Isabela Garrido: Feminismo ainda não é para todas


Publicado em 30/03/2018.

Reprodução do Facebook.

Jornalista, feminista e membro da Igreja Batista na Bahia, Isabela Garrido mostra em artigo publicado em seu blog ‘Tem Mulher na Igreja’ os motivos pelos quais o feminismo ainda não é para todas mulheres. Segundo ela, ainda falta muito para que haja uma “ampliação significativa do discurso feminista“.

Um dos motivos é estrutural, a exclusão digital. Para ela, ao mesmo tempo em que o avanço tecnológico impulsionou o debate das ideias feministas – principalmente pela internet, através das redes sociais -, excluiu uma parcela grande de mulheres que ainda não têm conhecimento nem acesso à internet.

Segundo o IBGE, quase 65% da população brasileira já tem acesso à internet. Parece um número alto, mas um estudo encomendado pelo Facebook mostrou que o Brasil não está tão bem no ranking de internet inclusiva (que avalia aspectos como preço, qualidade da conexão, políticas para internet e educação dos usuários). Isso significa que não temos uma estrutura adequada que ofereça internet para todos, independentemente de renda e local de moradia, o que resulta em mais de 63 milhões de pessoas off line. Outro aspecto importante de se ressaltar é que, por não termos políticas eficientes de educação de usuários, nem todos que têm acesso à internet fazem um bom uso dela – e isso tem se mostrado preocupante quando observamos a proliferação de fake news e a credibilidade dada a elas, por exemplo.

Outro fator excludente das mulheres nas questões do feminismo é a desigualdade social, aponta Garrido:

Para além do mundo virtual, ainda de acordo com o IBGE, o Brasil tem 55 milhões de pessoas que vivem na pobreza (com renda mensal de até R$ 406,00) e mais de 15 milhões que vivem na extrema pobreza (com menos de r$ 140,00 por mês). Em termos de educação, os dados também não são nada animadores: temos 11,5 milhões de analfabetos, uma alta evasão escolar devido à necessidade de trabalho e uma quantidade expressiva de estudantes atrasados na escola, com idade incompatível com sua série. Vale ressaltar que a população negra é a mais atingida por todos esses dados negativos.

Há ainda a jornada múltipla desgastante da mulher, que a afasta de discussões sobre gênero, pelo esgotamento físico e psicológico:

Existem milhares de mulheres pobres, com pouca ou nenhuma instrução, que sequer sabem dessas discussões; mulheres que travam todos os dias uma batalha pela sobrevivência, trabalhando dez, doze ou mais horas para ganhar um salário de fome; mulheres que não têm tempo nem energia para buscar seus direitos porque precisam garantir o pão na mesa dos seus filhos; mulheres que não conhecem nenhum grupo de apoio e encaram suas lutas sozinhas; mulheres aprisionadas por convicções religiosas opressoras, que não dispõe de outras fontes de informação para mostrar a elas que o Evangelho que aprendem em suas igrejas nada mais é do que um instrumento de controle social e de corpos femininos… mulheres que estão muito longe desses avanços que temos assistido por causa da nossa luta. Como podemos chegar até elas?

Por fim, a jornalista propõe uma reflexão sobre privilégios e questiona o alcance do feminismo:

Primeiramente acho que temos que tomar consciência dos nossos privilégios. Somos privilegiadas, sim, pela educação que temos, pelos ambientes que frequentamos (seja ele escola, universidade, comunidades ou igrejas que incentivam o pensar), pelas informações e pelas oportunidades a que tivemos acesso. O que fazer com tanto privilégio? Desfrutar apenas? Não. Jesus disse que “a quem muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12:48), logo, temos uma responsabilidade imensa diante do muito que nos tem sido dado. Como você tem usado seus privilégios para beneficiar aqueles que não têm? Seu feminismo chega até sua diarista, até a moça que faz a limpeza no seu trabalho, sua funcionária grávida, até a irmã mais humilde da igreja que passa por inúmeras dificuldades…? Como você tem compartilhado seus saberes e ajudado a libertar mentes oprimidas? Essas perguntas eu me faço todos os dias e acho que esse é o nosso maior desafio: botar em prática tudo que aprendemos com o feminismo, mesmo que isso signifique abrir mão das nossas vantagens.

Acompanhe nossa Coluna Feminismo!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s