Opinião | Por que culpar as evangélicas pobres pela vitória de Bolsonaro?

Por Fábio Py. Publicado em 13/03/2019.

Manifestação da Frente de mulheres evangélicas. Reprodução.

Acaba de ser noticiado mais dados das eleições presidenciais de 2018 pelo presidente do Instituto Vox Populi pesquisa, Marcos Coimbra, (https://www.brasil247.com/pt/247/poder/384434/Marcos-Coimbra-mulheres-evang%C3%A9licas-pobres-definiram-vit%C3%B3ria-de-Bolsonaro.htm). Li a entrevista de Coimbra e existem dois pontos que chamam a atenção, sendo que, entendo que o segundo argumento é o central. Seu primeiro argumento é apenas para justificar o segundo. No geral é uma entrevista interessante, não pela chamada do artigo-entrevista “Mulheres evangélicas pobres definiram vitória de Bolsonaro”, mas por apontar os caminhos que estão sendo trilhados pelos setores hegemônicos do PT, e de como estão encarando a derrota do ano passado na eleição.

Evangélicos e o voto

Começo o escrito lembrando a última semana antes do primeiro turno eleitoral de 2018. Quero ilustrar que concordo em partes com Coimbra. Houve, de fato, ajustes entre as grandes estruturas evangélicas e suas lideranças fazendo pressão política nos seus fiéis, inclusive em pregações evangélicas em 2018. Tal falto me pareceu óbvio pelas notícias que me chegaram a partir do fim de semana anterior à eleição. Em retrospectiva, lembro que no domingo, um missionário batista assumiu na rede social que Bolsonaro era a melhor opção de voto. Na segunda-feira, recebi uma nota de lideranças metodistas desaconselhando o voto petista. Na quarta-feira, vejo a entrevista do Bispo Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, falando sobre o voto no então candidato do PSL. Na quinta, recebo uma nota das Assembleias de Deus dando apoio à candidatura de Bolsonaro, e assim por diante, até o pleito de domingo. Portanto, ao longo da semana ia percebendo como as coisas iam se encaixando em prol da candidatura de Bolsonaro.

Na tentativa de explicar o movimento dos religiosos em direção ao voto em Bolsonaro, o presidente do Vox Populi afirma que o eleitorado evangélico, especificamente as mulheres, decidiu a eleição de Bolsonaro na última semana. Indícios disso seriam justamente os últimos dias/horas antes do pleito, quando Jair Bolsonaro deu um salto de 21% para 40% das pretensões de voto das mulheres evangélicas (https://theintercept.com/2018/10/20/evangelicas-pobres-contra-bolsonaro/). Enquanto isso, seu opositor, Fernando Haddad, teve uma queda no crescimento de 20% para 15%. Tal oscilação na leitura de Coimbra se deu pelas campanhas no WhatsApp, reverberadas pela mídia oficial.

Supreendentemente, Coimbra defende que não foi diretamente o antipetismo responsável pela perda do Haddad, mas sim uma falsa imagem criada a respeito do candidato do PT. Haddad teria se transformado numa figura inaceitável para o eleitorado mais religioso, evangélico e conservador. Para defender seu argumento, destaca Coimbra que o antipetismo configurou apenas 9% do eleitorado que votou em Bolsonaro. Por sua análise, 90% da população não tem nenhum problema com o PT.

A quem servem as pesquisas eleitorais?

Aferi os dados do Vox Populi pesquisa e não achei tanta precisão na associação sugerida por seu presidente. Ao menos não se indica os motivos quantitativos tão claros de tal sinalização sobre as mulheres evangélicas. De forma mais direta, essa afirmação me soa desajustada. Primeiro, lembra-me que o tal instituto Vox Populi foi responsável pelas pesquisas eleitorais, que indicavam o empate técnico entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro no segundo turno, colocando a confiança de sua pesquisa em 95%, entrevistando 2000 eleitores (https://politica.estadao.com.br/eleicoes/2018/cobertura-votacao-apuracao/primeiro-turno).

Agora, o que me chamou a atenção foi o primeiro argumento de Coimbra. Para ele, um setor, isto é, o dos evangélicos, decidiu a eleição. Ora, como pode um único segmento decidir um pleito, se uma eleição se configura como o somatório de diferentes forças de votos, de diferentes camadas populacionais que solidificam os números? São várias camadas sociais que votaram em Bolsonaro, formalizando sua vitória. Então, como pode um setor social ser indicado como sendo responsável? Se, de fato, são apenas esses números que estão à mesa, me soa um tanto irresponsável tal afirmação. Isso porque a população evangélica sabidamente faz parte (em sua maioria) de um grupo social que ocupa os seguimentos mais baixos. No geral, como pode provar que existe um vínculo direto entre o voto dos evangélicos e a indução dos seus líderes? Essa afirmação de Coimbra me parece enveredar num detalhe do racismo e do preconceito brasileiro, no qual, historicamente, colocam na conta do setor evangélico a alienação de ser parte significativa das camadas populares. É uma operação fácil de ser feita, tanto no senso comum quanto no meio das pesquisas sobre religião.

Existe uma ideia corrente de que evangélicos, por serem pobres, aceitariam sem exigência as indicações de suas lideranças. Essa ideia é uma face do preconceito ante às camadas mais baixas. Essa concepção se reflete em Coimbra, ao colocar nas costas das mulheres evangélicas a contas dos votos de Bolsonaro, de 21% para 40 % dos votos. Isso é muito estranho, pois se percebe que as votações masculinas formaram a maioria dos que votaram em Bolsonaro (http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584446-foram-os-evangelicos-que-elegeram-bolsonaro). Assim, analisando o discurso de Coimbra, entendo que esteja elegendo uma parcela específica da população mais pobre, como sendo eleitoras majoritárias de Bolsonaro, ou seja, mulheres evangélicas e pretas. Na verdade, levantou um dado que mais parece ser mais do mesmo preconceito para falar o que lhe interessava.

Dessa forma, creio que o centro do argumento se encontra na parte final do artigo, quando Coimbra afirma que a questão não era o antipetismo, a questão foi de uma imagem falsa fabricada contra o candidato do PT, e segue dizendo que o antipetismo não é tão abrangente, já que apenas 9% dos eleitores de Bolsonaro afirmam odiar o PT, o que para ele significa dizer que 90% “da sociedade brasileira gosta do PT, ou não tem nenhum sentimento a favor ou contra o partido”. Assim, minha questão é: e quem voltou em Ciro? E quem votou em Alckmin? Marina? Amoedo? Ou mesmo aqueles que votaram em Haddad no segundo turno, somente contra Bolsonaro, e estavam dispostos a, após a eleição, voltar sua caminhada contra o PT? No fim da entrevista seu vínculo com o petismo se torna evidente, quando sinaliza uma palavra de reflexão para o partido, a qual deveria ser acerca da “verdadeira natureza da vitória de Bolsonaro e reaja a isso”, deixando claro os interesses do diretor do instituto com o setor petista.

Justificativa para construção de uma nova agenda

Portanto, assim, pergunto-me: Quais são os interesses dessas forças em alavancar as mulheres periféricas, pretas, evangélicas e pobres como responsáveis pela vitória do Bolsonaro. Para mim, essa resposta é fácil. Porque é mais fácil colocar a culpa sobre elas. É fácil acusá-las de bitoladas, de simplórias, que fazem tudo pelas lideranças, sem pensar. Acredito que o raciocínio de Coimbra sirva para desviar a atenção para o elemento central de sua matéria, que é a questão do antipetismo, que segundo ele não foi tão forte, logo permitiria disputar os votos de quem votou em Bolsonaro. Ainda mais agora, quando começam a brotar relatos de pessoas desiludidas com a política ultraliberal de Bolsonaro. Portanto, novamente, a máquina petista volta a justificar sua nova disputa política no atual período, os 90% restantes que não odeiam o PT. Pouco dizendo sobre a ponta mais explorada, que são as mulheres evangélicas pobres que sustentam as periferias urbanas e rurais do Brasil.

Fontes:

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584446-foram-os-evangelicos-que-elegeram-bolsonaro;
https://www.brasil247.com/pt/247/poder/384434/Marcos-Coimbra-mulheres-evang%C3%A9licas-pobres-definiram-vit%C3%B3ria-de-Bolsonaro.htm


Sobre o autor desse artigo

Fábio Py é Doutor em Teologia.

Um comentário

  1. Os eleitores de Bolsonaro até hoje não sabem diferenciar o PT do que significa a esquerda – para eles é a mesma coisa, o que não é certo. De todos os modos, o antipetismo foi decisivo para a vitória do coiso, mas naquilo que o PT foi perdendo nas suas bases – só para manter-se no poder – principalmente o compromisso em servir o povo e a confiança de ser um partido justo e honesto. Exatamente aí seus princípios foram atingidos, agredidos e por fim repudiados – no fundo uma decepção – o terreno ideal para o populismo.

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