Editorial | A festa mórbida de Bolsonaro e evangélicos que celebram a barbárie de 64


Entre Deus e o Diabo, quem se alegra com a morte brutal, e quem se alegra com a vida?


Publicado em 31/03/2019.

Mais de quatro décadas depois da morte de Vladimir Herzog, em 24 de outubro de 1975, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH) condenou o Estado brasileiro pela falta de investigação, julgamento e sanção dos responsáveis pela tortura e assassinato do jornalista. Herzog foi mortoo aos 38 anos, após se apresentar espontamente para depor no DOI-Codi, órgão militar da época.

Bolsonaro decretou que as Forças Armadas comemorem a barbárie da ditadura militar, iniciada em 31 de março de 1964, a partir de um golpe militar contra o Estado democrático de direito. A ala evangélica ultraconservadora disse amém, que assim seja feito. Como cristãos, cabe-nos perguntar e resta-nos saber: Essa festa mórbida dos 55 anos do golpe será celebrada no céu ou no inferno?

“Nosso presidente já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação ao 31 de março de 1964 incluindo a ordem do dia, patrocinada pelo Ministério da Defesa, que já foi aprovada pelo nosso presidente”, afirmou o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, na última segunda-feira segunda-feira (25).

Será que as almas das centenas de mortos e desaparecidos nos 20 anos de horror concordariam com a celebração feita nos quartéis e batalhões em sua memória? E os familiares dos torturados? Serão convidados? Haverá bolo e guaraná? Que tipo de ser humano seria tão cruel assim, aponto se alegrar diante de tantas vidas ceifadas e massacradas, homens, mulheres e crianças?

Sim, os militares torturaram crianças também, até recém-nascidos, como detalha o livro Infância Roubada, lançado recentemente pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. São 300 páginas com relatos e contextos dos casos. As crianças eram fichadas e tratadas como “miniterroristas”.

Além de torturadas, crianças também foram sequestradas e adotadas ilegalmente por militares durante a ditadura, como mostrou matéria da BBC Brasil. O jornalista Eduardo Reina identificou pelo menos 19 crianças sequestradas e adotadas ilegalmente por familiares de militares. Os casos foram publicados no livro do jornalista, Cativeiro sem Fim, que será lançado em 2 de abril. Segundo ele, todos os casos foram ocultados nos últimos 34 anos.

Resposta à pergunta anterior: Bolsonaro!

O presidente do país sempre gozou com o funesto 31 de março, desde que era deputado em Brasília, como mostrou matéria da Carta Capital:

“Enquanto ocupou cadeira na Câmara dos Deputados, Bolsonaro se esforçou para não deixar a data passar em branco. Os arquivos digitais da Câmara mostram que, desde 2004, o militar usou o plenário ao menos nove vezes para celebrar o aniversário do golpe.

Atuação ficou mais intensa pós o início da Comissão da Verdade, em 2011. Bolsonaro participou até de comemorações em frente ao Ministério da Defesa. Em 2014, chegou a soltar rojões em frente a uma faixa com os dizeres: ‘Parabéns militares, graças a vocês o Brasil não é Cuba’.”

Os evangélicos que apoiam Bolsonaro sabiam disso quando o apoiaram nas eleições. Todos sabiam. Como o sabem agora, mas mesmo assim vão celebrar a morte com ele.

Muitos familiares ainda não conseguiram sequer encontrar o corpo de seus entes queridos para sepultá-los. Estão enterrados em valas de cemitérios clandestinos, espalhados por aí, como o de Perus, zona norte de São Paulo. Lá foram encontrados mais de mil corpos. Um totem de concreto, de cerca de um metro e meio de altura, foi erguido no local, em homenagem às milhares de vítimas da ditadura e as que foram enterradas ali, com a seguinte inscrição:

“Neste cemitério foram sepultadas vítimas da repressão numa época em que as forças do Estado reservavam-se o direito de torturar e matar quem ousasse defender a democracia. Enterrados às pressas, quase sempre como desconhecidos, sob o manto de um esquema perverso de ocultação de cadáveres implantado com a colaboração da prefeitura e seus servidores.

Essa é uma homenagem da Prefeitura de São Paulo aos mortos e desaparecidos da ditadura militar cujos corpos, identificados ou não, foram acolhidos por este solo em sua trajetória de resistência e esperança”

Assim como o cemitério de Perus, o de Campo Grande (zona sul da capital paulista) e Vila Formosa (zona leste) também serviram de valas clandestinas para os militares enterraram seus mortos, presos políticos, pessoas assassinadas friamente, sem direito à defesa ou compaixão.

Voltando à nossa questão inicial, entre Deus e o Diabo, quem se alegra com a morte brutal, e quem se alegra com a vida?

Jesus mesmo disse que matar é um dos três principais objetivos do Diabo, a sua razão de ser:

“O ladrão (o Diabo) não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.”

(João 10: 10)

Segundo Jesus Cristo, há festa no céu quando um pecador é salvo, não quando é executado:

“Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?

E achando-a, a põe sobre os seus ombros, rejubilando;

E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.

Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.”

(Lucas 15: 4-7)

Deus diz o mesmo no Antigo Testamento:

“Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? Diz o Senhor Deus; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?”

(Ezequiel 18: 23)

“Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?”

(Ezequiel 33:11)

Enfim, essa festa mórbida de Bolsonaro e dos evangélicos que o apoiam não será comemorada no céu, mas com certeza no inferno, se ele existe. Não há o que comemorar, essa é a verdade. As igrejas evangélicas deveriam fazer uma confissão de culpa nesse 31 de março, pois maioria delas não só apoiou a barbárie da ditadura, como também entregou seus membros para serem torturados e mortos pelos militares. Deveríamos sim, todos nós, cristãos ou não, lembrar hoje a vergonha que foi nossa ditadura, para que ela nunca mais aconteça.

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