Populismo, política, medo e cristianismo


Parece evidente que o evangelicalismo escolheu o medo como motor de mudança social.


Por Carlos Osma. Publicado em 11/11/2018.

Texto original publicado no site:

https://homoprotestantes.blogspot.com

Tradução livre: Ativismo Protestante

Pastores oram pelo candidato Jair Bolsonaro, na Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro. Reprodução.

O conceito de políticos cristãos me dá arrepios e jamais me ocorreria votar em um partido político que pretendesse moldar a Constituição e a democracia à sua particular leitura da Bíblia. Sei que em outros lugares se vive de maneira diferente, mas na Europa temos certa alergia a este tipo de proposta, já que a experiência histórica não tem sido boa. Por outro lado, como a maioria das políticas cristãs estão baseadas em reafirmar os direitos dos homens heterossexuais brancos, ricos e conservadores, um homem gay como eu vive-as como uma ameaça. E finalmente opino que, se a estratégia mais evangélica de transmitir as boas novas de Jesus passasse por ter o poder político suficiente para as poder impor, o próprio Deus faria Jesus nascer na casa do Imperador César Augusto.

Parece que o movimento evangélico não pensa da mesma forma, e já é oficial que a sua estratégia passa por chegar aos Parlamentos dos respectivos países, não para exigir respeito pelas suas convicções religiosas, mas para impor ao resto da sociedade a sua visão machista, heteronormativa e contra os direitos reprodutivos das mulheres. Estes são só alguns exemplos, embora eu não pudesse acrescentar muitos mais, porque o roteiro das políticas evangélicas têm a ver com o dizer às pessoas o que podem (ou, sobretudo, não podem) fazer com a sua vida, limitando a liberdade individual. O seu outro campo de batalha é a educação. Na verdade, prefeririam que os seus filhos aprendessem geografia, história, sexualidade ou biologia na igreja e que a Bíblia fosse o único livro de texto. Mas como (ainda) não podem impor a todo o mundo a obrigatoriedade de frequentar a igreja, tentam erradicar dos centros educativos tudo aquilo que tenha que diz respeito a potencializar a capacidade crítica, o respeito pela diversidade, a possibilidade de falar de qualquer coisa. Fazem-no para salvar os seus filhos e filhas, ou apenas dizem isso, porque é evidente que se trata de covardia, de medo de que as suas filhas tenham a oportunidade de escolher um mundo que não é o seu. Dito de outra forma, querem impedir-lhes a escolha livre do Evangelho, e, sem livre escolha, podemos estar a falando de “verdade” (essa que conhecem por saber ler literalmente), mas não de Evangelho.

O que é mais incompreensível, ou de acordo como se olhe, o que mostra a essência do evangelicalismo, são os companheiros de viagem que escolheram para alcançar o antes possível os seus fins. Nos Estados Unidos, por exemplo, aliou-se com Donald Trump, de que todos conhecem os seus affaires com prostitutas a troco de dinheiro, que chamou de animais pessoas imigrantes indocumentadas, ou que fez tuítes com insultos racistas a várias pessoas afro-americanas, dizendo que têm um baixo coeficiente intelectual. No Brasil, levou à presidência Jair Bolsonaro, que se posicionou a favor do livre comércio de armas, da tortura, que reconhece ter falhado com o seu quarto filho, porque veio uma mulher, e que disse que as pessoas que vivem nos quilombos (comunidades de afrodescendentes) “não servem nem para procriar”. E poderíamos continuar com as bancadas evangélicas em outros países da América, mas para não me alargar, acabarei com um toque humorístico (se não fosse pelo tom patético que acarreta) e fixar-me-ei na (graças a Deus) irrelevante comunidade evangélica espanhola que, no seu meio de comunicação por excelência, Protestante Digital, dá cobertura, mediante uma entrevista, a um partido populista de ultradireita, anti-imigração e anti islão como VOX.

Parece evidente que o evangelicalismo escolheu o medo como motor de mudança social. Falava com uma amiga que vive em São Paulo e que me comentava que havia sido o medo pela insegurança cidadã que se vive em muitas cidades do Brasil o que levou Bolsonaro à presidência. Também foi o medo às minorias o que levou a América branca a votar em Donald Trump. Medo a ficar sem trabalho, a que fique com ele um estrangeiro. Medo da minoria evangélica espanhola ser repudiada, ignorada até à saciedade pelos poderes políticos. Medo de que os valores tradicionais não sejam os hegemônicos. Medo de que as suas filhas se convertam em feministas lésbicas, porque o incutem no colégio. Medo de que um cristão não possa verbalizar livremente as suas posições machistas ou transfóbicas. Medo de que o ocidente perca a sua identidade cristã. Medo, medo e mais medo. Os evangélicos sentem-se atacados e têm medo. Por isso se revoltaram e decidiram defender-se com unhas e dentes.

Não partilho a ideia dos que consideram que o cristianismo deve ser apolítico. Sei que é possível viver a fé cristã como uma evasão, como esperança num além que não tem conexão real com o mundo, nem capacidade de o transformar. Mas não tenho muito claro que estas visões cristãs da evasão se possam suster com o evangelho. O cristianismo é político porque fala de uma implicação na vida real das pessoas, para as dignificar, e também da natureza, para a proteger. Mas nego-me a acreditar que seja o medo quem deva fundamentar as suas políticas. Como qualquer outra dimensão, deve estar relacionada com o acontecimento da cruz e a ressurreição de Jesus. E ali revela-se um Deus que sofre pela injustiça, um Deus que não é abstração, mas que se deixa vislumbrar num ser humano marginal e incômodo, que tentou dignificar e libertar outros seres humanos, mas que foi crucificado por um poder que se sentiu ameaçado por ele. Frente a esta injustiça, a cruz não apela ao ressentimento, a levantar muros para se proteger; nem à imposição política da fé cristã, mas à esperança. Não para nossa esperança, mas para a esperança de Deus. Porque o Espírito de Deus, que ressuscitou Jesus, abre-nos ao futuro e à vida, a levantar das tumbas os que são injustamente tratados, à solidariedade, à paz e ao respeito por toda a criação. Talvez estes princípios nos possam levar a nos aproximarmos de diferentes posicionamentos políticos, mas são incompatíveis com aqueles outros que não respeitam os direitos de todos os seres humanos e são insensíveis à diversidade na criação divina.

As políticas que nascem do Evangelho são políticas fundamentadas na esperança, e só elas podem dar respostas à complexidade das nossas sociedades. São políticas afastadas sempre dos populismos, porque são incômodas, porque a todas e todos nos fazem perder um espaço de privilégio para compartilhá-lo com outros seres humanos. Não vivem das sondagens, nem do ressentimento, nem do poder de convicção dos meios de comunicação. Nem do medo, nem da esperança em construir um mundo que funcione sob os princípios morais que os evangélicos consideram cristãos. Vivem da esperança concreta em cada ação de libertação e dignificação nos nossos próximos, e em quem consideramos que não o são.

Toca-nos agora levantarmo-nos contra os populismos evangélicos para os desmascarar como populismos do medo, não do Evangelho. Alegra-me saber que há movimentos cristãos em todo o mundo que se atrevem a denunciar as políticas evangélicas que se uniram à extrema-direita, como políticas que atentam contra a dignidade dos seres humanos, contra o Evangelho. Vivemos tempos de convulsão, onde muitas pessoas querem acreditar nas receitas simplistas dos populistas e onde os evangélicos não vêem outra saída para as suas propostas inoportunas senão aliar-se com líderes políticos ultraconservadores. Em vez de ir para o precipício, para a autodestruição, devemos convidá-los para que ponham, de novo, o seu olhar na cruz para reorientar as suas posições. Há muita dor e falta de sentido na cruz, mas ali revela-se-nos de forma clara qual é a única maneira de transformar o nosso mundo: com esperança incorporada, encarnada, naqueles que não contam, para conseguir um mundo de iguais na diversidade, que respeite toda a criação.


Sobre o autor desse artigo

Sou de Barcelona, Espanha. Eu me apresento como um homem protestante cristão gay. Eu me formei em Matemática há um bom tempo e trabalhei como professor de escola secundária por mais de quinze anos. Amo meu trabalho, gosto de ensinar Matemática, ajudar a criar cérebros organizados e inteligentes. Eu gosto de fazer a minha parte para que outras pessoas possam treinar e ter uma vida melhor. Mas também gosto de Teologia e Filosofia. É por isso que fiz a faculdade de Ciências Religiosas e a pós-graduação em Diálogo Inter-religioso. Embora eu tenha que dizer que sou autodidata, e que leio tudo o que posso (estou aberto a recomendações).

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