Editorial | A homofobia religiosa do pastor Ariovaldo Ramos

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Pastor Ariovaldo Ramos. Reprodução da internet.

A homofobia se apresenta disfarçada de pecado nas igrejas evangélicas. Os que assim pensam a consideram um estado de espírito caracterizado por uma influência demoníaca sobre o homem ou a mulher homossexual, que os levaria à incontinência de seus apetites sexuais e, consequentemente,  à depravação moral. Daí ser chamada de homofobia religiosa. Portanto, por inferência lógica, o pastor progressista Ariovaldo Ramos é homofóbico, pois comunga dessa certeza acerca dos homossexuais.

Progressismo versus homofobia

Se todo progressista deve obrigatoriamente aceitar os homossexuais (pessoas que se sentem atraídas sexual, emocional ou afetivamente por pessoas do mesmo sexo/gênero) e ser a favor de relações homoafetivas (complexas relações afetivas e/ou sexuais entre pessoas do mesmo sexo/gênero) é uma questão discutível, mas todos nós temos o dever de combater a homofobia, religiosa ou não, independente de ideologia política ou religião.

Ainda que implique cortar na própria carne, não podemos coadunar com nenhum discurso homofóbico, que só serve para estimular e perpetuar a violência contra a comunidade LGTBI+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans, travestis e outros), colocando o Brasil na  primeira posição entre os países onde mais se mata homossexuais no mundo. Em 2017, foram registrados 445 casos de assassinatos de homossexuais em todo o país, segundo o levantamento do Grupo Gay da Bahia. De acordo com a ONG Transgender Europe, entre 2008 e junho de 2016, 868 travestis e transexuais foram mortos de forma violenta. A cada 19 horas, um LGBTI+ é assassinado no país.

Por que o pastor Ariovaldo Ramos? 

Essa não é uma escolha aleatório nem pessoal, mas simbólica, pois se trata de um dos maiores líderes dos evangélicos progressistas, de esquerda política, no Brasil. Ariovaldo é um dos fundadores e principal líder da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, um coletivo que reúne mais de 10 mil pessoas em todo o Brasil e milita ao lado de movimentos sociais e minorias. Logo, faz-se necessário uma crítica a sua postura homofóbica, dado o seu poder de fala, de multiplicação de narrativas e de formação de opinião, sob pena de termos de um ariovaldismo homofóbico amanhã – no caso de omissão.

Além disso, Ariovaldo usa as redes sociais para propagar sua mensagens, como a Mídia Ninja (com 1,7 milhão de seguidores no Facebook), o blog Nocaute (quase 57 mil seguidores na página no Facebook), a página da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito no Facebook (quase 10 mil seguidores), sua própria página e seu blog.

Quem é o pastor Ariovaldo Ramos 

Pastor calvinista e filósofo de formação, pai de duas filhas, escritor, articulista e conferencista, Ariovaldo Ramos (apelidado de “Ari”) nasceu em 1º de janeiro de 1956, na cidade de São Paulo. Já se divorciou. Seu pai era operário e sua mãe costureira. Quando criança, viveu na zona norte; quando adolescente, em Guarulhos. Já foi presidente da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), missionário da SEPAL (Servindo aos Pastores e Líderes), presidente da Visão Mundial no Brasil e diretor da Faculdade Latino Americana (FLAM). Atualmente é pastor da Comunidade Cristã Reformada.

Em 2011, por sua atuação em defesa dos Direitos Humanos, recebeu da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos.

Referência em Teologia da Missão Integral (TMI) – que faz uma leitura militante da Bíblia, voltada para os pobres – atuou ao lado de outros nomes conhecidos no meio, como Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista da Água Branca (IBAB). Segundo documento da biblioteca da Câmara Municipal de São Paulo, Em 1984, trabalhou ao lado do conhecido pastor Caio Fábio D’ Araújo Filho, no Rio de Janeiro, na Favela do Gás, em Niterói na Vinde (Visão Nacional de Evangelizaçã) uma ONG fundada por Caio. Nessa época despontou como um grande nome da TMI, aliando fé e militância social. Ainda de acordo com o documento:

“Em 1991, de volta a São Paulo, Ariovaldo se envolveu no ministério Jeame – Jesus Ama o Menor, que trabalhava com crianças e adolescentes em situação de rua, especificamente as que se drogavam e praticavam pequenos delitos na Praça da Sé. O trabalho consistia em restabelecer o vínculo das crianças com suas famílias, através de atendimento integral. Do Jeame passou a apoiar também a Missão Ágape, que atendia crianças que aguardavam adoção.

Em 1993 coordenou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, do Betinho, na cidade de São Paulo. Sendo o primeiro evangélico a ocupar a coordenação, envolveu dezenas de igrejas na campanha contra a fome, motivando-as a arrecadar e distribuir alimentos para as instituições cadastradas.

De volta ao Rio de Janeiro, em 1996, retorna a trabalhar na Vinde, dessa vez na Fábrica da Esperança, em Acari, subúrbio da cidade. Entre suas funções estava a implementação de pólos de cidadania e prestação de serviços à comunidade, como os cursos realizados na Fábrica. Lá eram oferecidos cursos gratuitos de eletricidade, informática, inglês e teatro para 15 mil pessoas por mês, das quais oito mil adolescentes.

A participação de Ariovaldo Ramos também é presente após a chacina de Vigário Geral, onde 21 pessoas da comunidade foram mortas por Policiais Militares, na construção da Casa da Paz.”

Face ao exposto, deixamos claro, de antemão, que reconhecemos a história de luta do pastor em defesa dos mais pobres, de uma sociedade justa e igualitária. Nossa análise é unicamente da sua postura em relação aos homossexuais.

O que é homofobia?

Para dizermos que alguém é ou não homofóbico, precismos definir o que é homofobia e suas variantes: homofobia de Estado, internalizada e religiosa.

Homofobia

Segundo definições do Manual de Comunicação LGBT, um guia para veículos de comunicação abordar temas relacionados a essa comunidade, elaborado pela Rede GayLatino e pela Aliança Nacional LGBTI:

“Homofobia é a rejeição e/ou aversão a qualquer forma de expressão da sexualidade diferente dos padrões heteronormativos. A homofobia frequentemente é manifestada em inúmeras ações discriminatórias, não raro violentas, que apontam para um ódio baseado na orientação sexual do outro(a).”

“A homofobia pode ser definida como o medo, a aversão, ou o ódio irracional aos homossexuais, e, por extensão, a todos os que manifestem orientação sexual ou identidade de gênero diferente dos padrões heteronormativos.”

“Homofobia tem sido um conceito guarda-chuva, utilizado para descrever um variado leque de fenômenos sociais relacionados ao preconceito, à discriminação e à violência contra homossexuais. Na maior parte das vezes, os fenômenos da intolerância, do preconceito e da discriminação em relação a gays, lésbicas (lesbofobia) e transgêneros (transfobia) devem ser tratados não com terapia e antidepressivos, como no caso das demais fobias, mas sim com a punição legal e a educação. A homofobia também é responsável pelo preconceito e pela discriminação, por exemplo, no local de trabalho, na escola, na igreja, na rua, no posto de saúde e na falta de políticas públicas afirmativas que contemplem a comunidade. A homofobia também pode ser manifestada de inúmeras formas pela própria mídia.”

Homofobia de Estado

De acordo com o Manual:

“Termo utilizado para se referir à postura do Estado, por meio da legislação, da omissão ou de atos de seus governantes ao promoverem discriminação ou incitarem o ódio, a hostilidade e reprovação dos homossexuais. Em maio de 2009, 80 países ainda criminalizavam a homossexualidade, sendo que em sete deles, a punição é a pena de morte.”

Homofobia internalizada

Ainda segundo o Manual:

“Refere-se ao medo de ver sua orientação sexual revelada publicamente, levando o indivíduo a adotar atitudes preconceituosas contra LGBT.”

Homofobia religiosa

O professor constitucionalista Leonardo Sarmento aborda bem essa questão da homofobia institucional praticada pelas igrejas, em um artigo intitulado E por que a homofobia ainda não configura um crime?. Ele diz:

“Homofobia significa aversão a homossexuais em seu sentido mais amplo. Abarca hoje em dia com o surgimento de novas denominações além de qualquer ato ou manifestação de ódio ou rejeição a homossexuais, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.ainda lésbofobia, bifobia e transfobia e outras significações mais que carreguem o mesmo sentido hermenêutico.

Sob o manto protetor da liberdade de credo, ortodoxias religiosas marcadas pela ignorância e insensibilidades utilizam da fé-religiosa para pregar o ódio e a discriminação da diversidade. Faz tempo já presidem parcela dos meios de comunicação e se ativam na política com o fulcro de barrar ideais de diversidade e legislar em direção a discriminação de gênero.

Para estes verdadeiros asseclas da fé discriminatória não é de hoje que promovem a pregação para a conversão de homossexuais como cura de uma doença ou expulsão de um demônio. Em pleno século XXI parece-nos estarmos em meio a alguns seres ainda do período Paleolítico.”

Orientação ou opção sexual?

Estabelecidas as definições de homofobia, podemos ainda indagar se a condição de um homossexual é uma opção ou não. O próprio Manual de Comunicação LGBT nos traz uma luz sobre essa questão importante:

“Essa expressão é incorreta. O termo aceito é “orientação sexual”. A explicação provém do fato de que ninguém “opta”, conscientemente, por sua orientação sexual. Assim como o heterossexual não escolheu essa forma de desejo, o homossexual (tanto feminino como masculino) também não.”

Ou seja, está descartada a hipótese de alguém simplesmente optar por uma sexualidade ou outra.

Mas, se essa simples afirmação pode parecer simplista, à primeira vista, podemos recorrer a outros argumentos, como teológico, biológico, cultural e filosófico.

Argumento teológico

Para uma reflexão teológica, o bispo Hermes C. Fernandes aborda a questão da demonização da homossexualidade, em seu artigo intitulado O Abominável Homossexual e a abominação que há em mim, analisando algumas passagens da Bíblia usadas para defender a ideia de pecado. O texto é longo e deve ser lido na íntegra pelo leitor desse artigo, pois desmistifica e desfaz o argumento de que o homossexual é menos digno da misericórdia de Deus do que os heterossexuais; ou de que que este é superior àquele em alguma coisa. Pelo contrário, Jesus relativiza velhos preconceitos dos religiosos judeus, colocando-os no mesmo nível pecaminoso.

“‘Não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita à casa do SENHOR teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao SENHOR teu Deus’ (Deuteronômio 23:18). Por isso, seu anfitrião pôs em xeque o ministério de Jesus. ‘Se ele soubesse quem é esta mulher, de maneira alguma aceitaria sua oferta’. Ele preferiu chegar à conclusão de que Jesus não era quem dizia ser a simplesmente aceitar que a graça prevalecia sobre o juízo estabelecido pela lei.

Repare que o mandamento põe a prostituição e a prática homossexual em pé de igualdade. Portanto, o que se aplica às prostitutas, aplica-se também aos homossexuais.”

“O fato de ser heterossexual não me dá o direito de sentir-me moralmente ou espiritualmente superior ao homossexual. Todo preconceito é abominável aos olhos de Deus.”

Argumento biológico

Em seu artigo Ser gay não é uma opção! – As razões biológicas da homossexualidade, Hermes C. Fernandes mostra exaustivamente que a homossexualidade não é uma opção, mas tem inclusive origens genéticas. Vale a pena ler o artigo na íntegra também, pois tem referências de estudos científicos sobre esse tema.

“Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata.”

Argumento cultural

No Editorial Precisamos romper com a heteronormatividade, publicado pelo Ativismo Protestante, Felipe Catão demonstra como os padrões sociais convencionados e impostos pela maioria agem para oprimir uma minoria, no caso os LGBTs.

A heteronormatividade é um conjunto de ações, situações e relações praticadas entre pessoas do sexo oposto, tomadas como fundamentais, naturais e normais dentro do universo social. Ela localiza o ser humano dentro de duas categorias distintas e complementares: o macho e a fêmea (como sinônimos de homem e mulher). Desse modo, sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa dentro das normas masculinas e femininas, e heterossexualidade é considerada como única orientação sexual normal. É desse modo que se cria um discurso (e uma visão) do sujeito como possuidor de uma natureza humana intrínseca, e é assim que se cria um padrão comportamental aceitos como correto e natural, e outro incorreto e antinatural. É correto e natural, por exemplo, ver um casal homossexual se beijando, é errado, abominável e antinatural, por outro lado, ver um casal homossexual se beijando, por exemplo; são definidos gostos que são essencialmente femininos e que são incorretos para os homens e vice-versa.

Como consequência, esse modelo heteronormativo produz ‘pessoas margens’ (marginais), que são vítimas de uma segregação, cada vez mais controladas, vigiadas, assistidas na sociedade. Tudo que não entra nas normas dominantes é enquadrado, classificado em pequenas prateleiras e colocado em espaços particulares, longe do centro do convívio social. Diante do modelo tradicional de família, não existe espaço para que dois homens ou duas mulheres possam constituir uma, pois não é o amor (na visão tradicional) que constitui uma família, mas sim a necessidade de procriar. Na visão tradicional (e fundamentalista) cristã, não existe espaço para expressão do amor e da afetividade entre pessoas com uma orientação sexual diferente, pois, de acordo com o modelo cristão, Deus criou o homem e a mulher para se relacionar, sendo a homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, abominação e pecado.”

Argumento filosófico

Em outro editorial do Ativismo Protestante, intitulado Liberar o casamento gay é liberar a verdade, é discutida a questão do ponto de vista da liberdade e da verdade, como a pós-modernidade tem empoderado narrativas de minorias, em detrimento de verdades absolutas da maioria.

“É claro que a liberação do casamento gay soa ridícula, pois um pedaço de papel nunca impediu e nunca impedirá duas pessoas de viverem juntas e se relacionarem. Mas uma coisa é certa: sua liberação tirou muitos do armário e os levou às ruas. Estão por ai em toda parte agora, se beijando, se assumindo, enfim…apareceram!

A verdade é que sempre estiveram por aí, escondidos, reprimidos pela falta de liberdade: a liberação! Bastou a liberdade (liberação) vir e parece que se multiplicaram? Não! Sempre existiram, mas, sob a visão europeia, ainda não eram uma verdade, não eram comprovados pela ciência. Logo, não tinham a liberdade de ser.”

Cura gay

Outro argumento que tem sido muito usado, principalmente por evangélicos, é o de que seria possível curar a homossexualidade, com base em terapias e tratamentos. Essa defesa perdeu força e se tornou um absurdo hoje em dia.

De acordo com o Manual de Comunicação LGBT:

“Conselho Federal de Psicologia, por meio da resolução 001/99, veda toda e qualquer tentativa de um psicólogo de ‘curar’ seu paciente homo ou bissexual. Nesses casos, o profissional que infringir a resolução pode sofrer sanções, inclusive a perda do registro profissional. Também um psiquiatra ou médico pode ser denunciado ao Conselho Regional de Medicina, caso tente ‘tratar’ a homossexualidade.”

Além disso, após 28 anos de luta da comunidade LGBTI+, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu retirar a transexualidade da lista de doenças e transtornos mentais, não sendo mais passível de tratamento e cura. A mudança veio com a divulgação da 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID), nessa segunda-feira (18), pois “as evidências são claras de que não é um transtorno mental” – diz a OMS.

Até então, a transexualidade, condição das pessoas que não se identificam com seu sexo determinado ao nascer, era classificada como um transtorno mental, no mesmo rol de doenças como esquizofrenia, cleptomania e depressão. Com a mudança, ela passa a constar em uma categoria de um novo capítulo da CID, chamado de “condições relacionadas à saúde mental”.

A homossexualidade também foi retirada da lista de doenças da CID, na sua 10° edição.

Casamento homoafetivo no Brasil

No Brasil, a norma do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que regulamenta o casamento homoafetivo, passou a valer para todos os cartórios do país em 14 de maio de 2013. Desde então, os casais homoafetivos passaram a ter o direito legal de se casar no civil. A norma do CNJ sacramentou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que em 2011 criou jurisprudência favorável ao reconhecimento da união de pessoas do mesmo sexo. Desde 1916, somente casais heterossexuais tinham seus direitos relativos a casamento reconhecidos por lei.

Casamento homoafetivo nas igrejas cristãs

Assim como a Igreja Católica, as principais denominações evangélicas do Brasil são contrárias e proíbem a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre elas: Igreja Metodista, Igreja Presbiteriana, Assembleia de Deus e Igreja Batista. Em decisão histórica, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) alterou seus cânones e estendeu o matrimônio a homossexuais. A notícia foi publicada no site do  Serviço de notícias da IEAB – no último dia 01 de junho. As chamadas “igrejas inclusivas” fazem parte de uma vertente evangélica que reconhece e celebra o casamento homoafetivo.

Estado laico e liberdade de credo

É importante lembrar que o Congresso Nacional nunca aprovou nenhuma lei em prol da população LGBTI+, embora a ideia de Estado laico pressuponha justamente velar por todos os cidadãos. O direito ao casamento civil e ao nome social não são leis ainda, isto é, são decisões favoráveis do judiciário a uma demanda específica, mas que podem mudar de entendimento a qualquer momento. Vários projetos tramitam pelo Planalto, mas a falta de interesse dos parlamentares, a pressão de políticos religiosos e das igrejas acabam inviabilizando o andamento deles.

Eis alguns projetos que estão engavetados:

  • Pena para o homicídio de pessoas LGBT (PL 7292/2017);
  • Direito à identidade de gênero de pessoas trans (PL5002/13);
  • Fim da restrição de doação de sangue por homossexuais (PL 6297/2016);
  • E o mais completo, o Estatuto da Diversidade, proposto pela OAB.

As igrejas, por outro lado, batalham para impedir que a criminalização da homofobia vire lei, sob alegação de que isso resultaria em prisões de líderes religiosos, ferindo a liberdade religiosa prevista na Constituição.

As falas homofóbicas do pastor Ariovaldo Ramos

Feitas as devidas considerações, demonstrando como o reconhecimento da união homoafetiva vem evoluindo para uma mudança comportamental, social, jurídica e religiosa, de forma a somar forças contra o preconceito e a exclusão dessa comunidade, passemos agora à análise das falas homofóbicas do pastor Ariovaldo.

A princípio, lembremos que Ariovaldo parece viver um dilema social-espiritual: de um lado, afirma defender o direito civil dos homossexuais casarem e constituírem família; de outro, defende uma posição teológica que os demoniza e exclui da graça de Deus e do convívio na igreja, tratando a homossexualidade como um desvio espiritual do que seria a vontade do Criador.

Em um artigo dele de 2013, intitulado Pelo direito de discordar, publicado em seu blog, ele analisa o caso envolvendo o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP) e um casal de lésbicas, que promoveram um ‘beijaço’ lésbico enquanto ele pregava. As duas acabaram presas na ocasião, a mando de Feliciano.

Ariovaldo afirma que os direitos dos homossexuais já estão na nossa Constituição, e que querer mais que isso, como o direito de se casar, seria reivindicar privilégios inaceitáveis em uma democracia:

“Eu respeito os seres humanos que optaram pela homossexualidade, mas, entendo que os direitos que estão a reivindicar já estão contemplados nos direitos da pessoa humana, cobertos por nossa constituição, e que o que passa disso constitui reclamos por privilégios, o que não é passível de ser concedido numa democracia, sob pena de contradizê-la.”

Em seguida, Ariovaldo decreta que é impossível transformar uma união de pessoas do mesmo sexo em casamento.

“Eu respeito o direito das uniões homossexuais terem garantida, pelo Estado, a preservação do patrimônio, por eles construídos, quando da separação ou do falecimento de um dos membros da união. Entretanto, discordo que seja possível transformar uma união voluntária de duas pessoas do mesmo sexo, a partir de opção comum e particular, em casamento, pois isso insinua haver um terceiro gênero na humanidade, o que não se explicita na constituição do ser humano.”

Por fim, o pastor conclui dizendo não ser possível substituir a boa criação do filho por pai e mãe por uma “mera boa vontade”, ou seja, por um casal homossexual.

“Assim como não entendo que a conjunção da maternidade e da paternidade, necessária para um desenvolvimento funcional do infante humano, seja substituível por mera boa vontade.”

No seu livro ‘Ação da Igreja na cidade’, o pastor trata os travestis como doentes, no sentido pejorativo da palavra (pecado, condenável, imoral), e a igreja como um hospital, um lugar terapêutico e de cura para o “mal” dessas pessoas.

Para Ariovaldo, a homossexualidade atrai a ira e a destruição (morte) de Deus sobre o indivíduo. Segundo ele, o Diabo não tem poder sobre a vida e a morte, somente Deus. Então, ele desenvolve uma argumentação para demonstrar essa tese usando a dialética socrática, pergunta e reponde:

“Se apenas Deus tem o poder de matar, como Satanás mata? Como ele faz isso?”

Ele mesmo responde, em uma longa demonstração bíblica. Começa demonstrando como Deus mede o tempo, chegando à seguinte conclusão: Deus mede o tempo de um indivíduo considerando não apenas fenômenos físicos, mas também sua iniquidade. Traduzindo, toda pessoa tem um tempo para se arrepender de seus pecados. Atingido esse limite, recai a ira de Deus sobre ela, sua destruição (morte).

Porém, segundo Ariovaldo, existe uma brecha nessa medida do tempo de Deus, e é nela que Satanás opera. A brecha seria a intensificação do pecado, ou seja, quanto mais a pessoa peca, mais ela reduz seu tempo de vida, podendo ser morta pela ira de Deus a qualquer momento. E o que o Diabo faz? Simples, seduz as pessoas (de forma não explicada) para que se inclinem mais e mais para os seus desejos e vícios, entre eles a homossexualidade, pois assim atrairão sobre si a revolta e a vingança de Deus contra sua iniquidade.

“Dessa forma, ele [Satanás] conseguirá roubar, matar e destruir.”

Esse processo da recaída da ira de Deus sobre as pessoas se daria em dois momentos. Primeiro Deus abandona o indivíduo à suas paixões, não ligando mais para ele; depois o mata.

“Assim, o que acontece? O ser humano, a cidade, a nação são entregues às próprias paixões […] Isso pode gerar um incremento do homossexualismo, da injustiça, da malícia, da avareza, da maldade, da inveja […] Então, o que estava ruim fica ainda pior e o tempo da longanimidade de Deus vai sendo abreviado até que a segunda fase da ira de Deus se precipita: A inexorável destruição do indivíduo, da cidade e da nação.”

Observe que Ariovaldo utiliza a palavra ‘homossexualismo’, em desuso há muito tempo, segundo o Manual de Comunicação LGBT:

“Em 1973, os Estados Unidos retirou ‘homossexualismo’ da lista dos distúrbios mentais da American Psychology Association, passando a ser usado o termo Homossexualidade.

Em nove de fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina aprovou a retirada, no Brasil, da homossexualidade do código 302.0, referente aos desvios e transtornos sexuais, da Classificação Internacional de Doenças.

Em 17 de maio de 1990, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou a retirada do código 302.0 da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membro das Nações Unidas a partir de 1º de janeiro de 1993.

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia formulou a Resolução 001/99, considerando que ‘a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão’, que ‘há, na sociedade, uma inquietação em torno das práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente’ (qual seja, a heterossexualidade), e, especialmente, que ‘a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações’. Assim, tanto no Brasil como em outros países, cientificamente, homossexualidade não é considerada doença.

Por isso, o sufixo ‘ismo’ (terminologia referente à ‘doença’) foi substituído por ‘dade’ (que remete a ‘modo de ser’).”

Em entrevista à Folha de São Paulo, a duplicidade e o antagonismo existenciais de Ariovaldo voltam a aparecer, ele diz que respeita os homossexuais, mas que homossexualidade não é de Deus e que eles não podem influenciar a teologia:

[A comunidade LGBT] “deve ser respeitada em suas escolhas, mas não tem direito de influenciar a teologia” – que é “muito clara ao dizer que há dois gêneros” [masculino e feminino]

Em outras palavras, Ariovaldo não reconhece a definição de identidade de gênero, segundo consta no Manual de Comunicação LGBT:

“Identidade de gênero é uma experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos e outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos.”

“Identidade de gênero é a percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de alguma combinação dos dois, independente de sexo biológico. Trata-se da convicção íntima de uma pessoa de ser do gênero masculino (homem) ou do gênero feminino (mulher).”

Ponto de vista versus homofobia 

Como o Ariovaldo Ramos consegue demonstrar tanto amor pelos homossexuais e tratá-los como abominações a Deus, seres pecaminosos indignos do perdão celestial, em seus escritos (livros, artigos, etc.)? Como ele consegue amá-los como cidadão e abominá-los como religioso? É possível ter ‘ponto de vista’ em relação a preconceitos?

Essa é a grande diferença, os evangélicos conseguem fazer um malabarismo mental para justificar o erro, no caso a homofobia, transformando-o num mero ‘ponto de vista’ ou ‘opinião’. Mas quando se trata de preconceitos não é aceitável dois lados, como defendem os ariovaldistas: ou se é contra ou se é contra. 

Uma igreja não pode decidir sobre realizar casamento de pessoas do mesmo sexo?

Se concordarmos que a violência contra determinado grupo social já bastante vulnerável (no caso exclusão, negação e estigmatização), como os homossexuais, se justifica pela omissão de uma legislação que os proteja, em benefício das igrejas, e isso é liberdade de crença, então está correto: as igrejas podem exclui-los sim. Mas não é o que nós, a Constituição, a Organização das Unidas (ONU) e os tratados internacionais afirmam, pelo contrário.

E não nos esqueçamos que alguns deputados usaram esse mesmo pretexto da imunidade parlamentar para agredir LGBTs, mulheres e negros, e foram condenados. O caso mais recente é do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que já teve três condenações por esses crimes e agora é réu no STF.

Toda liberdade tem limites. A violência é o limite de todas elas.

Todavia, assim como líderes religiosos (ainda) têm o direito legal de disseminar falas homofóbicas – como a do pastor Ariovaldo Ramos na Folha de São Paulo, e sobre o pretexto de liberdade de crença – as pessoas também têm o direito de dizer que eles são homofóbicos sim. E são mesmo. Se os exemplos aqui discutidos não são homofóbicos, são o que então? Pró-homossexuais?

Na verdade as igrejas evangélicas militam contra a criação de uma legislação para criminalizar a homofobia (como racismo e misoginia), todos sabemos disso, pois elas se valem dessa garantia da omissão de proteção dos Direitos Humanos dos gays, para se safar.

Tirando a égide da liberdade de crença, os fundamentalistas religiosos não têm mais nenhum argumento para defender seus crimes, como homofobia e sonegação de impostos. Também não lhes resta mais nenhum apoio, seja social, político ou legal. Só eles aprovam essas mazelas.

Considerações finais

Precismos radicalizar nessa questão do amor, contra a homofobia religiosa e outros preconceitos, com o seguinte pensamento:

“Entre qualquer coisa e amar, escolhamos amar.”

Isso tem uma consequência imediata, também radical, que é não odiar nunca. Se isso será humanamente suportável? Difícil… mas não impossível. E a teologia está no rol de ‘qualquer coisa’ também, em relação aos Direitos Humanos e ao reconhecimento do próximo como sujeito de direitos e um semelhante.

Nossa luta só será legítima se lutarmos pela dos outros também. Isso consequentemente nos impede de ficar calados ou nos omitir diante de qualquer preconceito ou injustiça, seja contra negros, mulheres, afroreligiosos ou homossexuais.

Dois conceitos são fundamentais para isso: colocar o próximo acima de si mesmo (altruísmo); colocar-se no lugar do próximo (empatia).

Em relação às lideranças religiosas fundamentalistas: Primeiro, precisamos demovê-las do seu absolutismo (Isso é quase impossível); segundo, levá-las ao debate de possibilidades sem sermos visto como ‘inimigos de deus’.

Em relação às igrejas: Reconhecer a homofobia institucional eclesial e dialogar seria o caminho menos danoso para elas e para líderes religiosos. Mas eles preferem a negação e o conflito.

Homossexualidade é pecado? Se é pecado, seja lá o que for isso, é tão pecado quanto olhar para uma mulher na rua e desejá-la, segundo Jesus. O amor pode ser pecado (mal)? Não para Nietzsche, que declarou:

“Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.”

É tempo de mudanças significativas, e as igrejas não estão nem estarão imunes a esses questionamentos. Não podemos mais ser partícipes do massacre contra os homossexuais.

“O amor vence tudo, cedamos nós também ao amor.” (Virgílio)

Acompanhe nossos Editoriais!

 

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