Andreza K. Vasconcelos | Deixa a gente errar


“Deixem as mães escolherem, mesmo que a escolha seja o pai do bebê ter a guarda da criança. Mesmo que você não aprove, se coloque no lugar da mãe. Não julguem as mães, ajudem elas.”


Por Andreza Kethleen Vasconcelos* – Publicado em 06/08/2018.

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Andreza Kethleen Vasconcelos. Reprodução.

Eu já disse que é só você nascer mulher que já é julgada? Pois é, mas se você se torna mãe, o julgamento triplica; isso você já ouviu também. É difícil viver sobre os olhos de julgamento da sociedade. Você dormiu até tarde: é preguiçosa; você deixou a casa bagunçada um segundo: é bagunçada; você teve filho cedo: é inconsequente; você teve filho tarde: já estava passando da hora; você não teve filhos: com certeza quer ficar para titia. Enfim, é só ser mulher e de brinde ter um filho (pior quando é dois), para as pessoas vieram com: “você já vai fechar a fabrica né?”, “tem que ter mais um, vai que um morre!”. Mas ter dois filhos é maravilhoso, tirando a parte que você tem menos tempo para si, tem menos tempo para os dois, tem menos tempo para o marido… a vida divide 24 horas em 12 horas.

Já parou para pensar que mãe não tem nojo do cocô do bebê até a introdução alimentar? A gente aprende a conviver com esse cocô todo nas nossas mãos e roupas. Às vezes, a gente esfrega, esfrega a roupa manchada do cocô e não sai nem um pouquinho; a gente deixa aquela pequena manchinha de cocô ali mesmo igual a uma obra de arte, porque não tem Vanish que tire: o bebe é o Picasso da merda, literalmente. Não sei como fui parar nesse papo de cocô, deve ser porque essa coisa faz parte do meu dia a dia, assim como pensar em mim mesma não faz mais parte do meu dia.

A gente fica toda hora ali pairando sobre a órbita da nossa cabeça de mãe pensando em tudo, menos na gente. Principalmente em o que os bebês vão comer, o que eles vão vestir, como vão ser quando maiores, como vão ser quando adultos, ou, às vezes, na psicologia infantil, na forma de educar as crianças para que elas sejam adultos saudáveis, que não julguem as mães do futuro. Essa é a melhor parte de ser mãe, a gente pode fazer um ser humano diferente da gente e das outras pessoas, a gente educa um ser humano, mas o pior mesmo são os outros. Como dizia Sartre: “O inferno são os outros”! E se parar para refletir são mesmo, principalmente se eles te marcam no Facebook em técnicas de educação infantil ou técnicas para cuidar de bebês, como se cuidar de crianças e educá-las tivesse uma técnica ou uma fórmula.

A gente tenta explicar que nem todo bebe é igual. “Mas funcionou com filho de fulano”, isso não significa que vai funcionar com o meu remelento. Já nos basta toda  aquela pressão que a gente mesmo coloca na gente, de nossos filhos serem alguém de bem na vida. A gente mesmo vai atrás de técnicas miraculosas para ver se o “remelilsom” se torna uma criança mais saudável e educada: “não pode bater”, “apanhei e não morri”, “introdução alimentar com seis meses”, “pode socar comida com um mês”, “não pode dizer não”, “tem que dizer não”.

Aí, você vai tentando de tudo para ver se dá certo, sempre com a cabeça de que agora vai. Até a hora de você dizer “chega!”, que vai fazer tudo da própria convicção, que mãe sabe o que faz. E advinha só? Mãe erra, gente. Ela não é um ser milagroso, que sempre sabe o que faz, a pressão faz com que a mãe acabe caindo. É tanta coisa e não existe um manual de instrução, não existe nada nem ninguém que saiba dizer o que está certo ou o que está errado. Mãe tem seus motivos, mas quase ninguém entende. Por isso deixem os pais serem pais, deixem eles ajudarem as mães, deixem eles saírem com a criança sem precisar chamar o conselho tutelar, que vocês já pensam que o pai está sequestrando o bebê.

Deixem as mães escolherem, mesmo que a escolha seja o pai do bebê ter a guarda da criança. Mesmo que você não aprove, se coloque no lugar da mãe. Não julguem as mães, ajudem elas. Perguntem se elas querem ajuda, se elas querem carinho. Deixem elas errarem, deixem elas escolherem e, principalmente, respeitem.


Sobre a autora desse artigo

*Andreza Kethleen Vasconcelos, 21 anos, Atriz, casada com Felipe Catão, mãe do Renato Vasconcelos Catão e da Clara Vasconcelos Catão. Mulher, negra, feminista; escreve para o Blog “Amor, Girassol, liberdade e arte”.

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