Editorial | Ainda não caiu a ficha que a social-democracia acabou?


Governo Bolsonaro põe fim à social-democracia e inaugura a era do neoliberalismo.


Publicado em 15/11/2018.

sede
Brasília- DF. 06-11-2018- Sessão solene em comemoração aos 30 anos da constituição com a presença do presidente eleito Jair Bolsonaro. Foto Lula Marques, via Fotos Públicas.

A lógica que o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) aplicou ao caso dos médicos cubanos é a neoliberal, na sua forma mais cruel e desumana, com toques de intolerância e autoritarismo: reduziu tudo à relação crua e simplista trabalho-dinheiro, na qual questões humanitárias e de empatia não entram no cálculo, ou são secundárias e de pouca importância.

O problema não eram os médicos cubanos, que Bolsonaro fez de tudo para demonizar, lançando dúvida até na sua formação profissional, mesmo depois de anos do Programa Mais Médicos e de milhares de vidas salvas por eles. Mesmo diante do atendimento humanizado, que levou muitos brasileiros a os preferirem, em relação aos médicos elitizados da classe média, que se negam a ir trabalhar nos extremos da pobreza e muitas vezes sequer olham na cara do paciente. O problema é a política social em si e a ideologia. Uma idiotice ideológica de extrema-direita, misturada com xenofobia e aversão a ideias socialistas, expulsou 11 mil médicos cubanos do Brasil.

O presidente de extrema-direita tentou impor condições que são na verdade intromissões na política interna de outro país, como se algum presidente fosse se curvar a um cara só porque ele quer. O governo cubano reagiu, anunciando o fim da parceria, devido à declarações “ameaçadoras e depreciativas” do presidente Jair Bolsonaro; e exigiu o óbvio aos seus médicos e cidadãos: respeito. Como não foram obedecidos seus devaneios de mudar o país que não é o dele, Bolsonaro postou um tuíte dizendo que não deu certo e pronto. Simples assim. Temos um menino mimado fazendo política externa e se explicando em duas linhas permitidas pelo Twitter?

As regiões mais afetadas serão as ais carentes de políticas sociais, o Norte e o Nordeste, além das periferias. No município de Chã Preta (a 101 km de Maceió), três dos quatro médicos do Programa de Saúde da Família são cubanos. Ou seja, com a saída deles, a cidade contará com apenas um médico, segundo a secretária municipal de Saúde, Rosilene Pedrosa. É o pobre, que nunca teve direito a um atendimento médico decente, quem sofrerá imediatamente. A classe média e os ricos continuarão na mesma, com seus planos de saúde caros e sem médicos cubanos. Para eles, tanto faz, tanto fez. Se vai morrer algum inocente que vota sem saber discernir o que é liberalismo e socialismo na fila de espera por uma consulta, e daí? Eles têm o Albert Einstein e o Sírio Libanês.

A ajuda humanitária dos médicos cubanos nasceu da empatia, da sensibilidade diante do sofrimento do próximo, seja ele quem for, norte-americano ou brasileiro. Os profissionais atuam em mais de 60 países, da América Latina à África. O Programa Mais Médicos tem 18.240 profissionais, dos quais 11 mil são cubanos, que atuam em 4.058 municípios, 73% das cidades brasileiras.

A expulsão ideológica dos médicos cubanos já abriu a primeira crise social do governo neoliberal de Bolsonaro, que ainda nem começou. Ainda teremos o problema da moradia, que já declina com cortes do Minha Casa Minha Vida, da demarcação de terras indígenas, a qual Bolsonaro abomina, da reforma agrária, cuja luta legítima do MST já foi ameaçada de ser tratada como terrorismo pelo Bolsonaro Júnior, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), da reforma da previdência, sobre a qual o presidente já deu seu parecer neoliberal simplista e simplório: ou trabalho ou direitos.

Enfim, a social-democracia acabou, depois de anos de governo do Partido dos Trabalhadores, iniciado com Lula. Ou, como gostam de dizer os extremistas que seguem Bolsonaro: “a mamata acabou”. Agora é neoliberalismo, meritocracia, cada um por si, individualismo, compra e vende, toma lá da cá. É a era do deus-mercado, com sua mão invisível para os mais pobres, e cega para as diferenças sociais gritantes. O que antes era política social, agora é “voucher”, segundo Paulo Posto Ipiranga Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro. Para os mais leigos entenderem: esmola.

Acompanhe nossos Editoriais!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s