Opinião | José Wellington mostrou que qualquer um pode ser usado pelo Diabo, até ele, ao apoiar Bolsonaro


“Apesar da aparência dócil do pastor senil, e de sua explícita animosidade durante a fala, a afirmação é chocante, quando comparada às falas agressivas e aos discursos de ódio contra minorias de Bolsonaro.”


Por Osmar Carvalho. Publicado em 04/10/2018.

Pastor José Wellington e sua esposa, Wanda Costa. Reprodução.

O senhor [Bolsonaro] tem falado o nosso idioma nos seus discursos. O senhor fala aquilo que os evangélicos gostariam de ouvir. E nós estamos certos de que, com o apoio dos evangélicos, o senhor cumprirá os seus compromissos junto conosco“. Estas foram as palavras proferidas pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder influente da igreja Assembleia de Deus Ministério Belém, em São Paulo, ao final de um culto de ação de graças em comemoração ao aniversário de casamento dele e de sua esposa, Wanda Freire Costa. Um vídeo foi exibido na ocasião, segunda-feira passada (01). Porém, ao analisarmos as falas agressivas de Bolsonaro, candidato de extrema-direita à presidência da República pelo PSL, podemos concluir que tal afirmação não poderia jamais ter sido inspirada pelo Espírito Santo, nem por Jesus, que veio para que tivéssemos vida, e em abundância, mas teria tudo a ver com uma atuação do Diabo, aquele que veio “para roubar, matar e destruir”, segundo a Bíblia.

Vídeo

Bastam algumas falas de Bolsonaro, para o mais incauto e neófito cristão sentir e perceber a ausência de princípios cristãos nelas, como misericórdia, perdão e compaixão.

Misoginia, ataque às mulheres

O candidato à presidência Geraldo Alckmin (PSDB) usou os xingamentos de Bolsonaro contra as mulheres para atacá-lo. O vídeo mostra o deputado xingando uma repórter da RedeTV! de “idiota” e “ignorante”, em 2014, e ofendendo a deputada Maria do Rosário (PT), chamando-a de “vagabunda”, em 2003.

Os dois vídeos foram gravados no Salão Verde da Câmara dos Deputados.

Vídeo

Em 2014, 11 anos depois, o deputado causou indignacao ao dizer que jamais estupraria a deputada Maria do Rosário, pois ela não merecia, por ser ‘muito feia’. Bolsonaro foi condenado por essa fala, recorreu da decisão e perdeu.

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Negros, quilombolas e indígenas

Bolsonaro já protagonizou alguns episódios bizarros, com falas racistas, publicamente. Em outubro de 2017, o deputado foi condenado a pagar R$ 50 mil por danos morais por declarações preconceituosas feitas contra os quilombolas, em uma palestra no clube Hebraica, no Rio de Janeiro.

Na ocasião, Bolsonaro disse que “afrodescendentes” quilombolas “não fazem nada e nem para procriador eles servem mais”, também culpou as reservas indígenas e quilombos por atrapalharem a economia do país.

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Homofobia

Em novembro de 2017, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro também manteve a condenação de Bolsonaro por dano moral coletivo contra gays. Ele foi condenado a pagar R$ 150 mil por declarações homofóbicas feitas no programa CQC da Band, em 2011.

Questionado por um telespectador sobre o que ele faria se tivesse um filho gay, o deputado disse que isso nem passava pela sua cabeça, pois seus filhos tiveram uma boa educação, com um pai presente, por isso não corria esse risco.

Assista ao vídeo abaixo (a partir de 2min40s):

Opositores

O ex-militar também adota um discurso agressivo contra seus opositores políticos.

Em comício no centro de Rio Branco, no Acre, no sábado (01), o candidato a presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) disse que vai fuzilar os petistas daquele estado.

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre e botar esses picaretas pra correr. Já que gostam tanto da Venezuela vamos mandar essa turma pra lá”, disse ele durante seu discurso, imitando uma arma com um tripé de câmera de filmagem.

Vídeo

Evangelho violento

Em entrevista ao jornal O Globo, o candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que Jesus usaria arma de fogo, se já existisse naquele tempo. O candidato fez a declaração ao explicar o que ele quis dizer com a frase “Leia o Livro de Paulo”, dita por ele à candidata Marina Silva (Rede), no debate presidencial realizado pela Rede TV!, nessa sexta (17).

Além disso, Bolsonaro afirmou que a Bíblia contem passagens que pregam o uso de armas por cristãos:

— Paulo fala: “venda suas capas e compre espadas”. Está na Bíblia. A Bíblia é nossa caixa de ferramenta. Quando ela (Marina) disse que eu estava errado em falar em armamento, na Bíblia tem essa passagem. É que naquele tempo (da Bíblia) não tinha arma de fogo, se não com toda certeza seria ponto 50 e fuzil.

Além de citar versículos isolados para justificar sua política armamentista, o candidato do PSL não se preocupa muito em referenciar corretamente os livros bíblicos. A passagem a que ele se refere não foi escrita por Paulo, mas dita pelo próprio Jesus Cristo e anotada no Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículo 36.

Evangelho, política e poder

Há 30 anos na presidência da CGADB, desde 1988, e na presidência da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo, o pastor José Wellington Bezerra da Costa é o condutor político da família Costa na igreja. Sua forte influência, aliada ao seu status de “homem inerrante de Deus”, parece ser mais do que suficiente para que suas ordens e determinações sejam incontestáveis, seguidas como mandamentos divinos. Seu último grande feito, antes de deixar o poder maior das Assembleias de Deus, foi conseguir eleger seu filho, o pastor José Wellington Bezerra da Costa Junior, para a sucessão. O patriarca dos Costas também conseguiu eleger seu três filhos na política: Marta Costa, Paulo Freire da Costa e Rute Costa, vereadora em São Paulo.

Apadrinhados pela igreja, seus filhos ajuntaram dinheiro na política, como mostraram levantamentos do Ativismo Protestante.

Candidato à reeleição esse ano, o deputado federal Paulo Freire Costa (PR-SP) – pastor da Assembleia de Deus Ministério Belém, eleito por São Paulo – declarou R$ 1,1 milhão ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já quase milionário quando entrou na política, patrimônio evolui 15% no primeiro mandato e 17% no segundo .

Também candidata à reeleição, Marta Costa (PSD-SP) – deputada estadual da Assembleia de Deus Ministério Belém, eleita por São Paulo – foi de zero a R$ 453 mil na política, em quatro mandatos, segundo histórico de declarações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apadrinhada pela igreja, foi eleita três vezes vereadora e uma vez deputada estadual.

No mesmo culto, na mesma fala e sobre a mesma influência espiritual, José Wellington pediu para que os membros da igreja votassem em Bolsonaro:

“No dia sete de outubro, o dezessete precisa estar lá também.

Apesar da aparência dócil do pastor senil, e de sua explícita animosidade durante a fala, a afirmação é chocante, quando comparada às falas agressivas e aos discursos de ódio contra minorias do ex-capitão do Exército. Além de ser uma clara violação da legislação eleitoral, que considera crime a petição de votos em cultos e o uso de aparato religioso para campanha eleitoral, como os templos.

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Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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