Opinião | O pastor Carlos Bezerra Jr e a fé cidadã que contraria direitos humanos


“Sabendo o que é a gestão Doria/Covas, jamais poderíamos considerar que a expressão “fé cidadã” se encaixaria nela.”


Por Heber Farias. Publicado em 17/01/2018.

Carlos Bezerra Jr e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas. Reprodução do Facebook.

Era de tarde no dia 23 de maio de 2017, quando uma ação da gestão Dória/Covas derrubou um prédio com pessoas literalmente dentro. O fato ocorreu no bairro Campos Elíseos, região central de São Paulo conhecida como cracolândia. É claro que essa ação só poderia ter sido feita ali, afinal os “usuários” não eram considerados humanos suficientes para serem respeitados como tal. E está aí uma questão que o governo municipal Dória/Covas (PSDB) não respeitou: os direitos humanos.

Era também de tarde, quando no dia 14 de março de 2018 a professora Luciana Xavier teve seu nariz quebrado, agredida dentro da Câmara Municipal de São Paulo, durante uma discussão sobre o projeto de reforma da previdência “Sampaprev”, que aumentaria a contribuição previdenciária dos salários já baixos de professoras e outros servidores públicos municipais, de 11% para 14%. O projeto foi encaminhado pela gestão Dória/Covas e aprovado um dia depois do Natal, quando Covas assumiu a prefeitura, abandonada por Doria, eleito governador do estado.

Já no dia 1 de Maio de 2018, era de madrugada, quando o edifício Wilton Paes de Almeida, uma ocupação, veio abaixo após incêndio no centro de São Paulo. Cerca de três meses depois do desastre, moradores ainda ocupavam o largo do Paissandu com barracas improvisadas, reivindicando uma solução imediata para a situação calamitosa. Enquanto isso, a prefeitura de Covas insistia em desmoralizar e persegui-los, através de ameaças, referentes ao conselho tutelar, desautorizando a instalação de banheiros químicos, negando atendimentos básicos às vítimas de um desastre e usando pressões psíquicas para desocuparem o largo.

Esses são apenas três exemplos, mas poderíamos escrever um livro sobre os desrespeitos dessa gestão em relação aos direitos humanos. Passaríamos pelo tratamento às pessoas em situação de rua, que por vezes são acordadas com jatos de água, pela “cidade cinza”, que desrespeitou a arte e a cultura da cidade por um higienismo cultural, pela tentativa de desocupação do Campos Elíseos, com o objetivo de emplacar a “nova luz”, e por aí vai…

Sabendo o que é a gestão Doria/Covas, jamais poderíamos considerar que a expressão “fé cidadã” se encaixaria nela. Muito pelo contrário, só o cinismo poderia tentar encontrar algum sentido de esperança na cidadania diante de flagrantes desrespeitos aos direitos humanos.

E o povo de São Paulo entendeu isso, tanto que não elegeu Carlos Bezerra Jr o autor do livro “Fé cidadã”, que durante a gestão era deputado estadual pelo partido da situação (PSDB). Nessas eleições de 2018, Bezerra Jr almejou o cargo de deputado federal, mas, como resposta às suas contradições existenciais, o povo de São Paulo deu pouco mais que metade dos votos que o elegeram em 2014. Só na cidade de São Paulo, Bezerra Jr perdeu cerca de 28 mil votos, uma multidão de pessoas que assistiram de perto o que era na prática a “fé cidadã” do PSDB. Os Paulistas da capital ainda rejeitaram o governo Dória e o candidato a senador Covas Neto (tio de Bruno Covas), deixando explícito o que acharam dessa gestão.

As pessoas mais esperançosas esperavam do pastor e escritor a famosa autocrítica (que tanto cobram dos políticos da esquerda) sobre as contradições entre teoria e prática partidária. Também esperavam o distanciamento dele em relação à nefasta gestão Dória/Covas, mas o tucanismo parece ter falado mais alto do que o “apreço” aos direitos humanos, e Bezerra Jr, rejeitado por São Paulo, aceitou se tornar secretário municipal de Esporte e Lazer.

A crítica aqui começa pela técnica, até porque um pastor e escritor, formado em medicina, não é o melhor técnico para Secretaria de Esporte e Lazer. Ele poderia se justificar como um promotor da saúde. Mas há ainda uma explicação mais realista, o nome de Carlos Bezerra será menos arranhado participando de uma secretaria pormenor, que raramente está relacionada aos nefastos desrespeitos aos direitos humanos praticados pela gestão.

Porém, ele não escapará tão fácil assim, de cara há uma questão diretamente ligada ao lazer e a promoção do bem-estar e saúde. Imagino que o ensejo espiritual da fé cidadã tenha como moral cobrar o preço justo sobre os aparelhos pagos que promovem a cidadania, não permitindo que eles sejam usados para exploração de lucro, já que isso é uma forma direta de retirar o direito ao usufruto da cidade. No caso de São Paulo, o prefeito Covas aumentou a tarifa do transporte público de R$4,00 para R$4,30. Uso aqui a expressão aumentou, porque se fosse um reajuste seguindo a inflação, a tarifa estaria em R$3,82, o que mostra o uso da tarifa para alçar lucros altíssimos. Transporte público esse que os cidadãos trabalhadores usam para o lazer, trabalho e acesso aos aparelhos de cultura e esporte na cidade.

Será que a fé cidadã de Carlos Bezerra Jr irá impulsionar e contagiar a gestão Covas, fazendo-a revogar o aumento da tarifa e dando melhores condições de acessos aos cidadãos, ou Bezerra Jr irá levar “um ou outro” projeto à periferia, que lhe renda boas fotos e afaste o pobre da região central, melhorando assim sua imagem do desgaste desumano da gestão PSDB e dando continuidade ao projeto higienista tucano. Eu apostaria na segunda opção.

Um pastor com esse nível de dissimulação não é bem uma novidade no Brasil, mas, por se considerar um defensor dos direitos humanos, Bezerra Jr alça um novo nível de dissimulador. Posso finalizar com uma ilustração bíblica do sentimento ao pastor, agora secretário de Covas:

Apocalipse capitulo 3 versículos 15 ao 19. (carta de laodicéia, mas para nós: carta ao Bezerra Jr e à gestão Covas)

“Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente!

Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.

Você diz: Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e que está nu.

Dou-lhe este aconselho: Compre de mim ouro refinado no fogo e você se tornará rico; compre roupas brancas e vista-se para cobrir a sua vergonhosa nudez; e compre colírio para ungir os seus olhos e poder enxergar.

Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se.”


Sobre o autor desse artigo

Heber Farias é estudante de psicologia, ativista político e membro da Igreja Batista da Água Branca (Ibab), em São Paulo.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s