Editorial | O Bolsonaro pró-morte é a antítese do Jesus pró-vida


“O amor não tem nada a ver com pena de morte ou matar, mas com morrer pelos outros.”


Publicado em 01/09/2018.

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O uso político do Evangelho e de Jesus é a bola da vez no jogo das eleições. Entre ataques e defesas de ideias, candidatos presidenciáveis, de esquerda e direita, já citam mais a Bíblia do que a Constituição nos debates, no vale-tudo para conquistar os milhares de eleitores cristãos declarados no país – sejam católicos, protestantes, espíritas, ou de outras religiões cristãs. O resultado é a disputa de narrativas bíblicas que nem sempre condizem com as Sagradas Escrituras, pois o importante não é pregar a palavra de Deus e ganhar almas, mas convencer de que é o melhor candidato para esse público-alvo. Com um discurso de ódio contra minorias, a favor da pena de morte e de combater violência com mais violência, o candidato de extrema-direita a presidente da República Jair Bolsonaro (PSL-RJ) representa bem esse perfil político, que deturpa os ensinamentos de Jesus Cristo, na tentativa de apropriação religiosa do Evangelho e de instrumentalizar a fé dos cristãos, em seu próprio benefício.

Vídeo: Discurso fascista de Bolsonaro em 1999

Em entrevista ao jornal O Globo, Bolsonaro afirmou que Jesus usaria arma de fogo, se já existisse naquele tempo. O candidato fez a declaração ao explicar o que ele quis dizer com a frase “Leia o Livro de Paulo”, dita por ele à candidata Marina Silva (Rede), no debate presidencial realizado pela Rede TV!, nessa sexta (17).

— Eu não lembro qual livro. Jesus Cristo não foi totalmente passivo. Expulsou os vendilhões do templo. Se tivesse arma de fogo, seria usada — disse ele.

Além disso, Bolsonaro afirmou que a Bíblia contém passagens que pregam o uso de armas por cristãos:

— Paulo fala: “venda suas capas e compre espadas”. Está na Bíblia. A Bíblia é nossa caixa de ferramenta. Quando ela (Marina) disse que eu estava errado em falar em armamento, na Bíblia tem essa passagem. É que naquele tempo (da Bíblia) não tinha arma de fogo, se não com toda certeza seria ponto 50 e fuzil.

Vídeo: Discurso neonazista de Bolsonaro na Hebraica do Rio de Janeiro

Além de citar versículos isolados para justificar sua política armamentista, o candidato do PSL não se preocupa muito em referenciar corretamente os livros bíblicos. A passagem a que ele se refere não foi escrita por Paulo, mas dita pelo próprio Jesus Cristo e anotada no Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículo 36:

“Disse-lhes pois (Jesus): ‘Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a’”.

Porém, no mesmo capítulo, os discípulos oferecem uma espada a Jesus e ele mostra indignação, deixando claro que a fala não era literal. Ou seja, Jesus não estava chamando ninguém para uma batalha material, mas espiritual.

“E eles disseram: ‘Senhor, eis aqui duas espadas.’ E ele (Jesus) lhes disse: ‘Basta!’”

(Lucas 22:38)

Indo adiante no contexto, no momento de sua prisão, Jesus repreendeu um dos que estavam com ele, por cortar a orelha de um homem que fazia parte do grupo que foi prendê-lo, guiados por Judas Iscariotes, o traidor:

“E, vendo os que estavam com ele o que ia suceder, disseram-lhe: ‘Senhor, feriremos à espada?’
E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe a orelha direita.
E, respondendo Jesus, disse: ‘Deixai-os; basta!’ E, tocando-lhe a orelha, o curou.”

(Lucas 22:49-51)

Esse episódio, de grande angústia para Jesus, nos leva a uma reflexão:  Até onde precisamos ir para ensinar o amor? Essa é uma pergunta que Bolsonaro não pode responder, pois sua estratégia para se eleger só encontra terreno fértil no medo das pessoas. E o verdadeiro amor lança fora todo medo. Mas Jesus tem a resposta. E com certeza ela não está em armas nem em mortes, coisas que Cristo jamais defendeu na Bíblia.

O duro de ter que ensinar o óbvio, o amor, é que precisamos descer ao nível dos homens ignorantes e dos canalhas. Muitas vezes precisamos ser muito parecidos com eles, andar igual, falar igual e pensar igual. Por vezes, precisamos ser eles mesmo. Parece ser bem mais fácil exterminar o problema, mas soluções simplistas e simplórias não resolvem questões complexas, como a violência e a pobreza.

Jesus radicalizou tanto nesse ensino que já não era mais possível distinguir o Deus do desgraçado. Uns diziam que ele era bom; outros, que enganava.

Certa feita, Jesus saiu do meio de uma multidão, em uma festa na Galileia, e viajou secretamente para Jerusalém, sem que ninguém o reconhecesse (João 7:10, 11).

A aparência de Jesus era tão decadente que nem entre os seus discípulos, maioria pobre, ele era reconhecido. Foi preciso que Judas Iscariotes, seu traidor, o identificasse com um beijo – junto com uma multidão que o acompanhava com pedaços de pau e espada, para trucidar Jesus (Mateus 26:47-49).

Mas Cristo nos mostra o poder do seu ensino, na conversão sobrenatural de Paulo. O antes assassino de cristãos agora incorpora a pedagogia do amor de Deus, de forma tão avassaladora – primeiro, para com o próprio ente praticante -, que ele entra na pele do religioso ao amaldiçoado, do homem da lei ao marginal, da dona de casa à prostituta, do homem rico ao morador de rua, das posses ao sem-terra, do trabalhador ao presidiário, do saciado ao morto-de-fome.

“Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei;

Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei.

Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.”

(1 Coríntios 9: 20-22)

O que torna esse modo de ser e agir, considerado por muitos loucura, algo que vale a pena? A resposta de Paulo é tão simples e humana que assombra:

“Ora, tudo faço por causa do evangelho, para dele tornar-me co-participante.” (1 Coríntios 9: 23)

Porém, para ser o aluno perfeito não bastava apenas a aparência, parecer. Era preciso ser na própria pele aquelas pessoas. E Paulo se torna sem-teto, refugiado, faminto e presidiário:

“São hebreus? também eu; são israelitas? também eu; são descendência de Abraão? também eu;

São ministros de Cristo? falo como fora de mim, eu ainda mais; em trabalhos muito mais; em prisões muito mais; em açoites sem medida; em perigo de morte muitas vezes;

Dos judeus cinco vezes recebi quarenta açoites menos um.

Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo;

Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos;

Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.”

(2 Coríntios 11: 22-27)

Ao contrário de Bolsonaro, Jesus ensina que o amor não tem nada a ver com pena de morte ou matar, mas com morrer pelos outros; não está no discurso de ódio, mas na prática do bem; não vocifera contra refugiados, mas se compadece de humanos; não discrimina, inclui; não se arma, apazigua.

Eis o que é ser participante da obra de Cristo; eis o que é ensinar o amor dele.

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