Opinião | Sexta com Yuka, ou a descoberta de ‘Guerra e Paz’, de Tolstói


“Perdemos Yuka, por hora, mas temos pirulas de beleza e de sua genealidade espalhadas.”


Por Fábio Py. Publicado em 30/01/2019.

Marcelo Yuka. Reprodução do Facebook.

Acho que era o ano de 2009, mais ou menos. Trabalhava na Tijuca, no Seminário do Sul. Um dos meus alunos tinha o contato dele, Marcelo Yuka, que morava nas redondezas do Seminário. Ligou para ele, marcamos o dia e fui ao encontro. Lembro da minha alegria. Parecia um moleque de anos antes que entrou na faculdade e ia a todos seus ensaios no 10° andar da UERJ. Ensaios de graça, afinal, a graduação e a grana não combinam.

Esperei o dia. Era uma sexta. Dava aula de manhã, e ia para lá, no almoço. Dei minhas benditas aulas da manhã, ainda mais gritadas e rápidas. Estava tenso. Quase tremia. Desci a Colina do Seminário para encontrar meu letrista favorito dos últimos quinze anos. Fui rápido, no ritmo meio de marcha atravessando a parte nobre da Tijuca. Morava perto de uma das saídas da floresta da Tijuca. Toquei a campainha. E, ele mesmo veio à porta de cadeira de rodas. Abriu a porta e disparou um emocionante e simples: “e ai cara!” – nada mais carioca. Respirei de alivio, afinal, pelo cumprimento, podia ficar à vontade.

Passei à tarde lá, falando das coisas, ativismo, teologia da libertação, Biblia, índios, relacionamentos e comentamos sobre uma ou outra letra que fez. Mas, logo, uma que não ligava tanto (na época) chamou minha atenção. Me disse que o episódio do clipe é meio real, só que ocorrido no Morro da Providência, logo após um show de sua ex-banda, comendo uma feijoada e tomando uma cerveja num boteco do lado do campo. Foi quando a polícia abordou os meninos que iam à praia. Acusação de roubo, mas os meninos só tinham devolvido uma grana que caiu no chão.

A favela então se levantou contra os policiais.

Parou, colocou a mão no queixo, em tom de pensamento, e disse: “que paz é essa? A quem interessa?”. Concluiu que “paz sem voz é medo”.

Marcelo Yuka. Reprodução do Facebook.

Quando encadeou as perguntas, disse que à época da escrita da música estava lendo Tolstói, seu clássico ‘Guerra e paz’. Mostrou-me um dos seus volumes que tinha na biblioteca. Disse de forma bem conclusiva que, em Tolstói, a ‘paz’ tinha de ser um projeto que partisse dos pobres, camponeses e não das elites. Porque com as elites seria acomodação social, cheia de preconceito, discriminação e racismo. Por isso, para ele, Tolstói, embora aristocrata, era muito mais revolucionário que seu discípulo indiano Gandhi – outro aristocrata.

Essa ideia do Yuka não me sai da cabeça desde então, tanto que 3 anos depois comecei a escrever sobre romantismo anticapitalista, baseado em Michael Lowy. Sempre lembrando daquela sexta, de papos, livros, vinhos, uma marofa que não saia das redondezas. Escrevi tudo isso porque vi a homenagem que fizeram a esse clipe premiado d’O Rappa, quando ele diz exatamente isso: “A minha alma tá armada/E apontada para a cara / Do sossego / Pois paz sem voz / Paz sem voz / Não é paz é medo”.

Perdemos Yuka, por hora, mas temos pirulas de beleza e de sua genealidade espalhadas. Então, meus irmãos e irmãs, deixo vocês com as duas versões, e eu cá só quero agradecer aos deuses/deusas pelo Yuka, com tantas percepções, versos, palavras, na minha trajetória. Meu desejo é que vá na paz que acaba com os exércitos, com as polícias e o militarismo, irmão.

Na certeza que nos veremos outro dia em outras possibilidades. Amém, axé.


Sobre o autor desse artigo

Fábio Py – Doutor em Teologia pela PUC-RIO, ênfase História da Igreja/Fé e Política. Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação Politicas Sociais na UENF. Membro da CPT do Norte Fluminense (RJ) e do Coletivo Casa Comum.

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