Opinião | Os socialistas de direita e o nazismo de esquerda: uma reflexão sobre definições conceituais problemáticas


“Muitos dos atuais direitistas, sem embasamento histórico algum, afirmam a estupidez de que ‘o nazismo é de esquerda’.”


Por Flávio Pinheiro. Publicado em 31/03/2019.

Reprodução da internet editada.

Entre o final do século XIX e início do XX, o conceito “socialismo” estava em disputa. Originalmente criado para se referir a uma nova forma de organização social que favorecesse os operários, em oposição ao capitalismo, o termo “socialismo” também chegou a ser utilizado por movimentos nacionalistas que defendiam a formação de um Estado Nacional e a irmandade entre os constituintes da mesma pátria. Com a I Guerra Mundial (1914-1918), o triunfo da Revolução Russa (1917) e fortalecimento dos partidos comunistas/socialistas, o segundo uso do termo perdeu força. Alguns alemães, explicando a I Guerra Mundial, afirmavam que a Alemanha representava o “socialismo”, por fazer a defesa do seu espírito nacionalista e coletivo, enquanto a Inglaterra representava o liberalismo de comerciantes individualistas, algo avesso ao ideal germânico no período.

Friedrich Hayek, um dos principais teóricos econômicos que serve de base para muitos dos valores direitistas de hoje, segue esses usos conceituais em seu livro “O caminho da servidão” (Edições 70, 2016), definindo toda oposição ao liberalismo como uma forma de socialismo e associando, assim, o nazi-fascismo ao socialismo marxista. Contudo, chama a atenção a seguinte afirmação deste autor: “os socialistas de esquerda aproximaram-se cada vez mais dos de direita. Foi a união das forças anticapitalistas da direita e da esquerda – a fusão do socialismo conservador e radical – que expulsou da Alemanha tudo o que era liberal” (págs. 204-205). Logo, o que pode soar muito bizarro a todos nós hoje, ele define que havia na Alemanha os “socialistas de direita” (grupos nacionalistas conservadores) e os “socialistas de esquerda” (grupos radicais, defensores das causas operárias). Ambos se caracterizavam por uma noção de fortalecimento do governo, de submissão do indivíduo ao coletivo, e que, na prática, colocavam o Estado como um importante instrumento para o triunfo de suas ideologias. Hayek critica os “socialistas de todos os partidos”, aos quais, inclusive, dedica seu livro.

Hoje em dia, é sem sentido alguém falar em “socialismo de direita”, pois o conteúdo dessa ideia passou a ser entendido como uma referência ao nazi-fascismo. Não por caso, os nazistas formavam o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, onde o termo “socialista” não tem nada a ver com as ideias marxistas, mas pesava nele o aspecto nacionalista e a tentativa de atrair os trabalhadores com seus discursos em defesa da pátria alemã. A atual direita, já com um entendimento enviesado dos conceitos direita e esquerda, quer se desvencilhar das ditaduras nazi-fascistas, daí quer jogar tal ideologia para a esquerda, como se a mera defesa de uma atuação maior do Estado sobre a sociedade e o indivíduo fosse o que definisse a esquerda. Dessa forma, muitos dos atuais direitistas, sem embasamento histórico algum, afirmam a estupidez de que “o nazismo é de esquerda”. Enquanto Hayek definia toda política que enfatizava o Estado e o coletivo como socialistas, tanto de esquerda quanto de direita, hoje em dia muitos direitistas associam tais políticas unicamente como de esquerda. O fato de que o nazi-fascismo defendia pautas conservadoras de direita como a defesa da família, da propriedade, a exaltação da pátria e o ódio ao comunismo parece ser irrelevante. Fato é que o nazi-fascismo não era liberal, daí que os estudiosos diferenciam a direita liberal da extrema direita, esta última de viés conservador.

O atual ministro brasileiro de relações exteriores é uma das pessoas a propagar tal asneira, repleta de deturpações históricas. Tanto este ministro quanto qualquer pessoa que defenda a bobagem de que o nazi-fascismo seja de esquerda, faz isso por ignorância ou por má fé. Indiferente de qual seja o caso, tais pessoas propagam mentiras e devem ter tais discursos rechaçados e/ou ignorados. Na verdade tais pessoas, ignorantes ou loucas, não sabem do que falam, daí criam uma caricatura do que pretendem criticar e propagam a ignorância. Alguns podem alegar que tanto este ministro quanto muitos dos que concordam com ele são pessoas estudadas, de nível superior etc. Bom, para responder isso, basta reconhecer que a estupidez é um dos atributos mais democráticos do gênero humano, e pode tomar a mente de qualquer um, não respeitando títulos, sexo, visão política nem a posição social. O mais grave é vivermos em um período em que esse tipo de estupidez é louvada por muitos.


Sobre o autor desse artigo

Flávio Pinheiro é professor e teólogo.

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