Hermes Fernandes: Transexualidade à luz da graça


“O Deus que salva héteros, salva gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e qualquer que seja a categoria que exista ou venha surgir. Não ouse subestimar o escandaloso amor de Deus.”


Texto reproduzido do perfil oficial fo pastor Hermes C. Fernandes. Publicado em 29/01/2019.

Pastor Hermes C. Fernandes. Reprodução.

Imagine se você se sentisse um homem preso num corpo feminino ou uma mulher num corpo masculino, e não pudesse fazer nada para mudar esta realidade. Como mensurar o sofrimento de milhares de transexuais que vivem este dilema existencial? Não bastasse a inadequação, ainda têm que aguentar o olhar condenatório de uma sociedade hipócrita, incapaz de amar o diferente, cujos preconceitos são alimentados por um discurso religioso ultrapassado e desprovido de misericórdia.

Muitos achavam tratar-se de um comportamento aprendido, influenciado pela cultura ou pelo ambiente, outros julgavam que seria fraqueza de caráter ou pura sem-vergonhice mesmo, até se depararem com a chocante realidade de crianças trans, como o caso apresentado no Fantástico (12/03/2017). O fato é que o transexual percebe desde cedo que está no sexo errado. Não confunda homossexualidade com transexualidade. Não se trata apenas de atração por pessoas do mesmo sexo. Trata-se, antes, de uma sensação de profundo desconforto com seu próprio sexo anatômico, capaz de levar a pessoa a desejar empreender uma jornada de transição de seu sexo de nascimento para o sexo oposto. O que está em jogo é a identidade de gênero. Enquanto um homossexual é capaz de aceitar seu próprio corpo, o transexual (ou transgênero) sente a necessidade de alterá-lo, adequando-o ao seu sexo psicológico. Também não se deve confundir transexualidade com hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo. Hermafroditas são definidos como pessoas que possuem ovários e ao mesmo tempo pênis e testículos funcionais, portanto, possuem, por assim dizer, dois sexos. O transexual possui um único sexo biológico, mas que não é compatível com seu sexo psicológico. Ele é, digamos, homem por fora, mas mulher por dentro ou vice-versa.

Arte: Ativismo Protestante.

Antes de abordar a questão à luz do evangelho, gostaria de propor uma compreensão à luz da ciência. No embrião humano, a genitália se forma por volta da décima semana, enquanto o cérebro ainda se encontra em desenvolvimento. Por volta da vigésima semana, define-se a área que dá a identidade de gênero. Geralmente, a genitália e o cérebro apresentam o mesmo sexo. Porém, no transgênero, ocorre do cérebro apresentar uma formatação diferente. A genitália é masculina, mas o cérebro se estruturou como sexo feminino, ou a genitália é feminina, mas o cérebro é masculino. De acordo com a pesquisa feita no Netherlands Institute for Brain Research por Dick Swaab em 1995, o hipotálamo em transexuais masculinos era do tamanho do feminino ou ainda menor. Em outras palavras: um cérebro de mulher aprisionado em um corpo de homem. Convém salientar que o hipotálamo é a área do cérebro essencial à determinação do comportamento sexual.

Tragicamente, um em cada cinco transexuais tenta o suicídio, e essa forma de morte é cinco vezes mais frequente entre eles do que na população em geral. Para muitos deles, a cirurgia de mudança de sexo seria a última esperança para uma vida mais digna, compatível com suas aspirações existenciais. O termo usado atualmente para definir mudanças de características sexuais é cirurgia de reatribuição ou redesignação sexual, que reflete a ideia de que as pessoas transexuais não estariam mudando de sexo propriamente, mas corrigindo seus corpos. No caso de mulheres trans, os testículos são retirados e o pênis é cortado ao meio no sentido do comprimento, com remoção do tecido interno. A uretra é realinhada e a pele do pênis, preservada, é dobrada para dentro, forrando uma cavidade feita cirurgicamente e que vai ser a vagina. Em alguns casos, a extremidade do pênis é transformada em um clitóris capaz de provocar o orgasmo. Frequentemente, mulheres trans preferem limitar o processo de redesignação sexual à cirurgia de feminilização facial, o aumento de seios e terapias hormonais.

A cirurgia de redesignação genital em homens trans compreende um conjunto de procedimentos, incluindo a remoção dos seios, a reconstrução dos genitais e a lipoaspiração. A maioria delas, porém, prefere submeter-se unicamente à retirada dos seios.

Como poderíamos encarar tal realidade à luz do Evangelho? No caso de um transexual que se convertesse, seria correto esperar que voltasse ao sexo original ou ele poderia manter o atual? E se isso não fosse possível? Estaria a igreja preparada para receber tais indivíduos sem julgá-los e condená-los?

Comecemos por Jesus. Ele afirma a existência de pessoas que “castraram a si mesmos por causa do reino dos céus.” Sabendo que estava pisando em terreno minado, Ele arremata: “Quem pode receber isto, receba-o” (Mateus 19:12). Obviamente, alguns dirão tratar-se de eunucos e não de transexuais. Precisamos, todavia, considerar que a transexualidade não era uma questão daquele tempo. Porém, é possível traçar um paralelo entre o transexual de hoje e os eunucos. Em alguns casos, ambos têm em comum o fato de se submeterem a um procedimento de alteração em sua genitália por livre e espontânea vontade. Entretanto, no caso apresentado por Jesus, tais indivíduos se castravam por uma causa específica que é o reino dos céus. O que significaria castrar-se por causa do reino dos céus? Será que remover a genitália nos tornaria mais dignos de entrar em Seu reino? Orígenes, um dos pais da igreja, acreditava que sim. Tanto que se submeteu a isso.

Haveria outra maneira de entender esta enigmática passagem? Acredito que sim. Em outra passagem, Jesus afirma que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas 17:20). Isto é, o que vale no reino anunciado por Jesus é o que se é por dentro e não por fora. É no íntimo que habita a verdade (Salmos 51:6).

Nem sempre há compatibilidade entre o que vemos no espelho e aquilo com que nos deparamos nos recônditos do nosso ser. E isso pode gerar tal desconforto a ponto de empurrar-nos para o abismo da depressão e até do suicídio. Paulo diz que ainda que nosso homem exterior não correspondesse às nossas expectativas, por está sujeito ao desgaste do tempo, o nosso homem interior se renovaria dia após dia (2 Coríntios 4:16). O corpo tem prazo de validade. A alma traz a vocação de ser eterna. Razão pela qual não deveríamos conhecer a ninguém segundo a carne, mas segundo o espírito, isto é, de acordo com o que se é interiormente (2 Coríntios 5:16). Portanto, alguém poderia sim submeter-se a um procedimento cirúrgico que visasse corrigir tal incompatibilidade entre seu exterior e seu interior sem com isso estar rebelando-se contra o seu Criador. Em certo sentido, isso seria feito pela causa do reino. De acordo com a definição do apóstolo Paulo, o reino de Deus é alegria, justiça e paz (Romanos 14:17). Se tal procedimento, por mais traumático que seja, gerar alegria, simetria entre corpo e alma (justiça) e apaziguar o coração, então, não há razão para condenarmos quem a ele se submeteu. Trocar de sexo não significa ser promíscuo, imoral, pervertido. Significa apenas buscar atenuar o sofrimento resultando da incompatibilidade entre o que se é por fora e o que se é por dentro.

Não consigo entender porque os cristãos valorizam tanto aparências, haja vista que o Deus a quem afirmam adorar toma a contramão desta tendência. Ele mesmo disse ao profeta Samuel: “O Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Samuel 16:7b). Alguns dirão: tentar corrigir o sexo é o mesmo que afirmar que Deus errou. Se seguirmos esta lógica, então, usar óculos, próteses, perucas, também deveria ser considerado uma afronta ao Criador. O que dizer de cirurgias plásticas com objetivos meramente estéticos? E a mulher do pastor que resolveu dar uma turbinada nos seios? Não sejamos hipócritas!

Somos todos filhos de Adão. Pertencemos a uma raça submetida às contingências da existência. Como costumo dizer, o mundo ideal ficou atrás dos portões do Éden. Portanto, sejamos mais complacentes, buscando compreender o drama vivido por milhares de transgêneros. Quem sabe um dia possamos acolhê-los livremente em nossas comunidades levando em conta apenas sua humanidade, reconhecendo neles nossa própria carência de graça, amor e aceitação. Estou certo de que esta é a vontade de Deus. Uma coisa posso garantir com todas as letras: a multiforme graça de Deus é apta para abarcar a multifacetária sexualidade humana. Ninguém, absolutamente ninguém, está excluído do escopo da graça. O Deus que salva héteros, salva gays, lésbicas, transexuais, bissexuais e qualquer que seja a categoria que exista ou venha surgir. Não ouse subestimar o escandaloso amor de Deus.

Certamente o assunto não se esgota aqui. Só espero ter dado um pontapé inicial que provoque uma onda de diálogo entre os seguidores de Cristo e este importante segmento social.

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