Ser “homem de Deus” é partilhar os bens da criação com todos

“Como explicar que há cristãos que defendem o grande acúmulo de riqueza nas mãos de uns poucos, enquanto há milhares de pobres e miseráveis lutando para ter pelo menos uma refeição diária?”

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Moradores sem teto acampam em frente à Igreja  Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, após desabamento do prédio que ocupavam. Foto: Ativismo Protestante.

“Veio um homem de Baal-Salisa e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada e espigas verdes no seu alforge. Disse Eliseu: – Dá ao povo, para que coma. Porém, seu servo lhe disse: – Como hei de por isso diante de cem homens? Ele tornou a dizer: – Dá ao povo, para que coma; porque assim diz o SENHOR’: – Comerão, e sobejará. Então, lhos pôs diante; comeram, e ainda sobrou, conforme as palavras do SENHOR”.
(2Rs 4.42-44)

2Rs 4 é uma coleção de fatos sobre a vida do profeta Eliseu. São a memória de como age quem é, ao mesmo tempo, homem de Deus e homem do povo sofrido. As ações de Eliseu neste capítulo tem como destinatárias pessoas necessitadas: 4.1-7 – uma viúva que arrisca ver escravizados os filhos para saldar uma dívida; 4.8-37 – a sunamita que perde seu único filho; 4.38-41 – os irmãos profetas, passando fome, arriscam morrer ao tomar uma sopa envenenada; 4.42-44 – o homem de Deus, ao receber as doações, ensina a partilhar os bens da criação, de modo que ninguém sofra necessidade.

Um homem de Baal-Salisa, na região montanhosa de Efraim, às margens do riacho de Caná, oferece a Eliseu vinte pães de cevada e espigas verdes. O homem, ao trazer as primícias, demonstrou sua dedicação a Eliseu e sua gratidão por seu trabalho profético. Ora, as primícias eram oferecidas a Deus como gesto de reconhecimento pelos benefícios recebidos (cf. Lv 2.14; 23.9-21; Dt 18.3-5).

Deus, o Senhor da criação, obviamente não retinha para si esses frutos, destinando parte deles para os sacerdotes e parte para quem ofertava, que devia partilhá-los (o objetivo das primícias era a partilha). Deus se contenta com o reconhecimento: ele é o criador e Senhor de tudo. Para que o gesto de doar as primícias fosse completo, se fazia necessária a partilha dos bens que, no fundo, pertencem exclusivamente a Deus, mas que ele quer ver partilhados entre todos.

É por essa razão que, ao receber a oferta, do homem de Baal-Salisa, diz: – Dá ao povo para que coma (V.42). Deus não reteve para si o que lhe era oferecido. Eliseu, “homem de Deus”, ensina a partilhar o que Deus criou para todos.

Numa sociedade habituada a privilegiar a posse, as pessoas acham que há pouco para ser partilhado. Pensam que não vale a pena nem tentar: “Como hei de eu pôr isto diante de cem homens?” (V.43). Parece uma tentativa inútil, incapaz de resolver a questão da miséria e da pobreza. Porém, Eliseu não está interessado em criar teorias sobre a questão da posse e da fome do povo: sua única convicção é a de que os bens da criação são para todos. Se isso não está acontecendo, é porque alguém distorceu a perspectiva do criador, portanto, está indo contra sua vontade, guardando para si o que pertence a ele e que deve ser dividido entre todos. O que ele criou é suficiente para todos, e ainda sobra. Basta partilhar para evidenciar: “comeram, e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor” (V.44).

Como explicar, então, que nosso país seja tão rico, com bens suficientes para suprir a necessidade de todos, possui uma população tão pobre e que seja campeão mundial em má distribuição de renda e bem-estar da sua população? Se uma família sobrevive com menos de 10 hectares de terra cultivada, por que há fazendas com mais de 900.000 hectares, cujos donos (políticos, banqueiros, industriais), sequer morem na terra, nem precisem dela para viver? Como explicar que há cristãos que defendem o grande acúmulo de riqueza nas mãos de uns poucos, enquanto há milhares de pobres e miseráveis lutando para ter pelo menos uma refeição diária? Como é possível criar um mundo novo, sem que haja tantas desigualdades sociais e abismos econômicos? Como a Igreja deve se comportar diante dessa realidade – como voz profética, que denuncia aqueles que estão distorcendo a vontade de Deus? Ou como cúmplices, como pastores que apascentam a si mesmos (cf. Ez 34.2), que direta ou indiretamente recebem algum benefício dos poderosos?


Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura; simpatizante da causa indígena e quilombola; integra a Comissão por uma Internacional dos Trabalhadores; apoia e dialoga com grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre.

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