Editorial | Pontos positivos da derrota da esquerda: o fim do “antipetismo”


Fim do “antipetismo”, hegemonia no Nordeste e novas lideranças nacionais: o lado bom da derrota da esquerda.


Publicado em 29/10/2018.

Haddad participa de ato de campanha. Foto: Ricardo Stuckert.

Falar de esquerda no Brasil ainda é falar de Partido dos Trabalhadores (PT). A vitória de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa para presidência da República, anunciada ontem (28), colocou fim à sequência do governo petista, após quatro mandatos seguidos, desde 2002, com duas eleições de Lula e duas de Dilma Rousseff. Acostumados a vencer, óbvio que eleitores de esquerda sofreram muito com a derrota, assim como eleitores que não são de esquerda, mas não votaram em Bolsonaro, sofreram com uma mudança radical de governo. Todavia, mesmo diante de grandes abalos, como esse, podemos olhar por um ângulo positivo e observar coisas que podem nos ajudar a superar o trauma e até a recuperar o otimismo mais rápido, saindo do luto. Seguem algumas coisas boas dessa derrota que podem beneficiar o PT, a esquerda e a democracia nas próximas eleições.

A falácia do “antipetismo” caiu por terra

Com 47.038.963 votos (44,87% dos votos válidos), Fernando Haddad (PT) derrubou a falácia do “antipetismo”, argumento que foi intensamente usado nessas eleições para tentar denegrir ou desqualificar sua candidatura. Não dá mais para atribuir a um candidato petista a certeza da derrota com base nesse mito, pois é uma parcela significativa de eleitores, quase a metade. Além disso, Haddad venceu com larga vantagem em todo o Nordeste, região fundamental e determinante para um pleito nacional. Um ponto negativo é que esta foi a quantidade mais baixa de votos do PT para presidente, nos últimos 20 anos.

Lula ainda segue como o presidente mais votado da história democrática do Brasil, reeleito com 58.295.042 (60,83%) votos válidos em 2006. Bolsonaro, 38º presidente eleito, teve 57.796.986 votos (55,13% dos votos válidos), o segundo mais votado da história.

O PT conservou grande parte de sua hegemonia

Apesar da Operação Lava-Jato e dos últimos escândalos envolvendo grandes nomes do partido, incluindo a prisão de Lula, o PT conseguiu manter grande parte de sua hegemonia política: elegeu a o maior número de governadores, 4, e a maior bancada da Câmara dos Deputados, 56 deputados federais, contra os 69 eleitos em 2014. Para o senado, houve uma redução, de 11 eleitos em 2010 para 4 em 2018. Mesmo assim, o partido contará com 11 senadores, a segundo maior bancada, perdendo apenas para o MDB, que terá 14.

O PSOL quase dobrou sua bancada de deputados, passando de 6 para 11 representantes na Câmara.

O PSDB, principal rival da esquerda nas últimas eleições, teve uma votação de partido nanico. Haja vista o fiasco da candidatura de Geraldo Alckmin.

Domínios estadual e regional no Nordeste

Além de vencer em todos estados, o PT também saiu vitorioso nos apoios que deu no Nordeste, elegendo cinco candidaturas que apoiou na região. Participará da chapa de quatro governadores eleitos no primeiro turno, Renan Filho (MDB-AL), Paulo Câmara (PSB-PE), João Azevedo (PSB-PB) e Flávio Dino (PC do B-MA), e da chapa de Sergipe, eleito no segundo turno. No governo de Sergipe, o partido terá a vice-governadora, Eliane Aquino.

Em 2014, o PT elegeu apenas três governadores – Bahia, Ceará e Piauí – e estava na chapa dos eleitos em Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe.

Os governadores petistas eleitos foram todos do Nordeste: Rui Costa (BA), Camilo Santana (CE) e Wellington Dias (PI) e Fátima Bezerra (RN).

Hegemonia e nascimento de um novo líder na esquerda: Fernando Haddad

Caetano Veloso, Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, Chico Buarque e Guilherme Boulos. Foto: Ricardo Stuckert.

Ficou claro que o PT ainda é, de longe, o único partido de esquerda com potencial para fazer frente e derrotar candidatos de direita. Os 47 milhões de votos qualificam e legitimam Fernando Haddad como um novo grande líder da esquerda, indubitavelmente. À direita, cabe respeitar a resistência do partido e o bom desempenho de Haddad; à esquerda, cabe criticar menos e se aproximar mais; ao PT, cabe ser mais humilde, ouvir mais e aceitar influências externas. Some-se a isso a omissão e o exílio de Ciro Gomes, no segundo turno, que podem leva-lo a um “efeito Marina Silva”, tornando-o irrelevante nas próximas eleições.

Além de Haddad, outras grandes lideranças surgiram, com destaque para Manuela Dávila (PCdoB), que foi vice na chapa petista, e Guilherme Boulos, candidato pelo Psol.

O retorno de Marina Silva à esquerda é um ponto positivo também.

Oxigenação

Essa saída de cena, pelos próximos quatro anos, pode ajudar o PT e a esquerda a se reestruturar, olhar mais para os próprios erros e traçar com mais calma novas estratégias, longe das pesadas críticas da mídia e do Planalto. Um momento de catarse, necessário a todos que estão sob forte pressão de um alto cargo, no caso, o maior cargo do país. Pode ser um tempo de curar feridas, até internas, e regenerar o desgaste sofrido com tantos anos ocupando a cadeira presidencial.

Maioria da país não escolheu Bolsonaro

Dos eleitores aptos a votar, 21,30% não votaram, pouco mais de 31 milhões de votos. Dos que votaram, 9,57% anularam ou votaram em branco, cerca de 11 milhões de votos.

Somados, são 28,83% do eleitorado que não escolheram nenhum candidato, 42 milhões de votos. Quase a votação que Haddad obteve.

Essas pessoas poderiam ter mudado o resultado das eleições presidenciais.

Mesmo derrotado, Haddad venceu 

Apesar da derrota numérica, Haddad venceu em mais cidades do que Bolsonaro. O petista saiu vitorioso em 2.810 municípios, contra 2.760 de Bolsonaro.

Bom para a democracia

A alternância de poder é algo necessário e salutar para a democracia, ainda que seja uma mudança radical como essa. Teremos a chance de acompanhar um governo de direita, ou extrema-direita, de perto, para no futuro compará-los. Também viveremos um modelo de Estado neoliberal, bem diferente do Estado social (ou Estado de bem-estar social) defendido pela PT nos últimos anos. Qual será o melhor, menos pior? O tempo dirá.

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