Editorial | Precisamos libertar os gays da igreja, como libertamos negros e mulheres

São Paulo – 21ª Parada do Orgulho LGBT, com o tema Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um Estado laico, na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Os argumentos usados pelo pastor Ariovaldo Ramos – em entrevista à Folha de S. Paulo, de que respeita os gays, mas que homossexualidade não é de Deus e que eles não podem influenciar a teologia – são os mesmos usados no passado para desumanizar os negros e as mulheres. Assim como os famintos da miséria, precisamos libertar os gays dos agrilhões da igreja. É uma questão mais do que religiosa, é humanitária.

Assim como os negros, que eram considerados sem alma pela igreja, e as mulheres, que eram consideradas seres indignos de sequer abrir a boca na igreja, oxalá que um dia esse jugo pesado contra aqueles que amam de forma diversa acabe também. A começar pelo pastor Ariovaldo Ramos. Que ele reveja essa posição em relação aos gays um dia.

Mas o pastor progressista foi além, segundo ele, os gays não podem influenciar a teologia, ou seja, fazer teologia. A mesma coisa também foi determinada para os negros e para as mulheres. Estas, ainda hoje são proibidas de ascender a cargos do alto escalão das igrejas cristãs, como o sacerdócio de padre e pastor; enquanto aqueles foram obrigados a adorar um Deus branco, de cabelo liso e olhos azuis, mais conveniente aos europeus e poderosos. Depois de séculos de opressão, enfim surgem as teologias negra e feminista, para desconstruir a narrativa branca e machista da Bíblia.

Se, de um lado, é difíci julgar sem uma cruz na mão, de outro, é fácil tentar sentir um pouco da dor do outro, como nesses dois casos. A prova por absurdo é um argumento aceito para provar verdades que a lógica e a matemática não conseguem; consiste em uma extrapolação da realidade. Podemos aplicá-la aqui. Imagine você, negro, chegando a uma igreja para encontrar refrigério para sua alma. Chegando lá, a primeira coisa que lhe dizem é que você não tem alma. A segunda, que você pode entrar e conviver com os brancos que ali estão, desde que se pinte de branco como eles. É isso ou rua. Tal situação não lhe soa absurdo? Agora imagine você, mulher, chegando a mesma igreja, em busca de proteção ou ajuda, e lhe dizem que deve se submeter a todos os mandos e desmandos dos homens que ali se encontram. E tudo isso sem o direito de falar um “a”. Se for negra então.

Tais exemplos não conseguem lhe convencer da legitimidade homoafetiva? Nem Deus? Tudo bem, se Deus não lhe condena, a linguística sim. É justo amar, não cabe nenhum “mas”, “contudo”, “porém”, “todavia” nem “entretanto” – pois a função fática de tais operadores argumentativos é unicamente contrariar o que foi dito antes deles.

O “mas” parece ser a solução de sempre para pastores e líderes religiosos que tentam romper com a velha teologia, mas não conseguem; um eufemismo para “é do diabo”.

Ao se posicionar dessa forma, Ariovaldo se mostrou tão conservador e reacionário quanto Malafaia, Feliciano e Jair Bolsonaro, que vivem repetindo esse discurso para justificar suas opressões aos gays e legitimar sua condenação moral, social e espiritual. Isso é no mínimo preocupante e digno de uma auto-crítica por parte dos protestantes progressistas, pois veio de uma das nossas maiores referências. Falas como essa só contribuem para perpetuar a discriminação e o ódio contra a população LGBT.

Se pela gramática, pelo absurdo, por amor a Cristo, pela afinidade identitária, pela compaixão, pelo conflito ou pelo reconhecimento dos Direitos Humanos, não importa: Precisamos libertar os gays da igreja.

Mas fica difícil quando a violência vem de um dos nossos.

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