Opinião | Reconheci minha homofobia religiosa, pedi perdão e hoje luto contra ela


“Uma igreja que precisa se esconder sob a égide da lei para disseminar ódio e preconceito contra seres humanos perdeu toda sua essência, que é propagar o amor.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 14/02/2019.

Foto: Ativismo Protestante.

Desde que eu pude reconhecer meu pecado de homofobia religiosa, no final de 2017, pedi perdão aos gays, a Deus e entrei numa luta ferrenha contra ela. De lá para cá, passei a denunciar esse crime absurdo, que eu mesmo pratiquei por uns dez anos, enquanto fui religioso fundamentalista na igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério Belém, em São Paulo.

Não sou gay, mas quando temos esse despertar, percebemos que não basta lutar só a nossa luta: é preciso lutar a luta do outro. Também não basta só não ser a favor da homofobia ou de outros preconceitos: é preciso ser veementemente contra, repudiar, denunciar. Há que se conhecer a história dos LGBTIs, as estatísticas de violência contra eles, suas pautas, a legislação, celebrar com eles na Parada Gay, estar com eles nas ruas, nas suas reivindicações. A fé sem obras é morta, o amor sem boas ações é hipocrisia.

Eu falo em poder reconhecer, pois não é fácil chegar a essa conclusão. São várias coisas concorrendo contra a vontade de se libertar desse e de outros preconceitos. Parece até que precisa de uma ajuda divina, um tipo de libertação espiritual, pois a lavagem cerebral é muito bem feita dentro de uma igreja pentecostal ultraconservadora como a Assembleia de Deus, teológica e moralmente. Fazem nos sentirmos culpados, se tentamos escapar dela.

Nesse ambiente, o inferno é lembrado a todo momento, como um lugar de eterna tortura e sofrimento para aqueles que ousarem fugir da heteronormatividade. Repressão e opressão são constantes. Não há espaço mínimo para refletir ou discutir a homoafetividade. É crime hediondo contra a igreja, punido com pena de morte.

Imagina que grande vitória será hoje, se o Supremo Tribunal Federal (STF) não se acovardar de novo e tornar a homo e a transfobia crimes…

Vou me sentir muito feliz por ter ajudado. Talvez isso reduza um pouco da minha culpa por perseguir essa população no passado. Com certeza fará um pouco de justiça aos crimes de homofobia cometidos pelas igrejas cristãs, principalmente católicas e evangélicas.

Fala-se agora em igreja inclusiva. O nome “igreja inclusiva” só faz sentido se for para amenizar a homofobia religiosa. É uma ótima desculpa e um excelente eufemismo dizer “minha igreja não é inclusiva”, ao inves de dizer que é homofóbica.

Uma igreja que precisa se esconder sob a égide da lei para disseminar ódio e preconceito contra seres humanos,  usando o pretexto de liberdade religiosa, perdeu toda sua essência, que é propagar o amor.

Confessar seus pecados não é perder a fé. Já passou da hora das igrejas confessarem seus crimes e pecados contra os homossexuais.

#criminalizaSTF


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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