Felipe Catão | O verdadeiro cristianismo


“Em síntese, religião é solidariedade com os marginalizados (representados como os órfãos e as viúvas) e ruptura com as estruturas de pecado que geram marginalização (não se deixar corromper pelo mundo).”


Por Felipe Catão* – Publicado em 06/08/2018

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Milhares de moradores em situação de rua se concentram no centro da cidade de São Paulo. Foto: Ativismo Protestante.

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, descendo do pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade, a fim de sermos como que os primeiros frutos de tudo que ele criou. Aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los. Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo”.
(Tg 1.17-18,21b-22,27)

A carta de Tiago tem uma característica peculiaríssima: ela se opõe a um tipo de religião que foge dos compromissos existenciais e humanos para se refugiar no ritualismo, justificando as injustiças a partir de discursos mágicos e míticos ou fechando os olhos diante delas. Contrastando dois tipos de religião, Tiago nos diz o que é a verdadeira religião e o que é a falsa religião: a falsa religião é a religião sem ramificações na vida do fiel. Ao passo que a religião verdadeira reconhece a ponte entre aliança da fé e aliança do amor.

Os poucos versículos retirados do capítulo 1 (os versículos acima), comprovam isso. Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que todos os dons vêm de Deus. E entre esses dons está a vocação cristã. Ora, como diz o versículo 17, em Deus não existe variação nem sombra de mudança. Por isso, pertencer a Deus, enquanto criatura e, ainda mais, como cristão, comporta coerência e continuidade com o projeto do Senhor da Vida, animado pelo Espírito. O anúncio do Evangelho – Palavra da verdade, que provocou mudanças na vida cristã – faz com que os cristão sejam os primeiros frutos (as primícias) da nova sociedade que nasce da prática de Jesus e do compromisso dos que aderem a ele.

Tendo isso como base, Tiago convida a comunidade do Cristo ressurreto a acolher a Palavra e a colocar em prática o que ela determina (vv. 21b-22) – para merecer o nome de cristãos. Isso está em estreita relação com as exigências que o próprio Jesus fez a seus discípulos em Mt 7.24-26.

No tempo em que essa carta foi escrita, as comunidades cristãs arriscavam fechar-se em si mesmas, sem qualquer compromisso com a transformação da sociedade. Bem como hoje muitas igrejas têm se fechado em si mesmas, nos seus ritos de edificação, eliminando do seu seio do que é considerado nocivo pela moralidade ascética criada por elas. A centralidade da vida cristã, nestas igrejas, não tem sido Cristo – as próprias igrejas têm ocupado o centro da vida cristã. Nesse sentido, tanto a missão quanto a própria fé têm sido sufocadas por essa lógica igrejista.

O Deus morto de Nietzsche (que irrita muitos cristão que se consideram muito piedosos) faz todo o sentido para essas igrejas e para os “cristãos” igrejistas. Como bem escreveu Käsemann:

“Em muitos lugares os cristãos se sentem chocados com o slogan do Deus morto, pelo qual, aliás não se pode responsabilizar nenhum crente em particular. Deveríamos reconhecer, contudo, que a sua causa principal se encontra em nós mesmos. Ele se torna inevitável quando os que se dizem cristãos, deixando de prestar culto a Deus na realidade do cotidiano, se refugiam nas igrejas e em ritos edificantes. Quem despreza a realidade, por pouco que seja, trata o Criador e Pai de Jesus como morto, mesmo que não abandone os atos de culto, seja externos, na igreja, seja os internos, no próprio coração. Deus morre toda vez que os seus servos fogem da realidade exigida por ele. Também isso se pode aprender olhando para a cruz”.
(KÄSEMANN, Ernest. Perspectivas paulinas – 2.ed. – São Paulo: Editora Teológica, 2003, p.67)

Tiago insiste: “A religião que Deus, nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (v. 27). Em síntese, religião é solidariedade com os marginalizados (representados como os órfãos e as viúvas) e ruptura com as estruturas de pecado que geram marginalização (não se deixar corromper pelo mundo). Não se comprometer com uma estrutura de poder ou com uma política que retira direitos dos menos favorecidos, que descarta como inúteis aqueles que não são mais considerados produtivos, que exclui e marginaliza os que são diferentes dos padrões forjados socialmente.

Deus nada pede para si. O autêntico relacionamento com ele passa pelo caminho necessário da fraternidade e da justiça. Como obter maior fraternidade e justiça em nossas igrejas e comunidades? Quais ritualismos e tradicionalismos impedem o cumprimento da vontade de Deus?


Sobre o autor desse artigo

*Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura; simpatizante da causa indígena e quilombola; integra a Comissão por uma Internacional dos Trabalhadores; apoia e dialoga com grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre.

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