Opinião | Minimalismo aplicado à vida cristã


“Minimalismo não é só doar as roupas que emboloram sem uso ou jogar fora coisas há anos acumuladas. Além de comportamental, o mais importante é que a mudança seja mental.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 04/11/2018.

Praia Grande. Foto: Ativismo Protestante.

Enraizada nas igrejas neopentecostais, com forte influência nas pentecostais e nos cristãos mais alienados das demais denominações evangélicas, a teologia da prosperidade não deixará de existir tão cedo, pois trabalha com o estímulo da ambição humana, um vício moral corruptível e facilmente manipulável. Face à essa realidade, somada à ética protestante de transformação da riqueza obtida pelo trabalho (sagrado) em capital (posse dos meios, instrumentos e condições de produção, como edifícios, máquinas e mão de obra), parece ser inútil lutar contra os aguilhões dessa teologia, que prendem o corpo e a alma dos fiéis à lógica de mercado, baseada na oferta e na demanda, ou seja, no consumismo e no acúmulo de bens materiais. Tal ideologia também serve ao Estado capitalista, cujo crescimento depende diretamente do consumo. Resta aos que escaparam ou desejam escapar desse modelo econômico religioso predatório buscar alternativas de modo de vida mais sustentáveis, mais humanitárias e mais de acordo com a realidade vivida e demonstrada por Jesus e seus discípulos nas Esciruras. O minimalismo é uma delas.

Minimalismo versus acúmulo

Enquanto a teologia da prosperidade prega capitalismo selvagem, consumo e acúmulo de riqueza e capital, o minimalismo é exemplo de desapego. Passei a me interessar por essa ideologia e me tornei um minimalista há uns três anos, pois vi nela algo de nobre, só pelo fato de ir de encontro (ser contra) à lógica de consumo. Prega o desapego, ter o mínimo possível, e só por utilidade.

Não precisamos ter uma casa cheia de móveis ou de vasos de plantas, embora isso não seja um dos males mais absurdos do acúmulo de bens materiais. Também não precisamos seguir a moda da estação, o que nos leva a entupir o guarda-roupa com coisas que sequer vamos conseguir usar, e a comprar roupas praticamente toda semana. Para que dez pares de sapatos guardados, quando só precisamos de um par nos pés?

Também não precisamos ter carro ou trocar de carro a cada lançamento. Apesar de não ser errado, o que importa aqui é a que custo teremos que obter esse bem material? Ao custo da perda do sono tranquilo, do endividamento com o banco? Da gaveta cheia de boletos? O transporte público parece ser bem mais vantajoso nesse caso.

Minimalismo é cristão

Ao abordar a ajuda financeira ao necessitado,  o próprio Jesus Cristo aconselhou:

“Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;

Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.

Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”

(Mateus 6:19-21)

O que realmente importa

Minimalismo é mais liberdade, a partir de uma vida mais fácil, com menos peso para carregar.

Ele nos ajudar a reconhecer o que realmente importa em nossa breve vida, o que é de fato prioridade, tanto no dia-a-dia, quanto nos planejamentos. Quando tiramos os excessos, o essencial se apresenta por si só. Se não preciso gastar tanto dinheiro comprando móveis novos ou roupas, posso gastar com meus amigos em um restaurante, sair com meus irmãos com mais frequência, investir em mim mesmo, pagando uma academia, aulas de dança, natação, música, ou um branqueamento dos dentes. Até transar mais. São tantas coisas boas para fazer.

Se não precisar limpar o pó de dezenas de móveis amanhã, nem regar e podar um monte de plantinhas, que estariam bem melhor e seriam muito mais úteis na natureza, para contemplação de todos, terei muito mais tempo para descansar, ler um livro, assistir a um filme, colocar uma série em dia, ou me dedicar aos entes queridos.

A casa ficará bem mais arejada e parecerá mais espaçosa.

Talvez sobre até para a caridade, socorrer o órgão e a viúva nas suas necessidades, mandamentos cristãos relegados ao segundo segundo plano atualmente.

Conceito de uniforme

Outra coisa boa dessa filosofia, uma mudança de olhar sobre o meu próximo. Antes eu olhava torto para uma pessoa que vestisse a mesma roupa constantemente. Quem nunca reparou isso na igreja? Isso é cultural, começamos na escola, menosprezando o amiguinho mais pobres. No minimalismo isso tem um nome, é um conceito, um princípio: chama-se “uniforme”.

A idéia é simples, você tem dezenas de roupas no armário, mas sempre repete umas duas ou três, simplesmente porque você se sente bem naquele estilo, encaixa perfeitamente no seu corpo. Você sai e sente que está bem, não com o mundo, ou com com a opinião alheia, ou com os julgamentos, ou com os preconceitos, mas com você mesmo.

O tempo das coisas medido a partir do minimalismo

Já faz dois anos que comprei meu último tênis. Foram apenas dois nos últimos três anos. Hoje ainda tenho seis pares de calçados, fora os que ja doei. Como a gente não precisa né?

Interessante, desde que adotei o minimalismo como estilo de vida, percebi que as coisas duram até cinco vezes mais quando não temos a ganância de possuir nem a ansiedade de comprar outra.

A natureza agradece.

Ajude o próximo

Você pode ajudar pessoas que também estão presas à lógica de acúmulo e consumo, com o minimalismo. Não será fácil.

Apliquei a ideia à casa da minha mãe. Foram uns dois dias jogando coisas fora. Ela chorava e segurava cada tranqueira que havia acumulado durante toda sua vida. Eu fui duro com ela, pois sabia que seria bom, até por causa da sua idade avançada, que já a limita para os afazeres domésticos.

Resultado: a casa ficou arejada, com um estilo bem moderno, embora simples. Pedi a ela e a meu pai que confiassem na minha reforma. Meu pai apoiou desde o inicio, pois nunca gostou de limpar a casa rsrs. Depois do resultado, minha mãe amou tudo e me agradeceu. Ficou muito feliz, e assim continua.

Minimalismo não é isso

Minimalismo não é só doar as roupas que emboloram sem uso ou jogar fora coisas há anos acumuladas. Além de comportamental, o mais importante é que a mudança seja mental. Deve ser algo movido pela razão e pela consciência de que não precisamos seguir a lógica de mercado, da teologia da prosperidade, do consumo e do acúmulo de bens.

Lembre-se de que Jesus entrou triunfante em Jerusalém montado em um jumento. Uma negação da vida luxuosa dos poderosos de sua época, com seus carros e cavalos. Nasceu em uma manjedoura, mostrando desapego por castelos e edifícios pomposos, embora fosse rei. Assim foi com seus discípulos também, que passaram necessidades, fome, sede e falta de um abrigo, mesmo sendo escolhidos e amparados pelo dono do mundo.

Fica o apelo

Por uma vida mais simples e humana, mais cristã, com mais liberdade de corpo, alma e espírito, vista seu uniforme com orgulho, saia da lógica de consumo, da obsessão pela posse, do ter por futilidade, e lance um novo olhar si mesmo e sobre o seu semelhante. Conheça o minimalismo. Seja um minimalista.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s