Andreza Vasconcelos | Sou contra o aborto. Por isso, sou a favor da sua legalização


“O aborto não é divertido, é sofrido é doloroso demais, para sofrer por horas em uma maca suja, correndo o risco de não permanecer viva.”


Por Andreza K. Vasconcelos*. Publicado em 02/09/2018.

Andreza K. Vasconcelos. Reprodução.

Toda mulher conhece ao menos duas mulheres que abortaram de forma clandestina, seja em casa, em clínicas, ou no fundo do quintal de uma senhora conhecida como aborteira. Nossas mães abortaram, nossas avós, nossas bisas e nossas tataravós também abortaram. O aborto acontece há anos no mundo, não se sabe certamente desde quando teve início, mas queremos que ele pare de matar nossas mulheres. A cada ano aumentam as pesquisas na internet sobre como abortar em casa. Existem sites que ensinam como fazer o aborto, sites que vendem Citotec no valor de cem reais e dizem até que entregam na sua casa. Quando não se tem cem “Temers”, o chá da cabacinha – conhecido no norte como chá da buchinha, vendido em qualquer feira – faz o serviço.

Nos meus 14 anos de idade, duas amigas de idades próximas a minha decidiram realizar um aborto com o chá, no banheiro da casa de uma delas. Na outra semana elas me contaram sobre o que ocorreu naquele dia: a menina que fez o aborto passou o dia vomitando, com febre, diarréia e por fim, depois de passar horas de sufoco, desceu o feto descarga abaixo – contou uma delas. As palavras que eu ouvi e o alívio, com um misto de dor sobre o que aconteceu com ela, foi chocante à época, mas a minha vida sempre seguiu assim.

A grande maioria das minhas amigas achavam um amparo em mim com relação a esse assunto: aborto, gravidez precoce… e eu sempre me perguntava por que no momento de desespero era na porta da minha casa que elas batiam. Eu sempre fui compreensível com minhas amigas. Sempre busquei acolher e não julgá-las, mas principalmente ouvi-las.

Brasilia DF 03/08/2018: Ativistas fazem ato em defesa da descriminalização do aborto. Participantes do Festival Pela Vida das Mulheres caminham do Museu Nacional da República até o Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Ag. Brasil.

Eu nunca pratiquei um aborto, nunca nem vi alguém abortar, não faco parte de ONGs e nem grupos pró-aborto. Eu não preciso fazer parte desse universo para saber que 850 mil mulheres abortam por ano, e que a cada dois dias morre uma mulher vítima de aborto inseguro no Brasil.

Quando uma mulher decidisse abortar, ela deveria ter todo o amparo psicológico, médico e social naquele momento. Para que, primeiramente, amparo psicológico? Para que essa mulher possa ter certeza do que decidiu fazer. Existem casos de arrependimento em relação a um aborto consumado. Na maioria dos casos são mulheres que não tiveram um auxilio psicológico no momento, um ombro amigo ou qualquer amparo. Esse amparo psicológico já diminuiria os casos de abortos: os psicólogos tentariam mostrar outra saída em relação aquela gravidez.

Em sua maioria, porém, as mulheres quando abortam estão certas de que não querem gerar aquela criança no seu ventre.

Nós lemos muito na internet posts com a justificativa de que, caso não queira ter o filho, é só dar para adoção. Porém, existe todo um contexto social e, principalmente, há insegurança em relação a dar essa criança para adoção. Conhecemos muitos casos de crianças que estão à procura de seus pais biológicos, e isso pode gerar uma complicação muito grande no futuro para quem abre mão de uma criança. Sem contar que não é só chegar no orfanato e dar a criança, existe toda uma burocracia, a mulher tem que dar tantas explicações e há todo um julgamento que essa mulher que se decidiu a dar a criança se sente desestimulada a procurar um órgão “competente e responsável”. Seria maravilhoso se nossas leis de adoção fossem mais flexíveis. Os orfanatos não são um lindo parque de diversões, como na novela Chiquititas. Às vezes, é melhor não ter nascido do que passar por toda essa infelicidade, como viver sobre a insegurança, muitas vezes sofrendo maus tratos na mãos de qualquer um.

Nenhuma mulher quer passar por essa indecisão e essa dor de ter que abrir mão, de certa maneira, de ser julgada por uma sociedade patriarcalizada, porque não está numa situação financeira favorável, ou que não tem um parceiro presente, ou simplesmente não quer ter um filho naquele momento ou nunca. Nenhuma mulher quer engravidar nessas circunstâncias. Quem faz aborto não faz por que quer, mas por que precisa.

Eu decidi ser mãe, por mais difícil que fosse; essa foi minha decisão. Mesmo quando engravidei da minha segunda filha, quando meu primeiro tinha só 4 meses, mesmo tomando anticoncepcional. O que eu passei naquele momento nenhuma mulher deveria passar, e apesar da minha escolha ter sido prosseguir, eu não sou mais mulher que as mulheres que não têm força para seguir ou simplesmente não querem ser mães.

O aborto não é divertido, é sofrido é doloroso demais, para sofrer por horas em uma maca suja, correndo o risco de não permanecer viva.

Outros jargões que ouvimos na internet: “se não quer engravidar é só não abrir as pernas”, “sexo é vida, faz bem para a saúde psicológica e física”, “aborto é pecado” e etc. O aborto é pecado para quem? Para a sua religião? A sua religião é a sua religião, portanto, não procure medir os outros com as métricas que sua religião fornece. Vivemos num Estado laico, e não cristão fundamentalista-conservador. Ouvimos também: “deveria ter tomado anticoncepcional”. Nenhum método é 100% seguro, nem mesmo a laqueadura – nós mesmos já descobrimos vários casos em que os métodos anticoncepcionais falharam. “Deveriam legalizar a laqueadura, não o aborto”. Realmente deveriam, mas se até mesmo a laqueadura falha manas, e pior: existe uma grande parcela de mulheres que trazem o atraso para essa luta. Por exemplo, quando uma mulher mais nova decide pagar uma laqueadura, as mais velhas são as primeiras a dizer que aquela mulher está incerta do que quer, que ela vai se arrepender.

As mulheres têm julgado tanto umas às outras que cada “solução”que elas dão, como dar uma criança, elas mesmas são contra. Elas não são pró vida elas são pro-criação, porque quando uma mãe decide dar sua criança para o pai criar, dizem: “Ela está ficando louca!”.

A sociedade quer mandar no meu corpo e ela já manda na cabeça de muitas mulheres.

São Paulo SP 08/08 /2018: Manifestação pela legalização do aborto, Praça Roosevelt, São Paulo. Foto de Roberto Parizotti.

Se o aborto for legalizado, não é para ser agora não precisa ser agora, não vai precisar abrir clinicas hoje, não vai acontecer da forma que nosso país está, mas essa luta começou e ela não termina com a legalização do aborto. Ela só se turbina na lei desse direito.

Nós mulheres precisamos lutar hoje para que nossas meninas no futuro tenham segurança na hora de decidir sobre seu corpo; nossos meninos precisam ser educados para que no futuro eles possam respeitar nossas meninas. E que nossas meninas não morram. Essa luta pode não ser por nós, mas pode ser pelo nossos filhos e netos.

Nós precisamos parar de esperar pelo governo e começar a nos erguer. Os parlamentares, machos, não podem decidir por nós: somos nós quem decidimos. Vamos prestar atenção nos políticos que estão do lado das mulheres e eleger mais representantes mulheres, e não esquecer que essa luta não é por mim, mas por todas nós. É preciso ter ciência de que essa luta é uma luta constante e que não pode ser restrita a ser debatida só no período eleitoral, por homens que nada têm a ver com o aborto, mas se sentem no direito de opinar.

As mulheres são o poder, e elas precisam mostrar esse poder!


Sobre a autora desse artigo

*Andreza Kethleen Vasconcelos, 21 anos, Atriz, casada com Felipe Catão, mãe do Renato Vasconcelos Catão e da Clara Vasconcelos Catão. Mulher, negra, feminista; escreve para o Blog “Amor, Girassol, liberdade e arte”.

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