Editorial | Eleições sórdidas da extrema-direita


Falta de esperança, sensação de medo, tiro, agressões de todo tipo nas redes sociais e fake news fazem dessa eleição a mais violenta e torpe da nossa jovem história democrática.


Publicado em 04/10/2018.

Magno Malta, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia. Reprodução.

Essas eleições perderam a graça do jogo político democrático. A saída da extrema-direita do armário, personificada na figura de Jair Bolsonaro, candidato à presidência da República pelo PSL, provou que o radicalismo destrói qualquer democracia. Não importa quem vença, todos já perdemos. Está um clima ruim para tudo. Falta de esperança, sensação de medo, tiro, agressões de todo tipo nas redes sociais e fake news fazem dessa eleição a mais violenta e torpe da nossa jovem história democrática.

O radicalismo de Bolsonaro faz muito mal às eleições, com seus discursos de ódio e incitação à violência. Desconhecemos suas propostas para áreas fundamentais e estratégicas para o país, tanto na micro quanto na macroeconomia. E ele não parece muito interessado em explicitar suas metas de governo, pois suas aparições em público são quase sempre rodeadas de falas agressivas e polêmicas. Sua ascensão nas pesquisas parece depender disso, seus eleitores se alimentam disso, haja vista o ativismo que fazem e a quantidade de fake news que produzem, na tentativa sórdida de desqualificar os adversários políticos.

Poderíamos pegar seu plano de governo e ler? Sim, poderíamos, mas, sejamos honestos, não temos muito interesse em ler planos de governo, seja do nosso ou de outro candidato, pois eles dificilmente o cumprem, quando eleitos. São mais para cumprir a obrigação exigida pela justiça eleitoral. É como ler uma fábula para adultos. Menos interesse ainda se for de alguém que não temos a menor empatia, como Bolsonaro. Outra coisa, planos de governo são obscuros e subjetivos, daí a necessidade dos debates e do esclarecimento das ideias pelos seus autores.

As notícias que lemos acerca do plano de governo do Bolsonaro também não motivaram a lê-lo, pois eram quase todas pessimistas.

Plano de governo do Bolsonaro e o desapareço à democracia‘, dizia o título de uma matéria do ‘Justificando’. Resumidamente, a matéria diz que metade do plano, de 81 páginas, teria sido escrito pelo ‘posto Ipiranga’ da economia de Bolsonaro, o economista Paulo Guedes; a outra metade, pelo próprio Bolsonaro. Além de abusar das exclamações, recurso linguístico que propositalmente reflete bem o tom autoritário de Bolsonaro, o plano tem mais menção a Deus do que páginas: 82. A matéria diz ainda que “o plano apresenta propostas que partem de premissas falsas ou apresentam soluções contraditórias com o próprio ideário do candidato“.

Bolsonaro ironiza proposta que consta em seu próprio plano de governo‘, era o título de outra matéria, do ‘Congresso em Foco’. A matéria tratava do fato de Bolsonaro ter ridicularizado uma outra matéria do jornal ‘O Globo’, que dizia que ele propôs uma renda mínima para todo brasileiro, além do aprimoramento do programa Bolsa Família. “Meu Deus! Kkkkkkkk! É inacreditável!” – postou Bolsonaro em seu twitter, citando a matéria. Porém, a proposta consta sim em plano de governo do candidato, entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e disponível no site da Corte eleitoral. A proposta está descrita na página 63.

Plano de governo de Bolsonaro parece mais um grupo de Whatsapp de direita em forma de documento‘, noticiou a Revista Fórum. Segundo a matéria:

Em 81 páginas, o plano de governo de Jair Bolsonaro não apresenta soluções concretas para os problemas do país, fala o tempo todo de ‘Deus’ e se apega a discursos vazios como ‘acabar com a doutrinação marxista’ e a influência do ‘Foro de São Paulo’; ao falar de segurança, o candidato chama o golpe de 1964 de ‘revolução’, propõe porte de arma aos cidadãos e redução da maioridade penal.”

Junte-se a isso um séquito de religiosos politiqueiros oportunistas, seguidos por fiéis alucinados, espalhando mentiras para demonizar quem pensa diferente. E toda essa politicagem em nome de Deus.

Junte-se a isso, também, o crescimento das redes sociais, segunda maior fonte de informação dos eleitores. Segundo o Datafolha, os eleitores de Bolsonaro são os que mais usam as redes sociais para se informar. De cada 10 deles, 6 usam o Whatsapp como fonte de informação. São 61%, contra 38% dos eleitores de Haddad. Essa ferramenta tem sido usada largamente para a propagação de notícias falsas, devido ao fácil acesso por todos e à falta de qualquer tipo de controle, como publicou o jornal ‘El País‘. No Facebook e no Twitter, líderes religiosos e políticos disparam desinformação diária, postando vídeos, com agressões e calúnias, e imagens adulteradas, com milhares de compartilhamentos pelos milhões de seguidores, principalmente contra políticos e eleitores de esquerda.

O pastor Silas Malafaia, líder da igreja evangélica Assembleia de Deus Vitória em Cristo, fez uma série de posts no Twitter, relacionando o agressor de Bolsonaro, Adelio Bispo de Oliveira, ao Partido dos Trabalhadores (PT). Na verdade, Adeildo foi militante do PSol, entre 2007 e 2014. Atualmente, Adeildo não é filiado a nenhum partido. Ele disse que agiu sozinho, por motivos pessoais, e as investigações da Polícia Federal concluíram o mesmo.

Políticos asseclas de Bolsonaro também abraçaram as fake news como ferramenta legítima de campanha. O senador e candidato à reeleição Magno Magna (PR) publicou uma imagem falsa nas redes sociais, que colocava Adeildo, agressor de Bolsonaro, em uma foto com o ex-presidente Lula.

O tuíte recebeu mais de 5 mil curtidas e compartilhamentos. Malta escreveu ainda:

“Olha em que time joga o marginal.”

Imagens falsas de adversários políticos de Bolsonaro não faltaram. Em uma delas, a candidata a vice-presidente de Fernando Haddad (PT), Manuella D’Avila (PCdoB), aparece com a frase ‘Jesus é travesti’ estampada na camiseta.

As fake news contra Haddad, segundo colocado nas pesquisas e provável adversário de Bolsonaro no segundo turno, foram de escolha de sexo de crianças pelo Estado a ‘mamadeiras eróticas’.

Perdemos o ânimo por essas eleições, e com razão. Participaremos desses absurdos que temos visto no pleito eleitoral? Não há argumentação minimamente plausível que justifique isso.

Então, como sair desse desalento político, da decadência ética desse pleito? Como vencer as mentiras e as calúnias da extrema-direita? Apontamos um (outro) caminho (ético) a seguir.

Não nos apetece a ideia de ganhar uma eleição a qualquer custo. Isso é éticamente condenável. Aliás, essa ética existe também, no caso a ética maquiavélica, segundo a qual os fins justificam os meios.

Mas cabe a questão: ela é aplicável ao pleito político? Numa guerra ela é bem viável, pois o importante é vencer, a qualquer custo. Nem que seja jogando bomba atômica no inimigo. Já na vida social, essa ética é condenável, pois não podemos passar por cima das pessoas na política, no trabalho, na igreja, na família, só para nos dar bem.

Mesmo que estejamos fazendo a coisa certa, nem sempre estamos agindo corretamente. Aí que entra a ética kantiana: não basta fazer a coisa certa, é preciso fazer pelo motivo certo também.

Ao contrário da ética de Maquiavel, a ética de Kant é necessariamente duplamente positiva, ou seja, agir certo pelo motivo certo. É essa ética que podemos aplicar na política e no cotidiano, a fim de estabelecer um padrão democrático aceitável para a disputa eleitoral.

Kant mesmo nos dá vários exemplos de como isso se dá. Um exemplo clássico é o homem que pode roubar alguém ou algo e não o faz, pois tem medo de ser preso. Ele fez a coisa certa, não roubou, mas pelo motivo errado, medo de ser preso. Não porque considerou isso um erro, ou seja, agiu por motivos externos a ele, a sua própria consciência.

O mesmo poderíamos concluir do homem ou mulher que não peca por medo de ir para o inferno (fator externo), não por amor a Jesus Cristo. Ou do cônjuge que não trai por medo de ser descoberto por alguém (fator externo), não por pensar que isso seria uma quebra da confiança e da dedicação do parceiro/parceira.

Para Kant, sempre que deixamos de fazer algo por forças externas a nós, como a lei, não estamos agindo certo. O bem precisa estar dentro de nós, necessariamente. Eis o porquê de alguns terem a ética de Kant como uma das mais rigorosas.

Por fim, o princípio ético não permite praticar duas éticas concomitantemente. Ou se pratica uma, ou outra. É preciso fazer a escolha. Já temos duas aqui. Para o pleito político, fiquemos com a de Kant. Não adotemos a calúnia e a mentira como fins para ganhar as eleições, porque são um ataque covarde e vil à dignidade humana, independente de qualquer fator externo, de ser crime ou não.

Deixemos a ética de Maquiavel para tempos de guerra. Precisamos de paz nesse momento.

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Um comentário

  1. A matéria tenta condenar a atitude de alguns, colocando todos no mesmo bojo. É um erro achar que todos os eleitores do Bolsonaro tem a tal “ética Maquiavélica” como pretexto. Também não é de todo prudente achar que devemos todos comungar da “ética Kantiana”. Em tempos que a “ética política” já foi jogada no ralo fazem anos e que toda uma população sofre com isso, ficar divagando sobre dois pontos de vista humanos não resolve a questão. Se o papel do cidadão é votar com conciência, eu aponto uma outra ética para vocês… “ética bíblica”, segundo está escrito no livro de Tiago 4.17: Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Achar que outro ponto de vista diferente do Kantiano é um erro, é cometer o pecado. Não se esqueçam nunca… o muro é território do inimigo.

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