Felipe Catão | Herodes nunca mais


“A situação dos missionários, das lideranças da Igreja primitiva, não é tranquila. Porém, a situação do povo era insuportável: ‘eram como ovelhas que não têm pastor.'”


Por Felipe Catão*

Felipe Catão. Reprodução.

“Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado. E ele lhes disse: ‘Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto’, porque eles não tinham tempo nem para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham. Então, foram sós no barco para um lugar solitário. Muitos, porém, os viram partir e, reconhecendo-os, correram para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram antes deles. Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas.”

(Mc 6.30-34) 

Os discípulos, agora chamados apóstolos, ou seja, agora mais próximos e, portanto, emissários diretos de Jesus, retornam da missão. Fazem, com Jesus, uma avaliação do trabalho: prestam contas do que fizeram – expelir muitos demônios, curar numerosos enfermos, ungindo-os com óleo (v.13), pregavam ao povo que se arrependesse (v.12). A princípio, tem-se a impressão de que a missão foi breve. Afinal, o próprio Jesus, em seguida, convida seus apóstolos à se retirar para um lugar deserto, afim de descansar um pouco.

A situação dos discípulos é de intensa atividade: “eles não tinham nem tempo para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham” (v.31b). É a mesma situação enfrentada por Jesus (cf. 3.20); assim como o Mestre, eles precisam se retirar para um lugar deserto e solitário (cf. 1.35). A situação dos missionários, das lideranças da Igreja primitiva, não é tranquila. Porém, a situação do povo era insuportável: “eram como ovelhas que não têm pastor” (v.34); e, mais ainda, é a situação da gente que chegou ao extremo da exploração, a ponto de não ter nada para continuar vivendo (cf. 6.36). Aos discípulos falta tempo, mas ao menos tem o que comer. O povo não tem o que comer! Os discípulos precisam descansar um pouco, porém, os que vão e vêm, necessitados, são muitos.

Jesus e seus apóstolos partem de barco para um lugar deserto e afastado, contudo, muitos o veem partir e, a pé, chegam lá antes deles. Aqui não cabe especular como eles conseguiram chegar do outro lado tão rápido, primeiro que o barco com Jesus e os apóstolos. O importante é ressaltar que um povo necessitado e empobrecido corre em busca de esperança. As necessidades do povo são muito mais urgentes e maiores que a dos discípulos. Por mais sem tempo e cansados que estejam os missionários, as lideranças, discípulos e discípulas do Cristo, há sempre uma numerosa multidão para ser ajudada e libertada.

O povo está cansado, sobrecarregado, não suporta mais o peso da opressão. As lideranças políticas (Herodes), ao invés de devolver esperança ao povo, matam seu porta-voz (João Batista). Tal como ainda hoje, ao invés de tornar a vida do povo mais suportável, os líderes políticos roubam cada vez mais, deixam cada vez mais o povo vulnerável e ainda matam os representantes do povo que levantam sua voz contra a opressão. É por isso que o povo sai de todas as cidades para um lugar deserto, lembrando o exôdo do Egito (onde o sistema faraônico ceifava vidas), para daí atingir a “terra prometida”.

E é nesse lugar deserto que Jesus, o novo líder, encontra o povo sofrido e se interessa por ele. O primeiro gesto de Jesus é compadecer-se dessa gente esmagada pelos traidores do povo. Marcos emprega quatro vezes o verbo compadecer, sempre se referindo a Jesus. É a reação comum de Jesus diante dos sofrimentos das pessoas, provocados pela exclusão social. Jesus se compadece “porque eram como ovelhas que não têm pastor”. Se formos procurar no Antigo Testamento, encontraremos passagens em Nm 27.17, 1Rs 22.17, Ez 34.5 com referências semelhantes. E todas elas tratam da falta de liderança capaz de conduzir o povo para a posse da liberdade e da vida.

Assim como Javé, Jesus se compadece e assume a liderança dessa gente sofrida e explorada pelos traidores do povo, que na maioria das vezes pousam de messias, redentores da pátria. Marcos, com essa expressão (compadeceu-se), quer sublinhar que Jesus é o líder que conduz os pobres na construção de uma nova sociedade. Aí começa o mundo novo – “e passou a ensinar-lhes muitas coisas” (v.34c). Marcos não revela o conteúdo desse ensino, isso porque o ensino de Jesus é conduzir as pessoas à prática da novidade do Reino. Concretamente, o ensino de Jesus é o que vem a seguir, ou seja, a lição da partilha dos bens da criação, sem que ninguém fique excluído ou passe necessidade.

A partilha, o grande banquete da vida, é a grande doutrina que Jesus apresenta. Quem realmente aprendeu dele, nunca mais desajará voltar ao domínio dos traidores do povo, assassinos de lideranças populares; os Herodes que, diante da morte de líderes do povo, da execução desses líderes e profetas, optam por se calar, com receio de que sua opinião seja polêmica. Qualquer pessoa que tenha uma opinião polêmica sobre a morte de um semelhante é, no mínimo, patético. Herodes nunca mais!

Deixo nesse espaço algumas reflexões: quais lideranças políticas estão traindo o povo, hoje? O que prometem – o que fazem? Merecem a confiança do povo? Quem está matando, hoje, as esperanças e as lideranças populares (sindicalistas, ambientalistas, ativistas, missionários)? Quem está levando o povo a preferir o deserto? Como Cristo se posicionou diante dos traidores do povo? Como os cristãos, hoje, se posicionam e se organizam diante dos líderes que traem as expectativas de direito e de justiça? Boa reflexão.


 Sobre o autor desse artigo

Felipe Catão Pond, bacharel em filosofia, poeta, contista e cronista. Escreve para o blog “Amor, girassol, liberdade e arte”. Ativista político junto aos grupos de mídia independente, de arte alternativa e contracultura; simpatizante da causa indígena e quilombola; integra a Comissão por uma Internacional dos Trabalhadores; apoia e dialoga com grupos de Igrejas Inclusivas. Em Manaus, ajudou na fundação da Humanidade Livre.

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