Opinião | Disposição cristofascista à brasileira na semana das eleições


“É curioso que, na prática, chega-se a abrandar as atitudes truculentas de Bolsonaro, em prol da moral, dos bons costumes e dos ditos valores cristãos.”


Por Fábio Py. Publicado em 05/10/2018.

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“Pelo Senhor, marchamos sim
O seu exército poderoso é
E sua glória será vista em toda terra

Vamos cantar o canto da vitória
Glória Deus, vencemos a batalha
Toda arma contra nós perecerá

O nosso general é Cristo
Seguimos os seus passos
Nenhum inimigo nos resistirá”

(“Nosso general é Cristo”, Adhemar de Campos)

Faces do fascismo vêm se encadeando e se complexificando, no meio da paisagem social brasileira. Isso vem sendo ainda mais amplificado na semana eleitoral. De três dias para cá, as notícias, memes e fake news ganharam cores alarmantes. A maioria delas explora as diferentes candidaturas denegrindo-as, plantando desinformações e outras. Vem chamando a atenção o destaque nas redes e mídias às noticiais que envolvem o candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) e a ambiência cristã. Mais do que isso, parece que vem ocorrendo uma tática de teologizar a figura do candidato, em prol de sensibilizar os cristãos.

Tenho discutido, em outros artigos, o termo “cristofacismo à brasileira” [1], a partir das falas dos candidatos e seus projetos de construção da futura hegemonia do Estado brasileiro. Com posturas fascistas de discriminação, preconceito e racismo ante às minorias sociais, tais candidatos fazem uso de modalidades cristãs, mediante a disputa de poder, ou então, mais diretamente, envolvem certos grupos cristãos que ocupam cargos no Estado, somando à teologia as práticas virulentas. Portanto, até agora, minha preocupação foi diretamente com o cristofacismo à brasileira, isto é, com elementos ligados às instâncias estatais ou nos grupos que ocupam tal hegemonia, ou grupos que estão diretamente na disputa das lutas políticas, para assim chegarem lá também.

Contudo, neste texto, gostaria de destacar o que chamo de ‘dispositivos cristofascistas’, inspirados em Michel Foucault [2]. Mais especificamente, a intenção é identificar algumas estratégias e caminhos que estão sendo utilizados pela propaganda política no meio religioso, para sensibilizar os eleitores do cristianismo à ética de Jair Bolsonaro. Para isso, separei ferramentas extremamente utilizadas pelas redes sociais: Os memes. Separei três deles, que estão circulando e que vem auxiliando na propaganda da candidatura de Bolsonaro à presidência da República. Penso que tal elemento vem sendo mais difundido com a proximidade do pleito eleitoral e também pela adesão direta de lideranças religiosas de impacto nacional, tal como os pastores André Valadão, Edir Macedo, Silas Malafaia, entre outros, que assumiram publicamente seus votos em Jair Bolsonaro. O que se vê é que tais declarações de voto vêm potencializando mais ainda a indústria de bordões e memes de apoio ao candidato Bolsonaro, pelo viés evangélico.

Indústria de memes de Bolsonaro

Acredito que tal indústria de memes simboliza como as igrejas (ou seus adeptos) vêm emparelhando e circulando posturas e táticas políticas de Bolsonaro. Por mais inusitado que seja, acredito que seus seguidores religiosos estão produzindo uma “teologia” de apoio eleitoral ao candidato. Mais ainda, vem se desenhando uma cristologia sobre a figura do capitão da reserva. Pois bem, quero falar do primeiro meme. Recebi a peça nesses últimos três dias pela rede whatsapp, que tanto tem atuado como veículo para a circulação e a difusão dos “memes políticos”. No tal meme, se mostra uma foto do candidato dos dias em que esteve internado, visivelmente abatido no leito do hospital. A mensagem da peça é clara e objetiva: “Ele sangrou por nós. Dia 7, ele pode contar com sua retribuição?”.

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Claro que a indústria de memes apela diretamente para o sentimento. Nesse caso, isso é diretamente ligado ao ato de votar no dia 7, como sobrevida de Bolsonaro como candidato. O meme apela com a seleção de uma foto do candidato em uma postura que remete à fragilidade, após receber atendimento médico, em consequência do atentado à faca que sofrera. Tem apelo junto à mensagem de Cristo, que morreu violentado, atacado com uma faca/lança. De forma explicita, o meme sinaliza o sacrifício de Bolsonaro em prol da nação brasileira. Uma analogia direta à crucificação de Jesus. Assim, destaca-se, com o meme, o fato do sacrifício do candidato, pelo viés do cristianismo.

O segundo meme não está ligado à violência lamentavelmente por ele sofrida. Mas, tem em destaque a foto de Bolsonaro à frente da bandeira do Brasil, com seu emblema da ordem e do progresso. Nos dizeres de cima : “Pela moral, bons costumes, e valores cristãos. Um homem que está preparado para liderança da nação”. E, na parte debaixo, está escrito: “Eu apoio Bolsonaro”.

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Com o meme, evoca-se seu vínculo eleitoreiro com a pátria, imitando uma foto clássica como (possível) presidente da República. Os dizeres afirmam suas mensagens habituais da campanha, ou seja, o apelo à moral conservadora ligada aos “bons costumes” da família tradicional brasileira, tal como já se articulou nos governos autoritários brasileiros. E termina escrevendo o que boa parte do público cristão quer ouvir: ele defende da bandeira dos “valores cristãos”. Tais elementos levam Jair Bolsonaro a ser um “homem que está preparado para liderança da nação”. Nesse caso, indica-se com o meme que ele pode liderar a nação, pois cultiva “bons costumes”, isto é, os valores cristãos. Destaca seu lado de governabilidade baseada na moral da família cristã, que supostamente busca empreender.

Por fim, acho que mais complexo foi o meme que recebi há alguns dias. De forma estarrecedora, promove uma adaptação desconexa dos textos bíblicos, a das narrativas de Pedro e Judas. Diz o seguinte:

“Prefiro Pedro que era impulsivo, falava umas besteiras e andava armado com uma espada, do que Judas com seu discurso mentiroso de ajudar os pobres, mas que era ladrão!”.

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Nesse caso, é interessante como esses fabricantes de memes político-religiosos são criativos, em prol de Bolsonaro, construindo adaptações até nas memorias bíblicas, porque não se pode dizer que as igrejas cristãs no Brasil indicam que seus membros andem armados, por exemplo. Nem diretamente se diz que falem besteiras do nível como incitar a violência, a morte de outras pessoas, xingar mulheres, falar de estuprá-las, falar de fuzilar oponentes políticos, etc. No fim do meme, existe uma aproximação da figura de Judas com o habitual discurso contra seu principal adversário político, o Partido dos Trabalhadores (PT). Na mensagem, o partido é acusado de se beneficiar com a suposta mentira de que atuariam em auxílio aos pobres, e que, como Judas, cometeriam traição isso ao permitir a corrupção no país. Com o meme, a crítica sobre a figura de Bolsonaro (como aquele que é impulsivo e que “anda armado”) é diluída na ideia de que ele é melhor que os corruptos pecadores do PT. Pela mensagem, os eleitores de Bolsonaro seriam os verdadeiros discípulos de Cristo, como Pedro, fundador da igreja cristã.

Indicações sobre os dispositivos cristofacistas

A percepção é que há um processo de utilização de dispositivos cristofascistas, inclusive teológicos e morais, para se promover a campanha de candidatos. Portanto, os memes são uma forma de entreter e propagar as ideias ou as defesas do candidato à presidência, que é contra as minorias, contra pluralidade de expressões de gênero e que assume posturas racistas contra negros e índios. E, como se disse, tal maquinário político vem sendo disparado com maior força mediante a declaração de votos de líderes religiosos de peso, como o bispo da Igreja Universal, Edir Macedo. Interessante que, com isso, vem se promovendo uma campanha nacional unificadora de suas ideias nitidamente cerceadoras de liberdades sob o brasão do cristianismo. É claro, que essa união é tênue, mas foi firmada entre as partes.

É curioso que, na prática, chega-se a abrandar suas atitudes truculentas em prol da moral, dos bons costumes e dos ditos valores cristãos. Símbolo disso foi que recebi uma mensagem de um grupo de amigos cristãos no aplicativo do celular. Os dizeres são aterradores:

“O Bolsonaro diz o que gostaria de dizer, mas não posso. Não tenho imunidade parlamentar! Sei que nas décadas passadas fiquei silenciado pelo politicamente correto. Contudo, agora, não preciso mais disso. E, sim, seu discurso é racista, misógino, homofóbico, fascista, e todos outros emblemas. Isso é o que me deixa mais tranquilo em Jesus de votar nele”.

Ou seja, é com pesar que se percebe que as táticas cristofascistas à brasileira vem sendo difundidas, principalmente, na classe média preocupada com a paz social e muito bem acomodada entre as normas e condutas cristãs. O medo é de como no passado, tal postura possibilitar outra ditadura. Mas, de fato, veremos se tem força para construir e bancar outro estado de sítio tão direto, numa outra modalidade de governo fascista à brasileira.


Notas

[1] Sobre o cristofascismo desenvolvi dois textos: o primeiro, “Cristofacismo in corpus”, em: https://ativismoprotestante.wordpress.com/2018/06/12/opiniao-cristofascimo-a-brasileira/; e o segundo, “Cristofascismo à brasileira na eleição de 2018”, em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Eleicoes/Cristofascismo-a-brasileira-na-eleicao-de-2018/60/41803.

[2] O termo “dispositivo fascista” vem de Michael Foucault, no seu “O Anti-Édipo: uma introdução à vida não-fascista”.


Sobre o autor desse artigo

*Fábio Py – Doutor em Teologia pela PUC-RIO, ênfase História da Igreja/Fé e Política. Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Politicas Sociais na UENF. Membro da CPT do Norte Fluminense (RJ) e do Coletivo Casa Comum.

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