‘Sobrevivendo no Inferno’, o evangelho marginal do Racionais Mc’s


Vinte anos depois, o disco Sobrevivendo no Inferno, do Racionais Mc’s, segue vivo e atual, pela abordagem profunda de problemas sociais óbvios, mas ignorados pela sociedade e pelas autoridades do país, como a pobreza e o extermínio de negros pobres.


Publicado em 12/11/2018.

Da esquerda para a direita: Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Ed Rocky. Reprodução.

Segundo Mano Brown, principal voz e compositor do grupo de quatro pessoas, Ice Blue, Ed Rocky e o DJ KL Jay, “o Racionais é a voz dos que nunca tiveram voz”. Criado no final dos anos 80, em 1988, o grupo de rap Racionais Mc’s ficou conhecido por suas letras com críticas pesadas ao racismo e às desigualdades sociais, além de abordar temas variados, como poluição do meio ambiente e violência policial nas periferias. Uma de suas obras mais famosas, sombrias e realistas, o CD Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997, há 20 anos, é algo entre o religioso e o profano, uma representação da periferia da época e atual: de um lado o bar, do outro, a igreja evangélica. Repleto de simbologia religiosa, o álbum acabou criando um personagem radical religioso, que perseguiu o grupo por anos e formou a mentalidade extremista de muitos pessoas nas periferias de São Paulo, terra natal dos membros do grupo, e do Brasil todo, ao ir a fundo nos seus medos e revoltas mais obscuros, até então adormecidos e ignorados pela sociedade.

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Capa do CD Sobrevivendo no Inferno. Reprodução.

Da capa – com um fundo negro, uma cruz dourada e uma citação bíblica do salmo 23 – à contracapa, passando pelas letras das músicas, vestes de padre dos membros e pela icônica imagem de São Jorge matando o dragão , o disco é todo permeado por uma áurea religiosa cristã, que nos remete constantemente à ideia de manter a santidade extremista em meio a um caos social periférico, simbolizado por um homem armado e uma mesa com com drogas, em algumas fotos do encarte. Quase tudo parece querer nos lembrar de um mundo maniqueísta e antagônico, onde o Diabo é o tentador, com dinheiro, mulheres, armas, status e fama, e Deus é o salvador, que não deixa um fiel “desandar”, mesmo vivendo em mundo de profundas injustiças sociais, provocado pelos ricos.

“Irmão, o demônio fode tudo ao seu redor
Pelo rádio, jornal, revista e outdoor
Te oferece dinheiro, conversa com calma
Contamina seu caráter, rouba sua alma
Depois te joga na merda sozinho
Transforma um preto tipo A num neguinho
Minha palavra alivia sua dor
Ilumina minha alma
Louvado seja o meu senhor
Que não deixa o mano aqui desandar ah!”

(Trecho da música Capítulo 4, versículo 3)

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Parte de trás do CD Sobrevivendo no Inferno. Reprodução.

Logo nas primeiras faixas, temos uma imersão no mundo espiritual cristão. A introdução do disco chama-se Jorge da Capadócia, uma referência a São Jorge, famoso santo católico; a segunda faixa é Gênesis, alusão ao primeiro livro da Bíblia; a terceira é Capítulo 4, versículo 3, lembrando uma citação bíblica. Algumas das demais faixas, pelo contrário, lembram o submundo do crime e das drogas, como Tô ouvindo alguém a me chamar, que conta a história de assaltante, e Diário de um detento, que narra o cotidiano no famoso presídio Carandiru, demolido há alguns anos.

Quando questionado sobre o que foi o disco para eles, em entrevista de 2017 ao Red Bull Music Academy, em 2017, Mano Brown falou dessa idolatria religiosa ao grupo à época do CD, e de como eles enfrentaram isso, chegando ao extremo de parar os trabalhos e suspender a agenda do grupo por dois anos (Veja no vídeo abaixo, a partir do instante 59min44seg):

“Foi o nome do disco: um inferno! Pra quem já foi espiritualista alguma vez na vida, sabe disso, muitas pessoas repetindo a mesma palavra, alguma coisa materializa. Eu vi isso na caminhada, esse disco era muito pesado. Naquele momento criaram um personagem, fugiu do meu controle. Aquela foto [capa], uma ‘bíblia’. Viver aquilo é muito diferente de cantar aquilo, e a gente começou a viver aquilo. Aquelas coisas ‘começou’ vir pra cima.

Era um clima hostil, essas músicas provocam alguma coisa diferente no ambiente, no contexto, morô? As coisas mudam, o Racionais faz isso. É bala perdida que vem de vários lados. Esse disco chamou muita bala perdida. O que pra sociedade, sei lá, a classe artística, analisou como um disco de protesto, pra nós era cortar na própria carne. Aquilo vinha em nós. Começou a morrer gente, amigo, gente nas portas das festas pra caralho, gente com camisa do Racionais, tiroteio dentro das festas. [Homem na estrada] não era a mesma coisa, não mexia com Deus e o Diabo. Amém! e pá! Misturou tudo, periferia era aquilo, igreja crente de um lado e um bar do outro. Aquilo era o disco.

Entre o Sobrevivendo no Inferno e o [novo CD] Nada como um dia [após o outro dia], o Racionais saiu de cena durante dois anos. Foi uma coisa conversada entre nós. A gente se fodeu por isso, ‘ficamo duro’, treze meses sem pagar condomínio. Foi uma opção, pra gente reaprender a fazer rap. Teve um dia que eu falei pros caras ‘mano, ‘tá’ rudo errado, para! ‘Tô’ vendo um cara com uma ‘bíblia’ desse tamanho alí, parece que vai matar ‘nóis’. ‘Tá vindo uns ‘psicão’ pra cima de ‘nóis’ aí, uns caras com roupa de padre, mano. Sobrevivendo no Inferno, quem foi fazer aquela cruz na capa? Falei ‘mano, a gente ‘tá’ deixando o povo é doido com essas ideias aí, parceiro. E nós não somos assim. Pegava mal dar risada. Viramos um personagem.

Foram dois anos pra limpar. A gente saiu de uma capa preta, com uma cruz, pra um disco azul clarinho. Menos religioso um pouco, mais realista.”

Na mesma entrevista, Mano Brown não se define como gênio por causa dessa obra, mas como alguém que mostrou e denunciou o óbvio, tanto a pobres, quanto e ricos e classe média, que muitas vezes se cegam para os problemas sociais do país:

“Brasil tem épocas de cegueira. Brasileiro se autoaliena de tempos em tempos, ele fica cego, surdo e mudo, né? Essa fase ‘tava’ cego, surdo e mudo. Tinha coisa muito óbvia que ninguém via. Mas a periferia via, vivia. Mas também não via. Tava dentro do jogo, mas não sabia o que envolvia eles. Fomos muito inspirados pelo Malcom X, na maneira de escrever. Eles não viram [os problemas sociais] porque estavam cegos, ‘tava’ na cara deles. Eles não encontravam com os ‘moleque’ no farol? Eles não tinha visto assalto, favela multiplicando na cidade, não acompanham o noticiário? Ele não vê o cara que ‘tá’ na casa dele, tirando a sujeira? Como é que você ignora a pessoa que ‘tá’ na sala da sua casa, cheia de problema, triste? Você não percebe? Vocês ‘tão’ onde? Na França?

Aí, quando o Racionais vem falando o óbvio, a sociedade: ‘Nossa, os cara é foda!’ Foda o que? O sistema é analfabeto, parceiro. Eu falei o óbvio. Puta país racista do caralho, só patifaria. Por que eles não vêem?

‘Ah, os cara é gênio!’ Gênio o que, malandro? Eu saí do primeiro colegial, porque eu não aprendia. Simplesmente, aquilo foi me injuriando, peguei raiva, do professor, dos alunos, da escola. Eu não aprendia, porque eu não comia bem.”

Apesar da tipologia religiosa pesada, Sobrevivendo no Inferno é uma viagem pelo Brasil periférico, principalmente em São Paulo, ou seja, vale a pena sua leitura, para uma melhor compreensão desse mundo marginal e suas contradições sociais. Agressivo à primeira vista, suas letras são denúncias do capitalismo selvagem, da repressão e da matança de negros nas periferias, principalmente jovens.

A obra também ganhou destaque em um documentário da MTV no Brasil:

Terceiro CD da discografia do Racionais, a importância desse clássico do rap nacional vai além de seu sucesso, com mais de um milhão de cópias vendidas e prêmios da MTV à época, tanto é que foi selecionada pela Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), para compor a prova seletiva de uma das maiores Universidades do país, em 2020, ao lado de obras de escritores clássicos, como Luís de Camões, José Saramago, Nelson Rodrigues, Machado de Assis e Guimarães Rosa. Recentemente, o disco foi transformado em um livro homônimo.

Segue link para escutar o CD inteiro no YouTube.

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