Osmar Carvalho | Percepções de um corpo negro cristão tatuado


“Eu precisei de uns 10 anos para me libertar das amarras religiosas, que ainda resistem em relação ao preconceito contra tatuagem.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 17/01/2019.

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Osmar Carvalho. Foto própria.

Se um corpo negro já causa reações e sentimentos por onde anda – como indignação, desconfiança, medo, raiva, inveja, ódio, desprezo e alguma admiração -, um corpo negro cristão tatuado causa muito mais. Pelo menos foram essas as percepções que tive, desde dezembro do ano passado – quando decidi me tatuar. E é sobre essas percepções que falarei a seguir, além de abordar algumas coisas a considerar para quem desejar fazer uma tatuagem.

Corpo ainda mais em evidência

Não há como esconder ou tornar discreto um corpo negro tatuado. No ônibus, no trem, no metrô e nas ruas os olhares são constantes e fulminantes. Muito olhares parecem uma pergunta: “o que está escrito, será que é de cadeia, fez na prisão?”. Outros são de juízo: “deve ser bandido ou ex-presidiário… com certeza é de periferia”. Um óculos escuro ajuda a fazer essas leituras. Mas há os que elogiam também, essa é a melhor parte.

O que tatuar no corpo negro?

Como mostram as fotos, minhas tatuagens são políticas, pois considero o corpo negro político. Não são tradicionais. Meu tatuador me elogiou, disse que sou um em um milhão que faz tatuagens assim. Esse foi um dos critérios para a escolha das tatoos.

Mas tatuagens tradicionais, coloridas, que ficam muito bonitas e legíveis em brancos, não têm o mesmo efeito na pele negra. Parece ironia, mas a melhor cor para tatuar o corpo negro é a preta. É a que mais destaca. O desenho precisa ser forte para ficar nítido.

Perigo policial: filtragem racial

Percebi também que o olhar da polícia aumentou, e isso aumentou um pouco mais meu medo da filtragem racial. Para aqueles que não sabem, filtragem racial é um mecanismo de seleção racial racista institucional usado pela polícia, que escolhe suas vítimas, potenciais suspeitos para abordagem, unicamente pela cor da pele, no caso a negra, claro.

Ambiente de trabalho

Embora haja menos preconceito atualmente, ainda há pessoas bastante conservadoras em relação a corpos tatuados, isso pode te prejudicar de alguma forma. Mas no geral, não tive problemas com isso, pelo contrário, até motivei alguns amigos a fazerem tatoos. Outros me pediram referências, outros foram e fizeram. Foi até legal.

Na família

Meus irmãos todos já tinham feito tatuagens antes de mim, claro que gostaram das minhas. Talvez por eles não serem evangélicos.

Meu pai era e ainda é muito conservador, sempre nos proibiu de tatuar, até nossa autonomia financeira. Ele não reagiu às minhas tatoos. Também, já tenho 36 anos né?

Na igreja

Eu precisei de uns 10 anos para me libertar das amarras religiosas, que ainda resistem em relação ao preconceito contra tatuagem. Sempre fui da Assembleia de Deus Ministério Belém, em São Paulo, uma igreja ultra-conservadora.

Hoje não me importo mais com julgamentos de quem quer que seja. Tampouco me sinto culpado de algo. Sai da Assembleia de Deus e sinto que encontrei a verdade. Estou liberto de qualquer tipo de preconceito.

O caminho e o preço da tatuagem

“Tipo, nem pensou direito…Por que não fez só uma, refletiu se era isso mesmo que queria e depois fez as demais, como faz todo mundo ‘normal’?”

Muito bem, vamos àquelas verdades que só você viveu e que nego quer que se dane.

Eu estou pensando nisso desde a minha adolescência. Sempre quis fazer umas tatoos, pois na minha inocência achei que aquele cara mais adiantado da rua, que ostentava uma tatoo no estilo cadeieiro, poderia me rabiscar, sem nenhum custo ou quase de graça.

Logo descobri que eu teria que escolher entre fazer uma tatoo ou morar na casa do meu pai, pois isso, para ele, isso era proibição nível hard. Esquece neguinho. E se teimar apanha.

Depois, já de maior, dei de cara com os preconceitos capitalistas, na hora de arrumar um trampo.

Fui caindo na real. Era um sonho distante…

Pois bem, tive que crescer, passar a adolescência, a juventude, chegar à fase adulta, sair da casa do meu pai, arrumar um emprego, esperar o preconceito diminuir, alcançar autonomia e juntar dinheiro para me tatuar.

Voltando à minha ilusão de adolescente, de tatoo a custo zero, hoje descobri que tatuagem profissional também não é coisa de pobre, custa bem caro. Acredite, bem mais caro que aquela geral anual no dentista, ou algumas dezenas de consultas médicas pagas.

Foram quatro tatuagens, em quatro dias. Para fazer minhas tatoos, foi necessário um tatuador à minha disposição todos os dias, um dia para cada uma. E uma maca no estúdio.

E tem os cuidados pós-tatoo, chamado período de cicatrização, que dura de 20 a 30 dias. Antes de ser uma arte, a tatoo é uma ferida aberta. Sangra, incha, inflama, sai pus, cria casca, dói, coça, até cicatrizar. O corpo luta com força para expelir aquele objeto estranho. Tem todo um trabalho de enfermagem a ser feito, uma rotina rigorosa a ser seguida, material a ser comprado. Mais custos.

Então, não foi um ato impensado, uma insanidade né? Foram anos de preparo psicológico, social e financeiro.

A recompensa

A melhor parte é se olhar e perceber a mudança, que realizou um sonho. A mudança corporal é bastante significativa. Ser o centro das atenções por anda passa dá uma sensação de liberdade, de rompimento de regras sociais e religiosas. Estou mais livre, porque me sinto mais livre. Foi libertador.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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