Fábio Py | Relato da ‘visita’ do TRE à Universidade Estadual do Norte Fluminense


“Essa ação me soou diferente das demais que vem ocorrendo pelo TRE, pois, nela, indicou-se o conhecimento do que vem sendo escrito. Os inspetores reconheceram os nomes e o que eles escrevem. Logo, não creio que tenha sido uma visita “à toa”.


Por Fábio Py. Publicado em 27/10/2018.

Dr. Fábio Py. Foto própria editada.

Relato da ‘visita’ do TRE à Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) na última sexta-feira.

Passei a semana sem vontade de escrever, dizer. Praticamente só respondendo às demandas. Após a semana digerindo, acho que agora posso me pronunciar melhor por aqui.

Sexta-feira passada, às 10h50min, logo após a senhora da limpeza sair da sala 116, do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, CCH-UENF, Rio de Janeiro, do prof. Marcos Pedlowski, que ocupo, recebi a visita de três sujeitos se dizendo do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ). Seu líder se apresentou como Marco Aurélio, fardado com colete, camisa preta e coturno. E, os dois vieram em direção diferente, com roupas normais (com coturnos). Marco Aurélio me mostrou o dito ‘mandado’ carimbado pelo TRE. Assim, permito a entrada para inspeção na sala. Indico que a sala não tinha qualquer propaganda política partidária, quer seja de panfletos, materiais de propaganda ou de qualquer ‘ativismo’, como estava escrito no corpo do mandado.

Os dois começam a mexer nos arquivos e o outro fica olhando as gavetas. Marco Aurelio vira para mim, pede minha identidade e o CPF, que pego na bolsa, para permitir com a minha assinatura. Com a folha para assinar, um dos à ‘paisana’ pergunta dos computadores, então, ligo os computadores mais perto da porta. Quando vou colocar a senha, eles desistem, voltando-se aos arquivos.

Marco Aurélio passa para outra parte da sala, perguntado do outro PC. Falo que era pertencente ao professor Marcos Pedlowski sendo que estava de licença prêmio e no estágio de pós-doutorado em Lisboa. Ofereço a ligação para ele, para pedir acesso ao computador. Indica que não precisa, mas quando vê um emblema produzido na UENF escrito “não está normal” indica que aquilo era propaganda política. Indico que não, que na verdade, foi feito por conta dos seis meses de atraso dos salários do ano passado, no contexto da longa greve do ano passado. Indica um ok – baixo.

Quando ouve o nome do prof. Marcos afirma seu dito envolvimento com um político local. Contra a afirmação indico para ele olhar com mais carinho seus escritos do blog (https://blogdopedlowski.com/). Nele, tece crítica aos diferentes setores sociais de Campos, que era uma forma de discussão teórica da realidade, algo que faz parte do meio acadêmico.

Assino o dito mandado, entregando para ele com a identidade. Quando lê meu nome pergunta se não era eu que escrevia sobre o “cristofascismo à brasileira”. Contra a afirmativa daquele senhor, indico que seria uma reflexão acadêmica, fruto de minhas atividades mais recentes teóricas, logo, não seria um ativismo ou qualquer propaganda política.

Pergunto pela minha via do mandado, ele indica que era para pegar no TRE na segunda. Diante de mais algumas respirações indica que a sala estava “limpa”. E quando os três chegam á porta na saída, falam “dispersar”. Saindo em momentos diferentes da sala, e em distintas direções. Agora, desde então, desde a segunda-feira a Reitoria da UENF vem iniciando os processos e os questionamentos do que ocorreu na sexta passada. Agora, o que se sabe é que não era uma inspeção oficial do TRE, descrita no recente documento como “falsa inspeção”.

Quero agradecer de antemão à comunidade da UENF, e aos amigos e amigas pela acolhida nesses dias tão turvos. De fato, a visita não foi normal e não ocorreu sobre qualquer truculência, como em outras universidades. Mesmo assim, sinto-me acuado, porque um dos homens que lá estiveram estava visivelmente armado, quando estava sozinho na sala, num dia vazio na instituição. E, segundo, essa ação me soou diferente das demais que vem ocorrendo pelo TRE, pois, nela, indicou-se o conhecimento do que vem sendo escrito. Os inspetores reconheceram os nomes e o que eles escrevem. Logo, não creio que tenha sido uma visita “à toa”, pois, pareciam saber exatamente quem estava lá, a hora, a horas das aulas, o dia mais vazio da semana para ir lá, a hora do almoço dos porteiros e também o que pensa e escreve quem trabalha na sala.

Sobretudo, posso dizer que entraram e saíram na hora exata. Fizeram um serviço parecido com a polícia criada na arte da infiltração e no reconhecimento policial. Dessa vez, se usou tal modus operandi contra pesquisadores e uma universidade. Da mesma forma com que ocorreu no Brasil, em um passado não muito distante, nos anos de 1964 à 1984.

Assim, para terminar essa publicação-esclarecimento, anexo aqui na publicação os tramites legais em que a UENF vem auxiliando. Agradeço por demais a acolhida da comunidade uenfiana. Sem ela não saberia como estaria a situação agora.

Agradeço toda dedicação e carinho por minha pessoa.


Sobre o autor desse artigo

Fábio Py – Doutor em Teologia pela PUC-RIO, ênfase História da Igreja/Fé e Política. Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação Politicas Sociais na UENF. Membro da CPT do Norte Fluminense (RJ) e do Coletivo Casa Comum.

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