Opinião | Preciso falar de suicídio hoje


“Apesar da depressão matar em silêncio, suas vítimas gritam.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 02/11/2018.

Osmar Carvalho. Foto própria.

Apesar de tudo, do feriado, das fotinhas na praia, dos posts políticos, hoje é dia dos finados para quem já sepultou um ente querido.

Hoje faz uns anos já que perdi meu irmão mais velho e grande amigo para o suicídio. Eu era adolescente à época, em um tempo em que não se falava dessa doença, que mata em silêncio.

Não havia outubro amarelo, o termo sequer era comentado, tampouco era associado à depressão e doença. Se era, ninguém ao redor dele sabia. Ninguém o ajudou, pelo contrário, todos o culparam de alguma forma.

Os cristãos mais incautos o conduziram ao inferno. Hoje sei que a salvação é instantânea. Pode acontecer a qualquer momento. Ninguém sabe quem foi ou vai ao céu ou ao inferno. Ainda bem que não. Deus é sábio. Mais importante ainda, o suicídio pode até ser categorizado como pecado, mas não é pecado sem perdão. Qualquer um de nós está sujeito a esse pecado, assim como aos demais. O único pecado sem perdão é a blasfêmia contra o Espírito Santo, segundo o próprio Jesus Cristo:

“Por esse motivo eu digo a vocês: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada.

Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem nesta era nem na que há de vir.”

(Mateus 12:31-32)

Tive um olhar crítico à época, procurei culpados e me culpei também. Por que eu não pude fazer nada, estando tão perto? Ninguém nunca me explicou nada, nem em casa, nem na igreja, nem na escola.

Era meu irmão mais cabeça. Inteligente, profissional requisitado, autodidata. Pai de duas filhas e um filho. Jovem, bonito (bem mais que eu), alto, forte, cabelo encaracolado e grande, ombros largos, olhar profundo, sorriso largo e bem desenhado. Chamava a atenção das mulheres. Articulava bem as palavras, tinha sensibilidade, nunca gritava, era educado moralmente também. Elogiava qualidades. Ouvia Raul Seixas.

Até um tempo atrás me perguntava, como alguém com tantas qualidades poderia tomar uma atitude tão extrema contra si próprio?

Apesar da doença matar em silêncio, suas vítimas gritam. Ele gritou muito, mas ninguém ouviu. Chorou, sorriu e se automutilou. Dores não físicas parecem gerar repulsa nas pessoas. As leituras são as piores possíveis, de fraqueza espiritual e moral à frescura.

Hoje sei que a depressão não respeita nada nem ninguém. Pode ser qualquer um, a qualquer momento. Alguns depois, eu perderia meu melhor amigo para o suicídio também. Nas mesmas circunstâncias, parecia um replay.


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

Acompanhe nossa Coluna Opinião!

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s