diluir as ideais do imperialismo disfarçadas nas casas missionárias. Auxiliando, quem sabe, a desarmar a centelha que cisma em correr e estourar diariamente a dinamite do racismo e da intolerância religiosa.

Finalmente…

É importante afirmar que tal exercício (e outros mais) podem ajudar na construção de uma agenda de diálogo entre as religiões, na luta por desarmar o cristianismo brasileiro, cada dia mais bélico, mais racista com as tradições religiosas vindas da África. Digo isso, enquanto teólogo porque acho muito pouco pedir desculpas aos povos de terreiro pelos ataques feitos em nome de Jesus. Antes, nós cristãos devemos construir uma agenda de revisão dos primórdios, para, aos poucos, desarmar nosso cristianismo belicoso por dentro, diluindo suas bases duras, apologéticas, cercadas, imperialistas. Por isso reafirmo: não basta pedir desculpas. Deve-se construir uma série de exercícios teológicos com traduções e as tradições da história da igreja, que poderiam ajudar no desarme do cristianismo brasileiro tão acostumado à depredação dos demais. Assim, por conta da nova destruição do templo de candomblé feita sobre o nome de Jesus, assumo que o protestantismo-evangélico brasileiro merece ser revisto não só ‘por fora’, mas, principalmente, ‘por dentro’ mediante uma severa revisão de desarme de suas lideranças e das doses imperialistas que impregnam ativamente seus templos.

Fontes consultadas:

https://www.geledes.org.br/terreiro-de-candomble-e-depredado-em-nova-iguacu-religiosos-foram-expulsos/?fbclid=IwAR0o4hBJNUt3-iANMJOrHUY29JhrG-27IEHDAiO2AFhKd5E8NX2L991NObg;

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/03/29/terreiro-de-candomble-e-depredado-em-nova-iguacu-religiosos-foram-expulsos.ghtml

http://cbn.globoradio.globo.com/default.htm?url=%2Fmedia%2Faudio%2F254112%2Fterreiro-de-candomble-e-depredado-em-nova-iguacu.htm;

https://extra.globo.com/casos-de-policia/dois-homens-sao-presos-dentro-de-terreiro-depredado-em-nova-iguacu-23559604.html.


Sobre o autor desse artigo

Fábio Py é Doutor em Teologia.

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9 comentários

  1. Excelente texto, que nos faz refletir sobre o papel principal do cristianismo e a falta de respeito e humanidade com as religiões de matrizes africanas. Independente da religiosidade professada por muitos, não podemos perder o ensinamento de amar uns aos outros, no qual o cristianismo se baseia. Realmente precisamos rever conceitos e apenas desculpas não bastão. Vivemos em um estado laico onde o respeito de crença deve prevalecer.

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  2. É nítido o quanto você vem estudando e pesquisando o tema de forma coerente e respeitosa. Parabéns. Foi uma leitura de muito aprendizado e reflexão pra mim.
    Estamos vivendo em um país onde a intolerância avança. Ponderamentos como os seus são cada vez mais necessários para nos perguntarmos que sociedade queremos e que democracia estamos vivendo.
    Aguardando próximos textos.

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  3. Ótimo texto. Lúcido e cirúrgico. O autor nos brinda com a análise necessária para desarmar (sua proposta é oportuna) nossa leitura da bíblia, nossa prática, nossa convivência.

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  4. Um texto parcial como este mostra que é um acadêmico estudando um acontecimento pontual, e generaliza de forma incoerente e desconhecendo o que é a fé evangélica. Usar o termo protestante então, mostra que o autror, ou tem má fé, ou ignora mesmo o que é o movimento protestante. A começar da profissão de fé evangélica e suas crenças de que as religiões afros têm ligações com espíritos do mal, além de que o texto bíblico (tido como regra de fé e prática dos “protestantes”) diz em alguns vários trechos que a consulta ao mundo espiritual é abominável ao Deus que eles adoram (tudo isso com permissão Constitucional). Depois de separar fé e fé… (coisa que o autor deveria fazer e não fez) , aí então deveria colocar o acontecimento execrável dentro do contexto de poder das lutas nas comunidades, que professem ou não uma fé deformada da profissão evangélica protestante, não podem ser colocados dentro dos parâmetros da vida ética e moral, e a máxima de “buscar o bem de todos” como está no livro de Gálatas no capítulo 6. Ademais, uma pessoa que saqueasse um Centro Espírita e fizesse parte de uma Igreja, Batista, Presbiterina, Metodista, Assembleia de Deus, Quadrangular ou qualquer outra mais (Evangélica Protestante) seria no mínimo excluída do meio de suas igrejas, por dar mal testemunho do nome de JEsus. “Que dirá pixar seu nome em um muro da forma que foi. Mas o texto caolho do que é a profissão de fé de um evangelico protestante (ainda que estes termos sejam dignos de uma tese de doutorado cada um pra se compreender melhor), o texto diz como dizer: pinte a casa com aquele verde bonito (e não explica que existem mais de 200 tons de verdes, além de uns que são no fundo fundo azuis). Não meu amigo, os cristãos não compactuam com a fé dos afros porque o texto bíblico os coloca em lugares completamente opostos de crenças… e contudo, são ensinados nos púlpitos a amá-los (João 3:16), a buscar a simpatia deles (Atos 2), a respeitá-los como seres humanos e como próximos (Lucas 10 e Gálatas 6). Texto ruim de alguém que não entende a fé a fundo na minha opinião. Sou mestre em Ciências da Religião. Apareceu na minha timeline e creio que poderia dar minha opinião. Paz e bem.

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  5. Parabéns, Celso Eronides.

    Falam do que não conhecem na essência. Querem manchar os cristãos atribuindo a eles o que criminosos distantes da presença de Deus fazem. Lamentável. Estão confundindo tudo. Querem agradar ao mundo a todo custo.

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  6. Interessante e bem articulado. O problema é que tipo de cristãos escolhemos ser. Cristianismo é uma ideia abstrata; não existe cristianismo (falando historicamente); existem cristãos. Os cristãos constroem o “cristianismo” em seu contexto sociocultural. Infelizmente, o contexto evangélico brasileiro tem sido historicamente um reflexo do fundamentalismo evangélico norte-americano, o qual é exatamente isto: racista, bélico, inimigo do diferente, preconceituoso. Seria importante buscar uma identidade menos “branca” e mais “mestiça”.

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  7. Texto lúcido e necessário nesses dias de intolerância. Concordo que precisamos desarmar o cristianismo por dentro, livrando-nos do discurso etnocêntrico travestido de evangelho. O espírito do evangelho não admite qualquer tipo de belicismo. Urge voltarmos à sua prática, estimulando a coexistência pacífica entre adeptos de religiões de diversas matizes. Parabéns, mano, por ser uma voz dissonante nesses tempos tenebrosos.

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