Editorial | Como nasce um Deus do futebol


“Vivam os deuses do futebol! Que nunca nos abandonem!”


Por Osmar Carvalho*

Pelé marca gol antológico na final da Copa do Mundo da Suécia, em 1958. Reprodução do YouTube.

Dentre os deuses, há uma categoria de deuses que se sobressai: a dos deuses unicistas. Eles não dividem sua glória com outros, exigem adoração fiel e completa dos seus seguidores e guerreiam contra seus opositores. Sua deidade, todavia, não é imposta, mas aceita e legitimada por seus feitos épicos e sobrenaturais. Seus fiéis os amam por isso, unicamente. Assim são também os deuses do futebol, e eles só nascem em Copas do Mundo.

Definitivamente, a Copa do Mundo não é um torneio para coletivos. Isso é uma soberba do maior torneio futebolístico e esportivo do mundo. Não procuramos por um time herói ou histórico de Copa, mas por um jogador específico, aquele que entrou para o imaginário de seu país. Sempre esperamos com fé um salvador, um messias. Da Copa, só duas alternativas: ou se sai Deus, ou se sai comum.

Na copa do mundo de 1986, a Argentina sagrou-se campeã do mundo. Mas o que ficou marcado na história, talvez mais do que o próprio título, foi a dramática partida entre Argentina e Inglaterra, pelas quartas de final. Temiam que a partida nem chegasse ao fim, ou chegasse a um fim trágico. Havia uns 4 anos que os dois países se enfrentaram em uma guerra sangrenta, a das Malvinas. Muitos mortos de ambos os lados e a Argentina, derrotada, amargava o fel da humilhação imposta pelos ingleses. Havia muito mais em campo do que simples jogadores, havia homens carregando diversos sentimentos, como vingança, superação, orgulho, nacionalismo. Homens nesse estado crítico de emoções são imprevisíveis, podem se abraçar e chorar ou se encarar e se matar. Era um jogo-batalha entre duas nações, outrora, inimigas.

Todavia, havia um homem capaz de suportar toda essa carga e ser simplesmente gênio: Maradona. Se o primeiro gol marcado por ele, de mão, foi histórico, o segundo – deixando para trás, humilhados, sete jogadores ingleses, inclusive o goleiro – foi uma obra de arte, épico. Impossível não se emocionar com a odisséia da jogada agressiva, saindo do meio de campo. Era 2×1 para a seleção argentina. Era a reconquista do orgulho argentino, a vingança sem armas. Foi uma “bomba atômica” jogada na Inglaterra, mas sem fissão nuclear. Era a vinda à luz de um Deus do futebol argentino. A vitória foi uma providência da própria “mão de Deus”, segundo os hermanos.

Na Copa do Mundo da Suécia, em 1958, o Brasil foi campeão pela primeira vez. Pelé, com apenas 17 anos, nem era titular do time, sendo escalado apenas no terceiro jogo, contra a perigosa União Soviética. Mas foi o suficiente para mostrar seus dons sobrenaturais. Na final memorável contra a Suécia, após um cruzamento dentro da área, ele domina no peito e, antes que a bola caia no chão, dá um chapéu em um jogador adversário, pegando de primeira a bola e fazendo um gol celestial, antológico. Com o gol mais bonito da história das Copas, Brasil, pela primeira vez campeão do mundo, 5, Suécia 2.

Mais uma vez, estava em campo um título mundial. Porém, do lado brasileiro estavam a amargura do maracanazo, sofrido na Copa de 50, no Brasil, o complexo de vira-lata dos brasileiros, a inferioridade do terceiro mundo latino-americano e a história dos negros. Pelé colocou fim a tudo isso, levando o país a um êxtase nacionalista. O país parecia ter sido liberto das suas dores. Nascia um Deus do futebol brasileiro. Entre seus milagres, três copas do mundo, mais de mil gols marcados e o título de atleta do século.

Atualmente, questionam se Messi superará a Maradona como ídolo do futebol argentino, ou Neymar será um Pelé para os brasileiros. A resposta é simples e clara: nunca. Maradona está para os argentinos como Pelé está para os brasileiros: uma relação deus-súditos. Ambos estão na classe de deuses unicistas, onde dividir glória com outro é impossível, pois nem eles nem seus fiéis o permitem.

Vivam os deuses do futebol! Que nunca nos abandonem!


Sobre o autor desse artigo

Osmar Carvalho é colaborador do AP em São Paulo .

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