Teologia | Francisco de Assis e os três ladrões: fraternidade que reintegra


“A fraternidade universal está na base da antropologia franciscana e é o pilar para sua ética, inspirada na Palavra de Deus.”


Por Felipe Catão* – Publicado em 13/08/2018.

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Bonaventura Berlinghieri : São Francisco de Assis e cenas de sua vida. Domínio público, editada.

Já disse, noutra ocasião, que Francisco de Assis é um dos arquétipos da humanidade reconciliada, é uma figura seminal, quer dizer – é uma semente; está na raiz. Ele pode ser tomado como um modelo de humanidade. Através dele, é possível nutrir a esperança de que é possível para o ser humano se reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus que habita em cada um de nós, que rompe para fora, como utopia e realização histórica.

Em sua época, Francisco de Assis foi um grande reformador espiritual. Nas Fontes Franciscanas, consta que enquanto ele se encontrava em profunda oração, diante de um crucifixo numa igreja em ruínas de São Damião, uma voz lhe falou no intimo: “Francisco, reconstrói a minha Igreja!” Num primeiro momento, ele entendeu as palavras num sentido literal e começou a reconstruir, com suas próprias mãos, as igrejas que estavam em ruínas em Assis. Mas, depois ele descobriu o sentido profundo e oculto daquelas palavras e iniciou um processo de reforma espiritual da Igreja daquela época, atraindo milhares de pessoas, não só em Assis, mas em todo o mundo, para retomar e viver a pureza evangélica. Houve um retorno às fontes primitivas. Francisco e o Evangelho travaram uma amizade tão profunda que o ser humano se “evangelizou”, e o Evangelho se “humanizou”.

Nos “Atos do Bem-aventurado Francisco e dos seus companheiros” (Atos), no capítulo 29, existe um episódio singular que revela não só a grandeza espiritual e humana de Francisco, mas também pode ser tomado como um grande exemplo de autêntica vivência do Evangelho:

Conta-se que um jovem nobre foi acolhido na Ordem por Francisco de Assis, após ter insistido para que este o admitisse e dado provas reais de sua mais sincera intenção. Foi chamado de Ângelo, por Francisco, e instituído Guardião do convento de Monte Casale. Tempos depois, três famosos ladrões e homicidas, que praticavam muitas maldades por toda aquela região, foram ao referido convento, pedindo que o Guardião, Frei Ângelo, lhes providenciasse um pouco de comida. O Guardião, no entanto, os repreendeu severamente, dizendo que eles eram ladrões e homicidas cruéis, sem-vergonhas, que além de depredar os trabalhos dos outros, ainda se atreviam a pedir providência, querendo devorar as esmolas concedidas àqueles humildes servos de Deus. E os mandou ir embora, dizendo para que nunca mais chegassem perto daquele lugar. Os ladrões ficaram perturbados e foram embora, cheios de indignação.

Naquele mesmo dia, mais tarde, Francisco retornou ao convento, junto com um companheiro, trazendo da esmolaria que fizera uma sacola de pão e uma botelha de vinho. Quando o Guardião relatou como havia procedido com os ladrões, esperando a aprovação de Francisco de Assis, Francisco o repreendeu duramente, dizendo que ele havia agido de maneira impiedosa, pois “os pecadores são reconduzidos antes com a doçura da piedade do que com uma rude imprecação”. Também disse que, segundo os evangelhos, nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo havia dito: “Não são os que tem saúde que precisam de médico, e sim os doentes. Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,12b.13b); e que ainda, frequentemente, comia com os pecadores (cf. Mt 9,11). Portanto, o Guardião havia agido contra a caridade e contra os exemplares do próprio Cristo.

Francisco mandou que Frei Ângelo pegasse a esmola (o pão e o vinho) – que ele havia adquirido (e que era o que eles tinham para se alimentar naquela noite) – e procurasse os ladrões, até que os encontrassem. E que oferecesse, da parte dele (Francisco), a sacola de pães e a botelha de vinho; e que depois, de joelhos, Frei Ângelo deveria pedir perdão pela maneira rude que os havia tratado e pelas palavras ásperas que lhes havia dirigido. E Francisco disse ainda: “Roga-lhes, da minha parte, que não mais pratiquem maldades, mas temam a Deus e não ofendam o próximo. E se fizerem isso, eu lhes prometo providenciar continuamente o necessário para os seus corpos. E, tendo-lhes dito estas coisas, com humildade, voltes aqui”. Frei Ângelo fez tudo como Francisco lhe pediu, enquanto rogava a Deus para que os ladrões abandonassem seus maus caminhos e se arrependessem.

Aconteceu que a misericórdia e a humildade de Francisco para com os ladrões foram tão grandiosas, que eles começaram a se confrontar entre si e um com o outro, dizendo: “Aí de nós, miseráveis e infelizes, pois a nós espera um tormento duro e infernal! Nós, que continuamos não somente depredando o próximo e ferindo os homens, mas até matando-os! E, no entanto, a respeito de tão horrendos crimes, não somos incitados por nenhum temor de Deus ou por compunção de consciência. E eis que este santo frade vem a nós; e por algumas palavras muito justas, proferidas por causa das nossas malícias, acusou-se humildemente diante de nós, e ainda por cima, com o pão e o vinho trouxe-nos o benefício da caridade, e contou-nos da promessa tão generosa do santo pai de oferecer-nos o necessário”. Os três foram então a Francisco, pedindo que este os acolhesse. Francisco os acolheu benigna e caridosamente, exortou-os com muitos exemplos e os tornou certos de encontrarem a misericórdia de Deus. E conta-se que aqueles três homens se mantiveram fiéis a Deus, mudaram suas vidas, trabalharam muito pelos necessitados e se tornaram muito piedosos, dando exemplos a muitas pessoas até o fim de suas vidas.

A fraternidade universal está na base da antropologia franciscana e é o pilar para sua ética, inspirada na Palavra de Deus. Agindo com misericórdia, oferecendo o perdão, a caridade e a possibilidade de reconciliação, não só com Deus, mas com a comunidade humana, Francisco de Assis conseguiu mudar a mentalidade e a vida daqueles três homens. Mostrou que cabe aos cristãos amar e servir o próximo (uma prática exclusivamente evangélica), e não julgar, hostilizar e humilhar, repelindo ainda mais aqueles que precisam de ajuda. Na ética franciscana e na vida segundo o Evangelho não existe espaço para lógica mundana de que bandido bom é bandido morto, pois cada ser humano, carregando dentro de si uma centelha divina, tem a esperança de mudar. Basta criar condições, um ambiente oportuno para essa mudança.


Sobre o autor desse artigo

*Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura; simpatizante da causa indígena e quilombola; integra a Comissão por uma Internacional dos Trabalhadores; apoia e dialoga com grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre.

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