Editorial | Evangelho apócrifo


“Estamos diante da criação em tempo real de evangelhos apócrifos dos novos tempos, escritos por líderes religiosos que se infiltram na política.”


Publicado em 01/10/2018.

Reprodução.

Os livros apócrifos, dos quais fazem parte os evangélicos apócrifos, são uma coleção de livros cuja autenticidade espiritual não é reconhecida por algumas igrejas, ou seja, não foram considerados inspirados por Deus. Escritos por comunidades cristãs e pré-cristãs, esses escritos englobam livros sobre o antigo e o novo testamento que foram deixados de fora dos cânones das igrejas, isto é, do conjunto de livros tidos como autênticos. Séculos depois, estamos diante da criação em tempo real de evangelhos apócrifos dos novos tempos, escritos por líderes religiosos que se infiltram na política, instrumentalizando a fé, deturpando a Bíblia e manipulando os fiéis, em prol de si mesmo e de interesses de poder. Para tanto, vale tudo, desde demonizar aqueles que pensam politicamente diferente, taxando-os de “inimigos” a serem combatidos e extirpados, até santificar um candidato de extrema-direita, conhecido por seus discursos de ódio contra mulheres, negros, homossexuais e estrangeiros: Jair Bolsonaro, candidato a presidente da República pelo PSL.

As razões dadas por esses religiosos para votar em Bolsonaro são sempre as mesmas: ultranacionalismo, valores de família, a favor da vida, honestidade, etc. Em uma espécie de ‘cristofascismo’, as falas radicais e preconceituosas do candidato são amenizadas, até tidas como aceitáveis biblicamente, como armar os cidadãos, matar em legítima defesa, pena de morte e redução da maioridade penal. Coisas como condenações pela justiça, desprezo pelos Direitos Humanos e falas racistas, homofóbicas, misóginas e xenófobas não são tratadas com o mesmo rigor com o qual combatem os ‘inimigos de esquerda’.

Vejamos algumas falas e posicionamentos.

Silas Malafaia

Um dos maiores cabos eleitorais de Bolsonaro nas redes sociais, Malafaia já apoiou o ex-deputado federal Eduardo Cunha, condenado e preso por vários crimes, e o tucano Aécio Neves (PSDB), senador e candidato a deputado federal por Minas Gerais, denunciado por corrupção. Nas redes sociais, o pastor da Assembleia de Deus demoniza e ataca com ferocidade aqueles que ele chama de “esquerdopatas”, pessoas que se colocam à esquerda do espectro político. Tais pessoas seriam uma espécie de ‘anti-cristo’, que querem destruir os valores cristãos. Logo, devem ser demonizadas e combatidas com todo o rigor possível.

Por outro lado, em um vídeo intitulado ‘Por que você deve votar em Bolsonaro?’, Malafaia retrata Bolsonaro como um tipo de messias político, que nunca se corrompeu por dinheiro, que ama a nação e é a favor dos valores de família. Para ele, Bolsonaro também é contra uma suposta erotização de crianças nas escolas, planejada pela esquerda, e um homem temente a Deus. A esquerda é definida como pessoas que querem transformar o Brasil em uma Venezuela, Cuba, que destruíram o país e que querem destruir os valores morais e da família.

Exagerado, Malafaia profetiza, em tom religioso megalomaníaco:

“Eu quero ser profeta. Eu creio ainda que o Brasil vai viver os melhores momentos em nome de Jesus. E que Deus abra a mente do povo brasileiro para perceber essas coisas. Dezessete neles!”

Porém, Malafaia nem sempre foi um defensor ferrenho de políticos radicais. Ano passado, ele gravou um vídeo condenando a extrema-direita, chamou Bolsonaro de “radical e desonesto intelectualmente” e insinuou que os ‘bolsominions’ são ‘homossexuais enrustidos’.

Edir Macedo

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O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), declarou voto em Jair Bolsonaro. Segundo o jornal o Estado de São Paulo, o PRB, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, manifestou opção por Bolsonaro, em caso de segundo turno entre ele e Fernando Haddad, candidato pelo PT.

A Igreja Universal já apoiou a ex-presidente Dilma Rousseff e participou dos governos petistas. A parceria terminou com o apoio da igreja ao impeachment da petista, em 2016.

Marco Feliciano

O deputado federal, pastor assembleiano e candidato Marco Feliciano (Podemos), que também já apoiou Cunha, a quem chamou de “meu malvado favorito”, Aécio e Temer, não esconde a euforia pela possibilidade de eleger um candidato de extrema-direita, o qual apoia e chama de “amigo particular”. Para manter a áurea de ‘infalível’ de Bolsonaro, Feliciano tentou até fazer uma inversão de culpa, no episódio em que o deputado disse que jamais estupraria a deputada Maria do Rosário (PT), pois ela não merecia, por ser ‘muito feia’. Segundo Feliciano, Maria do Rosário foi quem cometeu um crime de calúnia contra Bolsonaro, ao chama-lo de estuprador. Bolsonaro foi condenado por essa fala, recorreu da decisão e perdeu.

Ao votar contra o recurso de Bolsonaro, a relatora do caso, ministra Nancy Andrighi, alegou que o deputado “atribuiu ao crime a qualidade de prêmio, de benefício à vítima”, ao falar que Maria do Rosário não merecia ser estuprada.

“A expressão ‘não merece ser estuprada’ constitui uma expressão vil que menospreza a dignidade de qualquer mulher, como se uma violência brutal pudesse ser considerada uma benesse, algo bom para acontecer com uma mulher” – afirmou Nancy.

Em entrevista recente ao Pleno News, Feliciano usou o velho ódio à esquerda e atacou:

“Petista, para chegar ao poder, vende a mãe, mata, ‘taca’ a faca nos outros. O próximo presidente terá que colocar medidas duras. Ou ele faz isso, ou daqui a dez anos seremos uma Venezuela.”

Também, em artigo para o mesmo canal, intitulado ‘Bolsonaro está pronto e em condições de se tornar o chefe da nação’, Feliciano coloca Bolsonaro em um altar, contando sua trajetória política e sua formação. O texto também lembra que Bolsonaro tornou-se “inimigo ferrenho de esquerdistas de toda espécie”, contra o casamento homoafetivo, contra a ‘ideologia de gênero’, contra o aborto e “defendendo a causa da família”.

Magno Malta

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Outro cabo eleitoral incansável de Bolsonaro nas redes sociais, o senador Magno Malta (PR) defende seu candidato com unhas e dentes, a ponto de ser um tipo de porta-voz dele nas redes sociais, informando frequentemente sobre sua recuperação após o atentado à faca, em vídeos. Magno Malta disse que “Deus vai erguê-lo mesmo”, rejeita as pesquisas de intenção de voto e crava a vitória de Bolsonaro no primeiro turno. Segundo ele, “O Brasil vai voltar a cantar o hino nacional”.

André Valadão e Ana Paula Valadão

Pastores e cantores, os irmãos André e Ana Paula Valadão são apoiadores de Bolsonaro. André Valadão, que votou no tucano Aécio Neves, usa os mesmo argumentos dos demais, como o Brasil virar uma Venezuela e a erotização de crianças nas escolas. Também defende o direito de civis portarem armas, que o “Brasil precisa de ordem, e ordem é força”.

Cláudio Duarte

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Conhecido por misturar pregação e piadas, o pastor Cláudio Duarte foi criticado nas redes sociais, por seu apoio contraditório a Bolsonaro e a seu filho, Carlos Bolsonaro (PSL). Em um vídeo postado no seu Instagram, Duarte se diz contra a homofobia, contra o racismo, contra o feminicídio, contra uma arma nas mãos de “qualquer louco”, mas que é a favor de Bolsonaro porque ele “tem muitas qualidades”.

Candidato a senador pelo Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro provocou indignação nas redes sociais ao postar uma foto de um homem torturado, amarrado e ensanguentado, com a hashtag #EleNão, uma alusão ao movimento das mulheres contra o machismo de seu pai.

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Lucinho

Igual aos demais, o pastor Lucinho ignora as condenações e falas preconceituosas de Bolsonaro, demoniza a esquerda e declara voto no candidato:

“E agora o Brasil é: ou a gente vira o Foro de São Paulo, ou a gente liberta o Brasil da esquerda de uma vez. Por isso meu voto é Jair Bolsonaro. E se o Bolsonaro é homofóbico, ele é racista, ele é machista, isso é outro nome que se dá para quem é a favor da família tradicional. Ele não é nada disso.”

O critério de Lucinho para votar em Bolsonaro são as melhores propostas para a família:

“Eu apoio o Bolsonaro porque ele tem as melhores propostas para a família. Hoje, estou mais preocupado com o que alguém pensa sobre família e os valores cristãos do que sobre economia.”

Paulo Freire

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Ligado à Assembleia de Deus Ministério do Belém, uma das maiores denominações pentecostais do país, o deputado federal e pastor Paulo Freire da Costa (PR) diz que está pedindo a Deus para que Bolsonaro ganhe as eleições, para que o país possa realmente mudar de situação.

Igrejas neopencostais

Sob o pretexto de ir contra o PT, a Confederação de Pastores do Brasil, órgão que reúne as principais denominações neopentecostais do país, declarou apoio a Bolsonaro. O presidente do órgão, bispo Robson Rodovalho, já apoiou Haddad para prefeito de São Paulo em 2012.

Vídeo Bolsonaro em 5 minutos. Medo!

Todas essas narrativas recriam uma atmosfera de ‘guerra santa’, uma jihad versão cristã, cujo inimigo é aquele que pensa diferente, o contraditório. É próprio dos radicais desprezar e odiar a diferença. O resultado é sempre a carnificina das minorias.

Em nome de uma religiosidade deturpada por pessoas que pensam diferente, protestantes apoiaram o nazismo na Alemanha, a segregação racial na África do Sul (Apartheid), o racismo nos Estados Unidos (Ku Klux Klan) e a ditadura civil-militar no Brasil, inclusive com pastores torturando e entregando seus fiéis ‘esquerdopatas e comunistas’ à tortura.

A justificação da violência a corpos que incomodam o fundamentalismo religioso remetem ao judaísmo dos tempos do antigo testamento, quando o sacrifício de alguém era um caminho para restabelecer um suposto dogma, ou uma suposta paz espiritual e social. Matavam um pecador para aplacar a ira de Deus.

Jesus foi vítima dessa cultura religiosa sacrificial extremista. Porém, ele contrariou o sacrifício da vida como meio para restaurar uma religiosidade. Tanto que sua ressureição foi considerada pelo apóstolo Paulo “escândalo para os judeus” (1 Coríntios 1:23). A ressureição de Cristo foi também uma insurreição contra o ódio e contra qualquer tipo de atentado à vida em nome de Deus.

No mesmo versículo, Paulo diz que o Cristo crucificado é loucura para os gregos. Segundo a religiosidade grega, deuses não poderiam morrer, mas poderiam matar e castigar, quando eram provocados à ira e ofendidos pela humanidade. Ou seja, assim como na religiosidade judaica, a morte, o sacrifício e a violência a corpos que supostamente atentavam contra um preceito religioso eram justificáveis para os gregos. Como pode um Deus que morre pela Humanidade, ao invés de matá-la e infligir-lhe castigo corporal? Isso é incompatível com “vamos fuzilar a petralhada”.

Segundo as igrejas cristãs, livros que não foram escritos por algum dos apóstolos, ou divergem dos escritos bíblicos, não podem ser considerados sagrados. Tais são as condições das falas apócrifas desses religiosos que decidiram apoiar Bolsonaro. Devemos repudiá-las como discursos de ódio travestidos em piedade cristã.

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3 comentários

  1. Saudades do tempo em que o voto era secreto e livre. Agora esses pseudos líderes estão se achando no direito de dizer em quem o crente deve votar, e o que é pior, eles (os crentes), estão adorando isso.

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  2. certamente nem o PSL nem o PT tem os melhor dos mundos para agradar o cidadão evangélico, porém, o PT traiu os evangélicos em pleitos passados prometendo ética versus a velha política. O PT traiu cada eleitor evangélico que acreditou que governantes petistas moralizariam a política. Atualmente, é impossível um evangélico querer se alinhar à esquerda, ao discurso de Manuela D’avila de liberar o aborto custeado pelo Estado para todas as mulheres que quiserem abortar. Não dá para os evangélicos se alinharem com o PT de hoje, não dá mesmo! (Falo como eleitor de Lula em 4 eleições, Dilma em uma).

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