A luta da criança Martin Luther King pelos pobres e a alienação religiosa


“Mesmo criança, Martin Luther King já questionava a pobreza sobre os pobres. Muitas igrejas evangélicas, hoje, ao contrário, questionam os pobres sobre a sua pobreza.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 19/01/2019.

Martin Luther King. Reprodução.

“Nasci no final da década de 20, no auge da Grande Depressão, que iria espalhar seus braços destrutivos por todos os cantos desta nação por mais de uma década. Eu era muito jovem para que possa recordar o início dessa depressão, mas me lembro, quando tinha uns cinco anos, de ter interrogado meus pais sobre aquele monte de gente que vivia na pobreza. Posso perceber os efeitos dessa experiência de minha tenra infância em meus sentimentos anticapitalistas.” (Martin Luther King)

O senso de justiça pode fazer de crianças revolucionários, assim como a ausência dele pode tornar velhos pessoas desprezíveis. O próprio Martin Luther King se definia como alguém “um tanto quanto precoce, física e mentalmente”, o que explicaria seu aguçado senso crítico e de justiça social ainda na infância. Mesmo criança, Luther King já questionava a pobreza sobre os pobres. Muitas igrejas evangélicas, hoje, ao contrário, questionam os pobres sobre a sua pobreza.

À primeira, vista, tal afirmação pode parecer retórica e simplista aos olhos de um leitor sem senso crítico, desses que não lê, mas é carregado pelos olhos, como uma água-viva, quem tem muitos olhos, mas não tem cérebro. Porém, dessa mudança aparentemente sutil de questionamento, que troca a causa (pobreza) pela consequência (pobre), derivam muitas teologias enganosas, como a da prosperidade, e pastores e igrejas enganadoras, como as neopentecostais. Dessa inversão lógico-causal também surge a alienação civil e política.

No âmbito religioso, a teologia da prosperidade coloca a pouca fé das pessoas como a causa de sua pobreza, e as igrejas neopentecostais as culpam por isso. A solução da pobreza estaria em orar mais, ser mais crente. Pior ainda, associam o aumento da riqueza à oferta material a Deus, como carros, casas e muito dinheiro. O famoso jargão “dê o seu tudo”, do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, deixa isso bem claro.

Sob essa ótica religiosa espúria, desemprego e distribuição de renda se tornam problemas espirituais, não sociais ou governamentais.

Na esfera política, esse raciocio ilógico leva a atos absurdos, como o apoio à eleição de um presidente de ideias anticristãs, que não debate projetos de governo, não discute a pobreza, a desigualdade social, o desemprego, é armamentista e ainda prega racismo, machismo e ódio a minorias, como LGBTIs: Jair Bolsonaro. Dito de outro modo, a pobreza não é mais um problema de governo, e, sendo assim, pouco importa quem governe: nosso esperança está unicamente em Deus.

Ao governo caberia velar pela preservação de questões morais conservadoras, como a homossexualidade, a fábula da ideologia de gênero e assegurar que meninos vistam azul e meninas, rosas.

Já no âmbito civil, temos a deterioração da civilidade, ou seja, da obrigação de ser no mundo, não apenas estar nele. Votar é algo secundário, tão insignificante que outros podem fazê-lo por nós. Eis o curral eleitoral. Se a pobreza não é um problema governamental, pouco ou nada importa ir às ruas protestar contra um mau governo. Tampouco importa denunciar ou combater injustiças sociais, como a falta de moradia, educação, segurança pública e saneamento. A riqueza pode comprar tudo isso, mostram os ricos de Pinheiros, da USP e do hospital Albert Einstein. E a fé compra a riqueza de Deus. A solução espiritual é fácil e só pedende de cada um: meritocracia gospel.

Outro problema nessa área é a falta de lideranças engajadas social e politicamente, como o foi Luther King. No lugar de revolucionários, reacionários, como os pastores Silas Malafaia, Marco Feliciano, Magno Malta, José Welington e RR Soares. Padecemos de ativistas que um dia possam ganhar um Nobel da Paz, como Martin ganhou, sendo o mais jovem da história a conseguir tal feito.

Reagir a aberrações lógico-espirituais é um passo importante para a construção de homens mais justos e, consequentemente, de uma sociedade mais justa, como sonhou nosso irmão batista King. Ele próprio se deparou com ensinos desse tipo, mas os rebateu, também, ainda na sua infância. A criança Martin Luther King foi revolucionária, quem sabe se impulsionada pelo Espírito Santo.

King descreveu esse processo de reação ao fundamentalismo religioso de sua infância, transcrito abaixo. Que esse espírito crítico também nos mova diante de injustiças sociais:

“As lições que aprendi na escola dominical eram de uma linha bem fundamentalista. Nenhum de meus professores jamais duvidou da infantilidade das Escrituras. A maioria deles era iletrada e nunca tinha ouvido falar do criticismo bíblico. Naturalmente, eu aceitava os ensinamentos como me eram transmitidos. Nunca senti necessidade de duvidar deles – pelo menos naquela época. Creio que aceitei acriticamente os estudos bíblicos até mais ou menos uns doze anos de idade. Mas atitude acrítica não duraria muito, pois era contrária a própria natureza do meu ser. Eu sempre fora do tipo questionador e precoce. Aos treze anos, deixei minha escola dominical chocada ao negar a ressureição corporal de Jesus. As dúvidas começaram a brotar incessantemente.”


As citações desse artigo foram retiradas do livro ‘A autobiografia de Martin Luther King’ – de Clayborne Carson, Editora Zahar, 2014.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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