Feminismo | Justiça de gênero contra a exploração das mulheres nas igrejas


“Parece que há uma hierarquia que valoriza os trabalhos realizados por homens, em detrimento das mulheres, nos ministérios das igrejas.”


Por Vanessa Barboza*

Bandeira do Feminismo. Reprodução da internet.

Um dia desses, numa conversa dominical com minhas matriarcas, lembrávamos como eram os tempos que participamos de festas comemorativas na igreja, no início da nossa conversão: “Ah! Era muito bom! A gente fazia bolo de milho, de mandioca, outra irmã levava macarronada, e outra salpicão. O povo da igreja sempre esperava isso quando tinha festividade” – minha tia recordava, com muito carinho. Realmente, aqueles eventos eram rodeados de solidariedade, ajuda mútua, alegria e autoestima das mulheres que, em meio à pobreza, retiravam de sua economia doméstica para compartilhar com a comunidade de fé.

Ali, comecei a refletir. As lembranças chamaram minha atenção para a realidade de vida dessas mulheres crentes, que são trabalhadoras e servas do Reino de Deus, como assim mesmo elas criam. Elas eram motivadas pela a ideia de que, como servas de Deus, deveriam servir com aquilo que sabiam produzir e fazer culturalmente: servir com o trabalho doméstico e com os cuidados. A igreja é uma instituição poderosa em aglutinar riquezas de diversas naturezas.

Uma das inspirações bíblicas recorrentemente evocadas para aguçar o imaginário motivacional das mulheres está na passagem do Evangelho de São Lucas, onde fala sobre “as mulheres que serviam a Jesus com suas riquezas e bens”. Ora, nós mulheres (empobrecidas, de comunidades periféricas) quando estamos desprovidas de dinheiro para ofertar à igreja, ofertamos algo com o mesmo valor que o dinheiro: o nosso trabalho intelectual e manual.

Somos as zeladoras, as professoras, as cuidadoras de crianças, as ornamentadoras, as cozinheiras, as cantoras, as diaconisas… Tantas e tantas trabalhadoras que servem
“voluntariamente” às igrejas, tendo como retribuição um “momento de oração” ou uma “salva de palmas”, em agradecimento pelo inestimável trabalho que desenvolvemos em nossas comunidades.

Entretanto, muitos líderes religiosos masculinos desenvolvem suas atividades de modo assalariado ou sob a forma de ajuda de custo, até porque “todo obreiro é digno do seu salário”, assim diz a bíblia. As poucas mulheres que recebem salário, recebem no valor inferior aos dos homens ou não recebem.

Parece que há uma hierarquia que valoriza os trabalhos realizados por homens, em detrimento das mulheres, nos ministérios das igrejas. Ou será que quem ministra e lidera é mais importante do que quem cuida e ensina? Ou temos um grande problema relacionado à distribuição de recursos da igreja ou temos um problema relacionado à questão da equidade entre homens e mulheres nas instituições religiosas. Ou temos as duas coisas intimamente imbricadas e enraizadas em nossa cultura gospel. Estaríamos reproduzindo as mesmas desigualdades sociais que o mundo secular impõe às mulheres no mundo todo: a desigualdade na divisão sexual do trabalho.

As mulheres pobres e marginalizadas sempre foram alvo da justiça de Deus, e o Mestre Nazareno nos revelou as reatualizações culturais que velam as injustiças impostas a essas mulheres. Jesus reivindica e denuncia as injustiças praticadas pelos fariseus contra o direito das mulheres viúvas, explorando sua condição de empobrecimento:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.”

Relembramos aqui as viúvas como um grupo empobrecido do Oriente Médio, que na tradição judaica sempre foi alvo das ações de assistência e promoção de justiça, juntamente com o órfão e o estrangeiro, conforme registros do livro de Deuteronômio. E ainda, na igreja primitiva, as viúvas foram alvo de atenção diaconal e pastoral, compreendendo essa categoria não apenas como as mulheres “sem marido”, mas, de modo ampliado, como todas as mulheres sujeitas à pauperização feroz, às violências e às discriminações sociais.

As mulheres correspondem a 70% dos evangélicos no Brasil, segundo dados do IBGE (2013), mulheres que sobrevivem com renda familiar de até dois salários mínimos. A despeito dessa realidade perversa e agravada com todas as precariedades de serviços sociais públicos indignos, somos nós que sustentamos com nosso trabalho (remunerado ou não) as riquezas e comodidades usufruídas pelas diversas denominações em nosso país.

Quais os novos pretextos religiosos que submetem ou perpetuam a condição de exploração do trabalho das irmãs em nossas igrejas? Por que as trabalhadoras e servas do Reino de Deus não recebem o valor real pelo trabalho dedicado às organizações religiosas? Não seria da ética e da justiça cristã que os recursos financeiros arrecadados nas congregações fossem igualmente repartidos entre servas e servos do Reino de Deus, assim como o foi na igreja primitiva? Por que ainda manter um discurso em que as recompensas celestiais nos aguardam, enquanto vós, homens, desfrutam das recompensas terrenas e monetárias?

A felicidade em servir e trabalhar no Reino de Deus é verdadeira na vida das mulheres evangélicas de nosso país. Sabemos do valor do nosso trabalho, da nossa capacidade de criação e cuidado com as pessoas. Mas acreditamos que o Evangelho de Jesus é firmado na verdade e na justiça para as ações de sua Igreja, entre mulheres e homens, combatendo a corrupção e a ganância. Precisamos viver essa verdade. A mudança social que tanto desejamos para nossa nação começa nas ações práticas de nossas igrejas. Precisamos que nossas comunidades de fé desenvolvam a justiça de gênero, do modo como bem nos ensinou Cristo.


Referências

Texto escrito com a colaboração de integrantes do Comitê de Gênero e Direitos Humanos do Movimento Negro Evangélico em Recife.

Bíblia Sagrada. Livro de Deuteronômio 5; Livro de São Lucas 8: 1- 3; Livro de São Mateus 23:14; Livro dos Atos dos Apóstolos 6 e Primeira Carta a Timóteo 5:18.

Kramer, Pedro. Estrangeiro, órfão e viúva na legislação deuteronômica: Programa de uma sociedade igualitária, de solidariedade e de partilha. Rev. Inter. Mob. Hum., Brasília, Ano XVIII, Nº 35, p. 247-264, jul./dez. 2010.

As mulheres são maioria entre os evangélicos, que são 22% da população: A maioria dos fieis neopentecostais tem renda per capita inferior a um salário mínimo. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2013/11/18/politica/1384814411_373235.html?id_externo_rs oc=FB_CC. Acessado em 03 de Junho de 2018.


Sobre a autora desse artigo

*Vanessa Barboza é mobilizadora local do Movimento Negro Evangélico em Recife, Co-fundadora do Coletivo Vozes Marias, Assessora da Escola de Fé e Política Pastor Martin Luther King, Assistente Social, mestranda em Educação, Culturas e Identidades (UFRPE/FUNDAJ), Especialista em Gestão da Política de Assistência Social (UNICAP), Professora substituta de Serviço Social (UPE).

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