Teologia | O tempo de Deus


“E de um só [homem] Deus fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação […]” (Atos 17:26) 


Por Osmar Carvalho*

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“A persistência da memória”. Salvador Dali, 1931. Reprodução.

O surrealismo é uma corrente artística e literária que ousou perturbar e questionar o mundo lógico aparente, convencionado,  questionando suas verdades imutáveis e propondo possibilidades para além da pura razão, que, levada ao extremo, produziria também as mais extremas aberrações humanas, como as guerras. No quadro acima, um símbolo dessa arte abstrata, intitulado “A persistência da memória” (1931), Salvador Dali questiona o tempo e suas implicações em nossa vida. Sob influência de Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise, e por sua obra “A Interpretação dos Sonhos”, os surrealistas pregavam a libertação do inconsciente das algemas  da lógica e da razão obsessivas. O tempo, representado por Dali como relógios que derretem, frágeis, não é senhor do homem e da vida – assim como os padrões sociais.

Onírico, o tempo humano, principalmente a memória, não é o mesmo tempo dos relógios: preciso, constante e progressivo. Uma lembrança de décadas passadas pode ressurgir em nossa memória como se fosse agora. Do mesmo modo, algo que se passou ontem pode parecer a muito tempo esquecido. De acordo com as circunstâncias, um minuto pode ser uma eternidade, cem anos pode ser pouco para viver algo. Muitas vezes, nosso inconsciente também distorce a realidade a nossa volta, nos sentimos como estranhos no mundo, perdidos nele.

Esse sermão, que agora tenho a oportunidade de pregar aqui, é na verdade uma reflexão sobre duas coisas que vira e mexe nos perturbam: as coisas que Deus tem para nós, e o tempo dessas coisas para nós. Enfim, surgiu de algumas questões minhas mesmo, mas que creio podem ser de mais alguém aqui. Como elas se dão? Como podemos ter certeza que as alcançaremos? Como podemos esperá-las?

Para começar, busquei saber um pouco sobre o tempo, para introduzir essa palavra, encontrando algumas afirmações divergentes. Porém, uma me pareceu plausível, mais de acordo com o caráter eterno de Deus e sua onipresença.

Começando por Isaac Newton, ele definiu o tempo como absoluto, fluindo como um rio, independente de fatores externos, ou seja, o tempo seria algo como um semi-deus, auto-suficiente e soberano sobre qualquer coisa ou força. Já Einstein, contrariando Newton, redefiniu o tempo, derrubando-o de seu trono, tirando sua áurea de absoluto e imutável, colocando-o como algo relativo, dependente de fatores externos, como a velocidade de quem nele viaja ou observa um evento qualquer. O filósofo Santo Agostinho, que conseguiu ligar a Filosofia à religião, coisa que até então não acontecia, trouxe um estudo aprofundado sobre o tempo, chegando à conclusão de que o tempo seria somente mais uma criatura de Deus. Para ele, Deus não está preso no tempo, embora seja nele, mas está também além dele, externo a ele – pois é infinito. Enquanto o infinito é ausência de tempo, o tempo é uma criação finita, com começo, meio e fim, do qual Deus tem pleno controle. Agostinho concorda com a afirmação do apóstolo Paulo:

“E de um único [homem] fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação […]” (Atos 17.26)

Essa definição de Agostinho é razoavelmente de acordo com o sentido que procurei extrair dessas duas passagens que lemos. Em Eclesiastes, o pregador tem uma inspiração sobre o tempo das coisas de Deus e afirma: “O que foi, isso é o que há de ser […] há algo que se possa dizer: é novo?”… Ele mesmo responde, inspirado por Deus: “Não!”

“O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” (Eclesiastes 1:9,10)

Quem sabe qual visão ele estava tendo ao afirmar isso com tanta veemência? Mas ele parece estar certo de sua conjectura, seja por intuição ou por revelação divina, contemplando o que Deus já havia preparado séculos antes, os quais existiram muito antes de nós.  Glória a Deus por isso! Ele está certo de que Deus age em todos os séculos, e pra ele nada será novidade, pois sua vida está nas mãos do Altíssimo, o Senhor absoluto do tempo e das coisas.

Paulo, tomado por uma inspiração semelhante, começa a carta aos Efésios com um louvor a Deus. Vale ressaltar aqui que louvar é render adoração involuntariamente a Deus, pelo que ele é e por seus grandes feitos. Não é necessariamente um cântico. Ele então tem uma inspiração sobre o caráter temporal das bênçãos de Deus, a qual lhe alegra tanto a ponto de ele afirmar que Deus nos abençoou “com todas as bençãos espirituais”, porque ele nos elegeu antes da fundação do mundo.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo;

Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor […]” (Efésios 1:3,4)

Imaginem, irmãos, Paulo estava preso ao escrever isso. Será que teríamos essa convicção, de, encarcerados, afirmamos que Deus nos abençoou com todas as bênçãos dos céus? Só por inspiração divina mesmo!

Irmãos, não prego aqui a predestinação, nem sou calvinista, mas ao contrário, todos sabem que Jesus afirmou que a vontade de Deus é que todos cheguem à salvação. Porém, uma coisa Paulo deixa clara e nos dá a certeza: Deus não faz acepção de pessoas para salvar, assim como não faz acepção de pessoas na hora de abençoar. Ele não predestinou somente alguns para a salvação, mas predestinou todas as bênçãos espirituais para os “alguns” que ele sabia que creriam no nome de Jesus, seu filho amado! Bendito seja Cristo para sempre…

O Eclesiastes é o livro do Salomão maduro, mais responsável. Mesmo depois de tantas quedas e frustrações, ele se retira para filosofar as coisas que aprendeu e vivenciou, e encontra essa esperança em Deus: que, ainda na sua velhice, ele veria a ação misericordiosa do Senhor. Paulo, mesmo sendo prisioneiro, teve a mesma certeza séculos depois: o tempo está nas mãos de Deus. O meu, o seu, o nosso tempo está nas mãos do nosso Deus, e ele tem pleno controle sobre tudo isso, sobre tudo que acontece em nossas vidas, não importa a época nem o momento. Ele é o dono do tempo.

Temos nosso próprio tempo; a ciência tem o tempo lógico;  Deus tem o tempo dele. Embora nossas ações possam nos colocar em conflito com o amor de Jesus – por meio do nosso livre arbítrio ou do nosso imediatismo – isso nos consola, pois temos um deus soberano, que trabalha o tempo das coisas, dos acontecimentos, para que cada um de nós seja alcançado por todas suas bênçãos, com as quais, como afirmou Paulo, ele nos abençoou nas regiões celestiais, antes mesmo da fundação do mundo. Que as esperas e as circunstâncias temporais não nos façam desfalecer jamais! Tenhamos bom ânimo nas aflições! Tenhamos fé na escuridão… Tenhamos esperança na fraqueza:

“Quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor […]”

(Isaías 50:10-b)


Sobre o autor desse artigo

*Osmar Carvalho é engenheiro e colaborador do Ativismo Protestante em São Paulo.

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