Editorial | Vale a pena debater nas redes sociais?


“Como seres políticos, somos obrigados a tecer relações, sejam de interesse próprio, sejam de interesse coletivo.”


Publicado em 09/08/2018.

D2D
Reprodução da internet.

Nervos à flor da pele, visões dicotômicas e maniqueístas, antagonismo político e religioso, término de amizade, intrigas, ofensas, preconceitos. Tudo isso e mais um pouco nos levam à seguinte reflexão: Vale a pena debater nas redes sociais?

Aristóteles disse que “o homem é um animal político, destinado a viver em sociedade”, ou seja, fomos destinados a viver em um espaço comum, compartilhando diferenças, dores e alegrias. Vivemos em uma democracia, o que já pressupõe no mínimo dois posicionamentos sobre determinado assunto. O contraditório é democrático e saudável à uma sociedade plural, onde a diversidade deve ser respeitada e defendida. A discussão e a divergência também foram, são e sempre serão elementos intrínsecos ao desenvolvimento humano. Quanto maior for a capacidade de uma sociedade de criar um ambiente harmonioso a todos seres humanos, eliminando de seu meio preconceitos e exclusões, maior também será seu grau de desenvolvimento.

Porém, o filósofo Jean-Paul Sartre coloca uma pedra no sapato da afirmação determinista de Aristóteles, ao afirmar que “o inferno são os outros”. Não é fácil conviver com o outro diferente de nós, reconhecemos. A tolerância nos ajuda a superar esse conflito até certo ponto, pois todos temos limites, seja de paciência, de empatia, de solidariedade. Todos estamos sujeitos a “perder a razão” em algum momento. Isso é perdoável, desde que haja reconhecimento do erro, e desde que o erro não seja um atentado recorrente contra a humanidade, como racismo, xenofobia, misoginia e homofobia.

Voltando a Aristóteles, como seres políticos, somos obrigados a tecer relações, sejam de interesse próprio, sejam de interesse coletivo. Fazemos isso a todo momento, em todos lugares, desde a escola fundamental, com a formação de “tribos”, até a vida a vida adulta, quando escolhemos nosso meio social, baseados em nossos interesses. Se por um lado é moralmente condenável ser egoísta, por outro é louvável ser altruísta, defender a causa dos outros, ainda que em detrimento de si mesmo. A prática do altruísmo envolve embates, primeiro, com nossos próprios anseios, segundo, com anseios dos outros. Isso é desgastante. Não há como defender um ideal de sociedade sem se deixar consumir pelo esforço empreendido na luta.

Feitas essas considerações, retomemos a questão inicial: Vale a pena debater nas redes sociais?

Se você for daqueles que só se metem em uma discussão para xingar e ofender, cheio de ódio e de preconceitos, a resposta é não, não vale a pena. Pare agora, saia das redes sociais, vá aprender a ser humano, pare de perder seu tempo e infortunar o tempo dos outros. Mas se você pratica as boas regras do debate, respeita opiniões contrárias e busca sempre melhorar e fundamentar bem seus argumentos, em busca da melhor maneira de convivência para todos, a resposta é sim, vale a pena.

A experiência mostra alguns fenômenos interessantes que endossam a tese afirmativa desse artigo. A princípio, toda discussão nas redes sociais parece ser muito ruim. Porém esse primeiro olhar se mostra enganoso, à medida que o debate avança. Isso é natural e lógico, pois os primeiros comentários sempre partem de pensamentos apressados, pouco preparados intelectualmente e sem nenhuma preocupação com o conhecimento do tema em questão. São os pensadores imediatistas. Esse imediatismo do livre-pensar leva a agressões, deduções e conclusões errôneas, pois carece de razão mínima, para uma argumentação minimamente coerente e uma participação social.

Passados os primeiros comentários – que quase sempre são frases simplistas, simplórias e deterministas, cuja intenção é unicamente calar e suprimir a diversidade – começam a aparecer aquelas considerações mais sóbrias e embasadas. É o segundo momento dos debates nas redes sociais. Nesse estágio, as pessoas mais sensatas vão entrando, alguns para defender uma ideologia, outros para rebater as mentes relaxadas do primeiro estágio, outros por convicção mesmo. A reflexão vai tomando forma de democracia, e os primeiros participantes vão desaparecendo. Diante da prevalência da razão, passam à condição de leitores, expectadores. A razão e a lógica vencem o ódio. Então, surgem os formadores de opinião, aqueles capazes de tirar pessoas da ignorância e conduzi-las pelos caminhos da vida harmoniosa em sociedade, do respeito ao próximo.

Se o argumento empírico acima não convence muito, temos um mais lógico e preciso, estatístico. A pesquisa “Entre Deus e o voto: Evangélicos e as eleições de 2018” –  realizada durante com participantes da Marcha para Jesus 2018, pelo Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC-SP em parceria com o Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) – MIRE (Grupo de Estudos Mídia, Religião e Cultura) – mostrou que as redes sociais são a principal fonte de informação política dos evangélicos, ficando atrás apenas da TV.

Fonte de Informação Política

  • Jornais impressos: 3,31%
  • Jornais online (sites): 8,75%
  • Rádio: 4,26%
  • Redes sociais (Facebook, Twitter, blogs): 27,90%
  • TV: 55,79%

Os dados deixam claro a importância das redes sociais na formação da opinião política dos evangélicos. Recentemente, em entrevista ao jornal O Globo, o pastor Silas Malafaia, que usa as redes sociais para influenciar seu público a votar, disse que vai apoiar Bolsonaro usando sua estratégia de ataques a adversários políticos. Foi usada a expressão “canhão digital”, para nomear seu método de atuação, que consiste em “bombardear” seus seguidores nas redes sociais, principalmente com vídeos.

A política é a forma de organização mais importante de uma sociedade, pois é responsável por unir em si todas as demais lutas, dos trabalhadores às minorias.

O ambiente muitas vezes hostil das redes sociais dá a sensação de que a distância entre pessoas bem intencionadas – com bons argumentos – e os haters é uma linha tênue, mas não é; é um abismo profundo. Que nós deixemos o ambiente virtual de debate é tudo que os intolerantes querem, para proliferarem suas narrativas vis, mentirosas, e seus discursos de ódio. Por isso, fica o apelo às mentes pensantes: não abandonem os debates nas redes sociais. Um mundo melhor, sem preconceitos, sem exclusões e sem violência depende de nós, das ideias. Vai ter conflito, ofensas, preconceitos? Vai ter que insistir, persistir, repetir? Sim! Mas, como cantou Raul Seixas:

Tente!
Levante sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça aguenta, se você parar

Queira!
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo

Vai!
Tente outra vez!

Tente!
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida

Tente outra vez!

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