Editorial | Igrejas evangélicas são o novo membro da elite


“Como partícipe da elite, a Igreja Evangélica tende a reproduzir e lutar pela manutenção de seu status quo, que representa as ideias desse grupo, e a ela serve, como  um instrumento de dominação, repressão e controle.”


Publicado em 26/08/2018.

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(Brasília – DF, 01/06/2017) Temer se encontra com representantes da Igreja Assembleia de Deus, Ministério Madureira. Foto: Marcos Corrêa/PR, editada. Via Fotos Públicas.

Não nos enganemos. O que hoje conhecemos por “Igreja Evangélica” (em maiúscula para representar um ente social) é apenas mais um membro da elite, assim como o são banqueiros, empresários e famílias ricas tradicionais. É a mais nova criatura social do clube dos milionários. Não é um filho legítimo, pois foi gestado na pobreza e por ela veio à luz.

Norberto Bobbio, assim definiu a elite, em seu livro “Dicionário de Política”:

“Por Teoria das Elites ou elitista – de onde também [vem] o nome de elitismo – se entende a teoria segundo a qual, em toda a sociedade, existe, sempre e apenas, uma minoria que, por várias formas, é detentora do poder, em contraposição a uma maioria que dele está privada.”

As formas a que Bobbio se refere são: o poder econômico, o poder ideológico e o poder político.  Não restam dúvidas de que a Igreja Evangélica – pelo seu tamanho e pela quantidade de membros, das protestantes históricas às neopentecostais, passando pelas pentecostais – detêm todos os três poderes e deles se utilizam para exercer a dominação sobre seus fiéis. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2010, o total de evangélicos no Brasil cresceu, passando de 26,2 milhões para 42,3 milhões em 2010. Em relação à população, o aumento foi de 15,5% para 22,2%. O próximo censo oficial será em 2020, e a tendência é de que os evangélicos sejam ainda mais numerosos. Toda essa massa evangélica disforme e dizimista está sujeita a um pequeno grupo de líderes religiosos mandatários que enriqueceram e se tornaram aristocratas, até mesmo os opositores. Além do poder econômico, agora esses líderes descobriram o poder político, e por ele lutam com unhas e dentes por um lugar no Congresso Nacional. É o caso da Igreja Universal, que já elegeu um prefeito de uma das cidades mais importantes do país, Rio de Janeiro, e criou um partido político, o Partido Republicano Brasileiro (PRB). A igreja Assembleia de Deus é responsável pela maior quantidade de deputados  federais evangélicos.No poder ideológico, temos os intelectuais, teólogos e cientistas da religião, e as Universidades confessionais.  Toda essa concentração de poder, nas mãos de poucas pessoas, confere aos líderes religiosos (que representam as igrejas, ou delas são donos) o status de elite dominante.

Como partícipe desse meio social, a Igreja Evangélica tende a reproduzir e lutar pela manutenção de seu status quo, que representa as ideias desse grupo, e a ele serve, como  um instrumento de dominação, repressão e controle. Essas são características das elites.

Marx e Engels, dois precursores da Teoria das Elites, no livro “A Ideologia Alemã”, atentam para essa construção social elitista:

“As ideias que dominam uma época são as ideias da classe que domina a época.”

Para que haja uma sociedade desigual e injusta, é preciso calar as vozes que sofrem a injustiça, jogá-las numa masmorra e calá-las, para que ninguém as ouça. Deve-se sofrer calado. Se a elite política já retirava de um lado,  com altos impostos, e a elite econômica de outro, com baixos salários e altos lucros, agora ainda temos a elite religiosa sugando de outro, através de dízimos e ofertas. Tomar o que você tem é próprio da elite, seja ela religiosa ou não. Assim como o Estado e os banqueiros, a Igreja também quer e precisa te extorquir, para se manter. Segundo Lasswell, essa é outra característica das elites, tomar o máximo possível das massas, e nunca devolver a mesma quantidade, pois disso depende a dominação delas e a manutenção do status quo:

“O estudo da política é o estudo da influência daqueles que a exercem (. ..). Aqueles que têm influência são aqueles que tomam a maior parte daquilo que se pode tomar. Os valores disponíveis podem ser classificados como valores de deferência, de renda, de segurança. Aqueles que obtêm a maior parte delas são Elites, o resto é massa” (The political writings of H. D. Lasswell, 1951, p. 296; apud Bobbio).

O problema é que não sabiam que vozes silenciadas na dor se manifestam de outra forma. No pior caso, escambam em violência pura. A criminalidade é um grito de dor de quem teve seus direitos básicos negados. O Direito Penal vigia, caça e pune. Como uma construção social que é, ele serve à elite também, assim como a polícia. As igrejas evangélicas entram como um novo ente dominante, para justificar essa culpa dos marginalizados e condenados pelo próprio Estado, acusando-os novamente e impondo-lhes uma única alternativa para minimizar seus crimes: a conversão religiosa, um novo cala-boca para os oprimidos. A ideia de crime também é uma construção social (para esses injustiçados, para que não tenham do que reclamar de suas misérias, geradas pelo Estado) – também serve à elite. No caso das igrejas, os marginalizados são os desigrejados, outra manifestação das vozes silenciadas. Sim, as igrejas também fazem uso da força para se impor, se for preciso, assim como o Estado. Algumas têm punições extremistas, como a exclusão do membro considerado “rebelde”, por contestar alguma verdade absoluta.

Outra coisa, uma sociedade também precisa ser legitimada, quer pela força, como em ditaduras, quer pela discurso, como nas democracias. Jessé Souza pontuou isso, em seu livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”:

“Todas as classes do privilégio tendem, necessariamente, a ver seu privilégio como inato ou merecido. Como diria Weber, os privilegiados não querem apenas exercer o privilégio, mas querem também que esse mesmo privilégio seja percebido como merecido e como um direito.”

Ora, a Igreja não poderia subsistir nesse mundo sem uma desculpa esfarrapada para seu império: “foi Deus que me deu, pela fé.”

Alguns sinais evidentes desse conluio das igrejas evangélicas com a elite são: a exaltação da polícia militar (culto ao militarismo, presença marcante e participação ativa de militares em cultos), da justiça punitivista (clamor por penas mais rígidas, que torturem mais os pecadores condenados, como pena de redução da maioridade penal), a adoção de ideias políticas liberais (teologia da prosperidade, livre mercado) e de ideologias de direita (conservadorismo, ideias reacionárias, condenações morais, como aborto de drogas).

Isso não é o retrato fiel das igrejas evangélicas hoje?

No livro “Manifesto Comunista”, Marx retira essa luta das sombras, dando voz às classes subjugadas e mostrando que esse conflito existe, é real. Não por acaso, a primeira premissa do Manifesto seja uma menção a isso:

“A história de todas as sociedades até aqui tem sido a história das lutas de classes.”

Talvez por isso as igrejas evangélicas também demonizem Marx e neguem que exista esse conflito, assim como já o faz a elite. Marx também atentou para isso no Manifesto, o que mostra que essa máquina de moer pobre, formada pela conjunção Igreja-Estado, é coisa antiga:

“Um espectro ronda a Europa — o espectro do Comunismo. Todos os poderes da velha Europa se aliaram para uma santa caçada a este espectro, o papa e o tsar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães.”

Enfim, já temos o novo Império Romano (Estado) e o novo centurião (Igreja). Resta-nos saber quem será o novo messias (libertador dos oprimidos).

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