Editorial | A visão distorcida de Jesus da pastora-ministra de Bolsonaro, Damares Alves


Contrária ao aborto, à descriminalização da maconha e crítica do movimento LGBTI+, a pastora e ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves seguirá uma agenda conservadora, alinhada ao presidente eleito de extrema-direita Jair Bolsonaro. 


Publicado em 14/12/2018.

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Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves. Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil. Via Fotos Públicas. 

Muitos debates sobre as falas da pastora-ministra de Bolsonaro, Damares Alves, aconteceram mas redes sociais nos últimos dias, desde que ela foi anunciada para compor o primeiro escalão do governo de extrema-direita eleito, no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Uma das falas dela porém motivou mais reações, embora seja a menos relacionada à sua pasta como ministra, o episódio da visão de Jesus na goiabeira. Entre piadas e admirações à experiência religiosa da ministra na sua infância, uns a acusavam de instrumentalização da fé, outros a defendiam, acusando as chacotas de crime de intolerância religiosa, que aqui pode ser punido com reclusão e multa. Outros, porém, levantaram uma outra questão, de cunho teológico, a qual abordará esse Editorial: Devemos questionar a experiência religiosa ou não, já que se trata de uma vivência pessoal, que só diria respeito ao próprio sujeito?

Em relação à experiência religiosa, devemos provar os espíritos sim, se realmente são do céu, segundo a própria Bíblia. O caso João de Deus é um exemplo disso, cujo histórico como curandeiro já passa de 300 denúncias de violência sexual, entre mulheres adultas, jovens e até crianças. Esse exercício bíblico da fé nos livraria de muitos charlatões por aí. Ainda mais quando se trata de supostas aparições de Jesus.

No caso da pastora-ministra de Bolsonaro, a advogada Damares Alves, mais ainda, já que ela é favorável a políticas que atentam contra direitos humanos, em especial da mulher e seus direitos reprodutivos. Em relação aos gays e aos estudos de gênero, ela também adota um alinhamento às falas preconceituosas do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Vejamos algumas falas dela.

Mulher, aborto e estupro

Para ela, gravidez consentida e estupro estão na mesma categoria: um problema de mulher:

“Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher.”

Ela já deixou claro que sequer colocará a questão da descriminalização do aborto em pauta:

“Essa pasta não vai lidar com o tema aborto, vai lidar com proteção de vida e não com morte.”

E a mais nefasta e cruel de suas intenções como ministra, que a mulher dê à luz filhos oriundos de estupro, com direito ao polêmico “bolsa-estupro”, uma ajuda de custo de um salário mínimo para mulheres que decidirem não abortar nesses casos, através da aprovação do Estatuto do Nascituro, um Projeto de Lei conservador que tramita no Congresso desde 2007. Se for identificado o estuprador, será ele o responsável por pagar a bolsa:

“Temos projetos interessantes no Congresso. O mais importante que vamos estar trabalhando é a questão do Estatuto do Nascituro. Vamos estabelecer políticas públicas para o bebê na barriga da mãe.”

“Eu sou contra o aborto. Eu acho que nenhuma mulher quer abortar, as mulheres chegam até o aborto porque possivelmente não foi lhe dada uma outra opção. A mulher aborta acreditando que está desengravindando (sic), mas não está.”

Em um de seus vários vídeos no Youtube, ela nega o número de mortes de mulheres por causa do aborto ilegal, feito em condições inóspitas:

“[Ex-ministros da Saúde] dizem que no Brasil milhões de mulheres morrem por causa do aborto. Cadê os milhões de túmulos? Quantas mulheres vocês, pastroes, já fizeram o culto fúnebre e enterraram porque morreram por causa do aborto? Mentira! Não existe milhões de mulheres morrendo por causa do aborto no Brasil. Eles manipulam dados e estatísticas para impor na sociedade brasileira uma cultura de morte”.

Segundo a tese por ela defendida, em outro vídeo, “há interesses escusos”, financeiros e manipulação dos dados pela feministas, por trás da descriminalização do aborto:

“Há fundações milionárias financiando a campanha pró-aborto no Brasil. Há interesses escusos.”

Cultura de submissão da mulher a tarefas do lar

Em entrevista para o Globo, ela defende a destinação da mulher a funções maternas, enquanto o homem seria o provedor, que trabalha:

“A mulher nasceu para ser mãe, porque a mulher nasceu com útero. Nesse planeta Terra, a fêmea nasce com útero para gerar. Então eu não menti. A mulher nasce para ser mãe. Se ela não quer ser mãe, é uma opção dela, mas a mulher nasceu, sim, para ser mãe.”

“É raça humana. O homem é protetor, provedor, cuidador. Mas a raça humana mudou. Então a gente briga com a natureza.”

“Eu gostaria de ter um mundo em que a mulher só trabalhasse se quisesse. Meu sonho é estar numa rede, numa tarde e meu marido trabalhando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de jóias.”

“Ideologia” de gênero e erotização de crianças nas escolas

No mesmo vídeo em que nega as muitas mortes de mulheres por causa do aborto, ela critica uma suposta erotização das crianças nas escolas:

“Atuo contra a erotização de crianças e adolescentes e, consequentemente, estou há anos na estrada no combate à ideologia de gênero, pois a erotização de crianças é um dos pilares desta terrível ideologia.”

“Ditadura” gay

Em entrevista ao jornal O Globo, a ministra se mostrou aberta a ajudar no ingresso dos homossexuais no mercado de trabalho, além de reconhecer o casamento homoafetivo como um direito adquirido consolidado. Mas em um de seus vídeos ela faz duras críticas ao movimento LGBTI+ e diz que vivemos uma “ditadura” gay:

“Falam que os religiosos são homofóbicos, mas não tem um crente, um evangélico na cadeia preso porque matou um homossexual. Quem há anos está nas ruas acolhendo os homossexuais dessa nação são os evangélicos. O movimento gay é um movimento partidário, ideológico e político e eles estão dispostos a enfrentar todas as outras instituições que são contrárias ao que eles pensam. Eles agora declararam uma guerra contra a igreja evangélica. Eles jogam sujo contra a igreja, contra a vida, conta a família, contra a sociedade. Estamos vivendo uma ditadura gay.”

Estado religioso

Em outro vídeo, Damares defende a participação eclesial da igreja no governo e na direção do Estado:

“Chegou a nossa hora. É o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”.

Segundo a revista Exame, Damares foi assessora parlamentar do senador Magno Malta. É fundadora do Movimento ATINI – Voz pela Vida de proteção e defesa da criança indígena. Também é secretária geral do Movimento Nacional Brasil Sem Aborto, conselheira do Movimento Nacional Brasil Sem Drogas e coordenadora do projeto Adota Brasil e conselheira do Instituto Flores de Aço de combate à violência contra a mulher e de cuidado com a infância.

Recentemente, Damares disse que sofreu abuso sexual sistemático de pastores, dos 6 aos 8 anos, e que a visão de Jesus no pé de goiaba a impediu de se suicidar, ingerindo veneno, quando tinha apenas 10 anos de idade. Em entrevista ela falou mais sobre a visão:

“As crianças têm amigos imaginários. Hoje, os pais compram unicórnios para as crianças, que não existem. Eu, aos 10 anos de idade, quando quis me suicidar, eu tive o meu amigo imaginário. Eu estava em cima de um pé de goiaba, ia tomar veneno, ia morrer, era muita dor na alma por todos os abusos que passei. E, quando eu estava em cima do pé de goiaba, eu não vi um unicórnio, eu não vi um amigo imaginário. Eu vi o que eu acreditava: Jesus.”

Até aí tudo bem, não nos cabe julgar uma visão, ilusão, miragem, de uma criança. Mas há apoio da Damares adulta a um governante que admira a tortura e elogia militares que cometeram as piores atrocidades. Alguém que realmente houvesse vivido uma experiência dessa magnitude, a ponto de ver Jesus, apoiaria tal homem?

Em relação às mulheres, geralmente, quando passamos por um trauma, tendemos a ser mais compreensivos, misericordiosos e humanitários com a situação de quem passa ou passou por problemas semelhantes, mas a religiosidade fundamentalista tem esse poder de distorcer tudo e inverter até as razões mais lógicas. Agora era a hora de ela ver Jesus nessas mulheres que morrem em lugares inóspitos para abortar né? Mas parece que a experiência dela com uma visão tão especial e rara do Cristo misericordioso ficou lá na infância mesmo.

Enquanto Damares polemiza, com falas religiosas e de conteúdo moralista, contra a descriminalização da maconha, por exemplo, questões realmente importantes de direitos humanos vão sendo ofuscadas. Um exemplo disso é o encarceramento em massa.

Fica a pergunta: por que o mesmo Jesus que apareceu a Damares quando criança, salvando sua vida, agora se esconde dela, mesmo diante de tantas vidas ceifadas violentamente, seja pelo aborto ilegal, seja pela política de encarceramento em massa, seja pela homofobia?

Não resta dúvida de que a visão atual de Jesus de Damares está distorcida pela religiosidade fundamentalista, ofuscada pela teologia da opressão, não dá libertação.

O conselho do apóstolo João, para examinar os espíritos, está na primeira das três cartas bíblicas atribuídas a ele:

“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus. E todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo, por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.”

(1 João 4.1-6)

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